343

11 + 11
01 . para terminar o ano


01 / Explosions in The Sky / Trembling Hands / Take Care, Take Care, Take Care / 2011
02 / PJ Harvey / The Words that Maketh Murder / Let England Shake / 2011
03 / Dead Combo / Blues da Tanga / Lisboa Mulata / 2011
04 / Bon Iver / Holocene / Bon Iver / 2011
05 / The Black Keys / Lonely Boy / El Camino / 2011
06 / Florence and The Machine / Bedroom Hymns / Ceremonials / 2011
07 / The Horrors / Changing The Rain / Skying / 2011
08 / Feist / How Come You Never Go There / Metals / 2011
09 / Fleet Foxes / Grown Ocean / Helplessness Blues / 2011
10 / Tv on The Radio / Forgotten / Nine Types of Light / 2011
11 / Lykke Li / Youth Knows No Pain / Wounded Rhymes / 2011



aqui ficaram + 11 selecções, feitas ao longo do ano.

342

em jeito de despedida antecipada


dediquei este ano à concretização de dois dos meus mais antigos sonhos: voltar a dançar e começar a aprender a tocar bateria. 
na humildade de quem se sente, assim, mais próxima de uma qualquer verdade sobre si mesma, peço-vos: aproveitem o novo ano para recordar os vossos sonhos; aqueles aparentemente mais parvos, que puseram de lado por acharem que já não faziam sentido. façam uma lista de coisas que gostavam de fazer, cumpram-na aos poucos. inventem coisas novas, amem, gritem, lutem por tudo aquilo em que acreditam. 

enquanto formos vivos, nunca é tarde demais.

341

resumo


nunca contar os rostos que faltam a uma mesa; celebrar os que estão presentes, erguer um copo de vinho aos que habitam a saudade.

340

não me peças para ter calma: corrói-me antes a pele, sente-me os lábios, o tremor das pernas, a ponta dos seios. por debaixo do vestido sou carne, quente e imensa como as mãos que me tocam. afunda-te, sente o desejo no meu respirar. quanto mais de mim precisas para perceberes que te quero?

339

1:34
abstracção

lisboa . 2011

338

1:31
aproximação degenerativa

lisboa . 2011

337

1:29
contemplação do objecto

lisboa . 2011

336

sinto falta de algo que desconheço. pergunto à lua e às estrelas para onde foi o meu sorriso, mas também elas ignoram o seu paradeiro. e até podia ser um qualquer deus o sol que de dia vejo, que as respostas às minhas perguntas iriam permanecer, uma vez mais, repletas de silêncios.

335

2011 de 56 maneiras:

01: dar um mergulho nocturno . (05.08.11)

02: desenhar uma saia ou vestido, para mandar fazer  . (15.04.11)

03: fazer 8 caminhadas de 8km . ( 08 / 08 ) (01.07.11)

04: apresentar Projecto sem directas . (19.07.11)

05: ouvir só música portuguesa durante 15 dias seguidos (em Janeiro) .

06: concluir 3 disciplinas em atraso . (03 / 03) (19.07.11)

07: engordar 5kg . (16.06.11)

08:  passar 2 rolos de fotografias analógicas para o computador . (24.04.11)

09: beber 5 copos de chá de menta fresca . ( 05 / 05 ) (28.07.11)

10: cantar uma música inteira sem desafinar . (13.02.11)

11: sair de madrugada para fotografar . (09.06.11)

12: comer sushi todos os dias, durante uma semana . (algures em Janeiro)

13: passear pelo Gerês . (12.02.11)

14: retomar o projecto 3°6'5'' diariamente . (01.02.11)

15: fazer uma viagem . (03.08.11)

16: não utilizar a internet, durante 15 dias seguidos . (08.11)

17: tomar o pequeno-almoço todos os dias, durante 1 mês . (07.11)

18: nadar nua no mar . (11.08.11)

19: recuperar dois móveis / objectos . ( 02 / 02 )  (04.02.11)

20: nadar numa praia fluvial . (28.07.11)

21: organizar um horário semanal . ( 09.02.11)

22: fazer um piquenique . (23.08.11)

23: chorar muito num casamento . (08.10.11)

24: andar de barco . (01.10.11)

25: fazer uma mesa-de-cabeceira nova . ( 05.02.11)

26: iniciar uma lista baseada no 30 song challenge . (07.03.11)

27: ver 50 longas-metragens . ( 50 / 50 ) (26.11.11)

28: ver 10 exposições . ( 10 / 10 ) (04.12.11)

29: ver 50 curtas-metragens . ( 50 / 50 ) (07.12.11)

30: ler 10 livros . ( 10 / 10 ) (16.11.11)

31: compor e partilhar uma playlist por mês . ( 12 / 12 ) (26.12.11)

32: ver 05 peças de teatro / espectáculos de dança ( 05 / 05 ) . (13.11.11)

33: assistir a 05 concertos . ( 05 / 05 )

34: fazer uma publicação por dia, durante uma semana . (dezembro)

35: fazer mais três "filmes" . ( 03 / 03 ) (27.11.11)

36: conhecer 05 sítios novos . ( 05 / 05 ) (22.08.11)

37: vestir calças de ganga 5 vezes . ( 05 / 05 ) (21.07.11)

38: saber um poema de cor do início ao fim . (26.04.11)

39: percorrer Lisboa a pé . (23.02.11)

40: fazer uma lista, por ordem alfabética, das coisas de que mais gosto e me são importantes . (30.01.11)

41: fazer uma lista de "um dia vou" para 2012 . (02.12.11)

42: sair à rua de saltos altos . (21.07.11)

43: participar numa manifestação . (15.10.11)

44: não me esquecer de nada, durante 3 dias seguidos . (08. 05. 11)

45: conseguir desligar o ipod à primeira, 5 vezes . ( 05 / 05 ) (01.07.11)

46: dançar à chuva . (16.08.11)

47: abraçar todos os meus amigos . (ao longo do mês de Outubro de 2011)

48: acordar antes do despertador, pelo menos 5 vezes . ( 05 / 05 ) (10.05.11)

49:  ler três textos em voz alta, sem me engasgar ( 03 / 03 ) (11.08.11)

50: achar que não estou melhor sozinha . (25.08.11)

51: conseguir ler Lobo Antunes sem medo do efeito das palavras . (17.11.11)

52: estar acordada ao nascer-do-sol e, de facto, ver o sol a nascer . (18.08.11)

53: ganhar uma semana de férias numa ilha tropical . (09.08.11)

54: iniciar as aulas de bateria . (09.12.11)

55: pôr em prática o projecto white walls on black cubes . (09.12.11)

56: voltar às aulas de dança . (03.11.11)

333

um destes dias será tarde demais:
habituar-me-ei à ideia de viver sem ti.
adormecerei sem lágrimas.
lisboa não terá o teu nome nas ruas.
a poesia não me lembrará a tua voz.
poderei devolver o olhar à cinemateca, sem medo de te encontrar.
ou passear nos fins de tarde de outono, pelos jardim da gulbenkian.
talvez aí percebas que sim, que desististe.
que sim, o amor é o mais importante de tudo.

que não, já não estou aqui.

331

saí à rua vestida de vermelho: meias vermelhas, vestido vermelho, lábios vermelhos. tudo estupidamente vermelho. não é bonito, eu sei, mas acordei a precisar de qualquer coisa que me lembrasse que estou viva. fogo do lado de fora do corpo, em vez de por dentro da pele.
não serviu de nada, se queres saber. continuo a duvidar se estarei mesmo aqui. usei ainda uma fita da mesma cor, a enfeitar o cabelo, e um punhal de rubis cravado no coração. apesar disso, fingi que estava tudo bem. não tenho alternativa. tem que estar tudo bem porque é suposto. porque tem que se aceitar as falhas da vida com a mesma naturalidade com que se aceita uma cereja podre num lanche de verão: é chato, mas há mais e, com certeza, serão melhores. digo-te, vesti-me de vermelho para não me vestir de preto. um luto na cor errada, pois assim ninguém sabe que o é. de resto, coloquei dois agrafos bem grandes na extremidade das bochechas, e acenei que estava mesmo tudo bem.

está tudo bem. 
está tudo bem. 

está tudo bem.

330

paris . 2010


329

sobre a arquitectura 03

Dediquemos o corpo ao sentir: fechemos os olhos, a força das pálpebras contra o controlo absoluto do pensamento. As roupas rasgadas, a pele humildemente exposta à brisa, à textura dos materiais, à reverberação. Para lá da visão, agora negada, não importa o “bonito”. A estética tem a fragilidade de um sopro, a importância sazonal de uma qualquer verdade de origem questionável.
Habitemos o espaço como uma extensão do que somos. Confrontemos a escala de uma praça com a dimensão dos ossos; a rugosidade de uma pedra tocando os músculos; a claridade de uma sala, completa dentro da garganta. O arquitecto tem a dádiva absoluta do “silêncio”, do “tempo”, da “solidão”. A capacidade de evocar memórias e as transformar em espaço físico. De esculpir a matéria como se transportasse a alma na ponta dos dedos. De construir metáforas: o odor do Outono numa madeira envelhecida, o calor de um abraço na atmosfera de uma casa, a infância na luz que entra pela janela. Construamos para a totalidade de nós. Da fina camada de pele que cobre o crânio, até “aos tremendos ossos dos pés”. Construamos para a plenitude de existir, para o autêntico. “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.

leitura interpretativa do livro Eyes of the Skin, de Juhani Pallasmaa

328

sobre a arquitectura 02

acreditava ser possível habitar o silêncio
e na brancura infinita desenhar espaço-essência,
ou um instinto maior do que o sentir;
como se todas as coisas fossem espera
e o silêncio o prolongar infinito da chegada.

imaginava ser possível uma multidão a partilhar uma sala,
sem eco
sem ruído
sem o prolongar de conversas
manchando as paredes de palavras sem nexo.
uma sala ecoando vazios.

desabituámo-nos do silêncio,
ou da branda quietude do ventre de uma mãe.
e no ruído último desta morada,
esquecemo-nos de pensar
ou de sentir.

327

04:35


No alto do teu pedestal passas por mim. Ignoras-me a pele podre sobre os ossos corroídos. Os músculos esfarrapados, os olhos manchados de bolor. 
Toco-te ao de leve no pé. Lanças-me um vómito amarelado que me escorre pelo rosto. No ar, o riso que dedicas a tudo aquilo em que acredito. Gozo e escárnio perante os meus sonhos. És tão idiota. Achavas mesmo que ia me ias fazer amar? Que ias ser mais importante do que a minha solidão? Olha para mim, serei sempre só. Mas é bom ir encontrando meninas tolas como tu, para me recordarem o calor de um corpo. Até te posso emprestar os prazeres da carne e a poesia, mas não esperes mais do que isso. E não me peças a família, os amigos, as paredes do meu quarto, o sítio onde moro. Tudo isso estará sempre longe de ti. Toma esta caixa. Se quiseres, põe-te lá dentro, se não larga-me. Não me aborreças. Cansas-me. 

326

04:03


Tenho pena que nunca respondas a nada do que te digo. Que as tuas palavras sejam sempre estou exausto. Eu também estou exausta. Há tanto tempo. Mas precisava que me dissesses porque ainda estou aqui. Que me fizesses acreditar que o que vivemos foi verdadeiro, que o sentiste, que foi importante para ti. Eu já não acredito em nada. O desprezo que nos dedicas fez com que não acredite em mais nada.
Preciso de um hino ao amor.
Um hino ao nosso amor.
Um hino fúnebre ao nosso amor morto.

325

03:50

Disse-te um dia que te ia amar para sempre. Que íamos erguer uma casa num jardim de outono, pintar a noite de estrelas, o céu de púrpura, as palavras de poesia. Disse-te que se não fosse feliz contigo não seria com mais ninguém, que desistia do amor.
Nunca houve casa sem ser nos meus sonhos. O teu céu foi sempre negro e as palavras mortais. Nunca foste capaz de ceder o espírito e me abraçar o corpo, a alma, tudo o que sou. O teu amor é tão cheio de mordaças, de muros intransponíveis, de medos. É um amor tão longe de amar. 

324

03:37


Há tanta coisa aqui sobre ti. Tudo termina com "sei que nunca vais ler". E nunca leste. Talvez tivesses percebido: todos os gritos e pedidos de socorro, todas as coisas que não soubeste ouvir.

323

03:35


Deito-me no lado errado do corpo, amasso as feridas, rasgo a pele.
O coração poisado na mesa-de-cabeceira recorda-me que morri.
Tinha tantos planos para depois.



322

03:30


Há um veneno que mata lento: tem o silêncio desta noite e a precisão das minhas lágrimas. Escorre e queima o peito.
É uma saudade mortal.

321

ode ao coração que ainda trago comigo,
ou a ti. posso chamar-te meu amor? só desta vez, como se te recordasse. é a última, prometo. 




























parede . 2011

320

hoje estou de luto: enterrei o homem que amei e o que desejei.

amanhã acordarei mais leve. quem sabe feliz.

319

amei-te como se fôssemos morrer no mesmo dia,
os nossos corpos extintos sob o brilho apagado das estrelas.
era uma história eterna: adornada de lírios, poesia, palavras doces que nos envolviam num abraço.


perco aos poucos o contorno do teu corpo,
olho para tudo aquilo que já não temos.
que fomos, mas já não temos.

o meu coração habita agora o fundo do rio.
coração, pai e peixes cobertos de água.

guardo-te dentro dos ossos. 



fora deles magoas-me demais. 

318

foi assim, olha:


parede . 2011


317

quero pedir-te um favor.
sim, a ti.
não tenhas medo, aproxima-te.
senta-te aqui a meu lado.
é bonito esse teu sorriso tão tímido.
toma, dou-te a minha mão para que a sintas.
é pequena, eu sei.
toda eu sou pequena, se achas o contrário enganas-te.
vem comigo ver o mar.
é isso que te quero pedir, que venhas comigo ver o mar.
onde vivo há o mar mais bonito que conheço.
e uma praia sem areia, só rocha.
tem pássaros sobre a água e pescadores sob o luar.
não precisamos de falar, se não quiseres.
só quero que vejas a minha praia e o pôr-do-sol na minha terra.
amanhã ao final do dia.
sim?

316

Cedo o meu lugar aos mortos.
Seria tão fácil renunciar ao cheiro sepulcral das magnólias, ao cantar das Tágides, à bruma infinita do deserto.
Um louco lambe-me as feridas. 
Com a língua fétida queima-me as veias; pedaços de pele morta presos aos lábios negros.
Recordo a alma violada, trespassada pelo ódio, quando me disseram tens de ser feliz.

Sangue seco cobre-me a vista.
A língua pendendo num fio, poisada junto ao peito.
O lugar do coração ecoando murmúrios que não entendo; que nunca soube entender.
Ter-me-ia bastado um beijo na testa, para acalmar o corpo.
Uma festa ao de leve nos cabelos.
Um sorriso.

Todas as coisas que já não sinto.

Que ardem e se extinguem ante mim. 

315

divagaremos sempre para o lado mais denso do mundo






























imagem de rui alves rocha.

314

desejei o sol inteiro só para poder dizer que o que me destrói o corpo é o astro e não o homem.

311

há noites em que adormeço
com
o oceano inteiro pendendo
da
ponta
das
pestanas
.

310

algés . 2011

em todas as fotografias - as poucas - em que estamos juntos, surgimos desfocados, indefinidos, na forma de negros vultos. 



escrevemos um amor de sombras. 








um amor de sombras. 

309

as minhas mãos vazias das tuas mãos, têm o peso do mundo
do coração ardente em chumbo
do amor esquecido
da saudade.

as minhas mãos vazias das tuas mãos, são chagas
feridas abertas maceradas rente ao peito.

sinto-te o calor do corpo. a indiferença nos gestos. a distância brutal que nos habita.
beijo-te o pescoço. gelam-se os lábios. não há mais sangue nas veias.

sobre a franja depositas um beijo que não sinto. o tempo passa. somos mudos. 
e até podia gritar, chorar, empurrar-te com força, cair: duvido que alguma coisa te faça ver que ainda estou aqui.

308

"Eu acreditava mesmo que o amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Eu acreditava que se levantam tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda. Eu acreditava que o amor é o sentido de todas as palavras impossíveis."

José Luís Peixoto, Uma Casa na Escuridão

306

amo.te
e ao mesmo tempo - como é possível - estás tão longe de mim.

sei que partilhámos as imagens mais belas, as palavras mais puras, a sinceridade mais autêntica de quem não tem medo de dizer

estou tão só.

desculpa se tenho sonhos inocentes de menina. se preciso de acreditar no amor para sempre; de imaginar uma casa junto ao mar, com poesia nas paredes e ervas aromáticas à janela.

desculpa se achei que era contigo que podia ser assim, feliz.

no meio das lágrimas esquecemo-nos do sorriso.

da leveza.

do simples estar.

tudo o que de mais próximo tenho agora foste tu me mostraste, me ensinaste, me fizeste ver.
e, no entanto, já não sabemos estar juntos. 

o meu coração tem a forma do teu rosto, da tua pele mais macia, das tuas mãos delicadas, o teu nome todo dentro dele. mas isso não chega.

quero dizer-te:

não desistas de nós.

não desistas de nós. não desistas de nós. não desistas de nós. não desistas de nós. não desistas de nós. não desistas de nós. não desistas de nós. não desistas de nós. não desistas de nós. não desistas de nós. não desistas de nós. não desistas de nós. não desistas de nós. não desistas de nós. não desistas de nós. não desistas de nós.

tenho medo de te deixar sozinho. não te quero deixar sozinho. se pudesse, pegava-te ao colo, afastava-te os cabelos dos olhos, beijava-te a testa, as pálpebras, a ponta do nariz. se pudesse, emprestava-te um pedaço do meu coração para poderes sentir o que sinto. o meu coração inteiro, se o sentisses melhor.

não te quero deixar partir.
nem quero que este seja mais um texto de despedida, a juntar aos que já tens.
mas estamos tão longe um do outro. tão, tão longe um do outro.

eu amo.te. 

só quero que fique tudo bem. 

305

se pudesse, tatuava nos ossos todas as coisas que me fazem feliz.


para que nunca as esqueça. nunca as esqueça:

mensagens de boa noite e de bom dia
beijos na testa
setembro, outubro, novembro e dezembro
passeios nocturnos na praia
gelados no inverno
chá de menta
nadar nua no mar
um ramo de flores campestres
bolo acabado de fazer
adormecer num abraço
histórias de amor
observar as estrelas
ver animais nas nuvens
correr
rir
dançar
concretizar sonhos antigos
escrever sonhos novos
viajar
andar de barco, nos eléctricos antigos, de bicicleta
sentir o vento nos cabelos
o frio no rosto
saias e vestidos
pele perfumada
rolos fotográficos fora do prazo
fotografias a preto e branco
colo
o pôr-do-sol
dead combo
salas a meia-luz
finais de tarde em lisboa
cartas bonitas no correio
sorriso
conversas sem hora de acabar
cheiro a livros antigos
cadernos novos
a primeira chuva de cada ano
ronron de um gato
passear de mãos dadas
recordar coisas bonitas
os amigos que o tempo não apaga
as pessoas que surgem novas
grão na tela
ruído da película
os pássaros que não dormem e cantam de madrugada
a primavera
o amor da mãe
das irmãs
torradas com marmelada de morango
um elogio inesperado
sal na pele
um beijo
mil beijos
pés descalços sobre a areia

...

acreditar que a memória é o lugar mais sagrado que temos nesta vida. que o coração tem o tamanho certo para o mundo. que cada dia é uma marca que devemos manter para sempre connosco.

303

Na minha rua há um louco que se chama solidão. Traz uma corda em torno do pescoço, no coração uma seta cravada até ao outro lado do peito. Não tem mãos nem braços; duas rosas sem pétalas ocupam o seu lugar. Sorri com a boca vazia, enquanto uma lágrima seca se acomoda no mais profundo da pele. Dizem que um dia amou, mas que o amor o trocou por uma qualquer forma de liberdade. Vive de noite e morre de dia; às vezes parte num navio feito carcaça, ao largo de uma encosta esquecida. Um dia chamou-me para junto dele, deitou a cabeça no meu colo, pediu que lhe passasse as mãos pelos cabelos. Tinha o peso do mundo nos ossos e na alma a leveza de quem deixou de acreditar. 

301

devaneios de tinto da casa

O sangue cega, o sangue seca, o sangue suga. Sanguessuga dá sangue que não sangra; só esquece.
A raiz do pensamento são três freiras e um gato. O gato reza todo o dia a um deus por ele inventado. As freiras deitam-se ao sol e miam, espreguiçam-se enquanto recebem festas na barriga.
Acredito que temos astros no lugar do coração; universo e planetas orbitando nas veias.
Tudo o resto são coisas que nos esquecemos de contestar.
Liberta o corpo da roupa,
inventa um hino à brisa sobre a pele.
Se és mulher, troca as calças por saia, esquece as meias, sente o vento fresco por entre as pernas.
Se és homem, lança-te ao mar, deixa que os peixes te toquem a alma, os dedos, o sexo.
Tatuemos no corpo a passagem dos dias.
Escreve os sonhos e as memórias, o nome do teu primeiro amor, desenha a tua rua.
Não esperes o perfeito, acredita no autêntico.
Vive o dia de amanhã como se fosse o último:
abraça um estranho
perde-te na tua cidade
lança um papagaio de papel ao ar
o corpo ao mar
dança
corre
canta
às 16h50 convida a primeira pessoa que te vier à cabeça para um café
conta as estrelas
questiona o silêncio
as cores
aquela história que contam de a terra ser redonda
beija
ama
perdoa
Sulca no rosto tudo aquilo em que acreditas.

As estrelas quando caem não voltam aos céus.

300

Digo-to, na certeza mais completa deste dia: a alma nunca se esgota quando olhamos o oceano. Tudo é imenso, profundo, azul. O horizonte não tem fim, perde-se na distância circular do olhar. Respiramos até ao interior do corpo, o sangue feito sal a escorrer pelas veias. Somos marinheiros, gaivotas, peixes. Sonhadores sem vergonha de sonhar. A pele é vento sobre o corpo; escutamos o uivo mais profundo da terra.
Somos iguais perante o mar: não importa se vivemos para morrer ou para sentir a vida; o mar tece as ondas e recebe-nos de igual maneira.
Da próxima vez, esquece o frio e entrega o corpo às vagas: é-se tão mais feliz com a memória esculpida pela água.

299

A caminho de casa, ao subir as escadas da estação de comboios, um bêbado aproximou-se de mim:

- Menina, espere, vou consigo. 

Perguntei-lhe porquê, enquanto lhe segurava o braço para  que, nos gestos cambaleantes, não perdesse o vinho no chão da estação.

- Porque tem uns olhos tristes. As escadas são perigosas e pode cair. 

Acompanhou-me na subida, despediu-se com um é melhor quando se é feliz. 

Achei bonito, agradeci-lhe com o sorriso. Tinha toda a razão do mundo, mesmo com os lábios pintados de perdição. 

298

Há uma qualquer forma de ternura entre as pessoas que partilham os últimos comboios da noite - durante a semana, depois das aulas ou do trabalho. Há uma humildade maior nos gestos, uma aproximação genuína de quem sente longe o tempo de voltar para casa. Os homens de gravata sobre o colo e camisa amarrotada; as mulheres com a maquilhagem no fundo do rosto e os sapatos de salto alto pendendo da ponta dos pés. Dorme-se sem vergonha, ressonando o cansaço do dia, enquanto uma fina camada de baba quente escorre pelo canto da boca.
Talvez a noite torne as pessoas mais inteiras, mais próximas de si. O sol já não brilha rente à pele, já não é necessário sorrir e parecer feliz. Instalam-se coisas novas no olhar: medo, tristeza, insegurança, solidão. Os sonhos já não pesam e parecem fazer sentido. Dizem-se palavras absurdas como gosto de ti a um estranho e, só porque é de noite, ele responde dizendo eu também. As pessoas são mais bonitas, os objectos mais próximos, os cheiros mais suaves. Lisboa volta a ser menina e até as putas do Cais do Sodré reinventam um corpo mais fácil ao toque.


Depois, no despertar sereno da manhã, os lavadores de ruas enxaguam a alma nocturna dos que dormem; na certeza de um dia novo, guarda-se a entrega para o próximo anoitecer.

297

after peace, swim twice*

Disseste que chegavas, mas o tempo já se faz tarde. Esperar é chato, aborrece-me, pesa-me nos dedos dos pés.

-       Só mais cinco minutos, estou a chegar.

Os cinco minutos passados ao longo de duas horas. Eu a ver a chuva a cair. É me indiferente o cabelo imaculadamente penteado, as roupas demoradamente escolhidas numa perfeita combinação monocromática. Preferia que estivesses aqui. Mesmo que, num acto arrojado, saísses de casa sem perfumar as palmas das mãos. Sem tomar banho sequer. Era bom conhecer-te um cheiro mais visceral, um qualquer desvio que te tornasse mais próximo de mim.

-        Cinco minutos, o comboio atrasou.

Digo sempre que me vou embora, que não espero mais. Fico quase todas as vezes. Acabo sempre sem perceber se valeu a pena. Devias erguer-me um monumento. Na tua rua não, que nem a conheço, mas num canto do moleskine, nas folhas do fim. Sim, eu sei, por isso é que disse no canto, para não interferir no perfeito amor que nutres pelas coisas poéticas. Não sou poética, desculpa, e muito menos tenho paciência para discussões eruditas em torno de uma qualquer obsessão. Remeto-me sempre às coisas simples, sabes. Passeios demorados, chá de menta, silêncio, o corpo. Lembras-te do meu? Tenho uma vaga memória do teu, mas nem me recordo da última vez que o senti. Ou que senti uma vontade imensa de te ter, em qualquer lado, intensa e despropositadamente. E eu preciso disso, caramba, é chato ter que fazer sempre tudo sozinha.

-        Estou a chegar, se te fores embora nunca mais me vês.

Por mim tudo bem, sabes? Adorava dedicar-me a coisas mais práticas, estou a ficar um bocado farta desta história do amor para sempre.


294

Recebi um e-mail que dizia:

"Quando leio o que escreves nunca sei se chore de compaixão, ou sorria de ternura."

Querido P.,

é esse, igualmente, o dilema da minha vida.

293


s.f.

grego pistia: acreditar
latim fides: fidelidade

adesão absoluta do espírito a algo que se considera verdadeiro.*

292

É de noite. O relógio marca o adiantado da hora mas, ainda assim, é de noite. O silêncio interrompido pela chuva, pelo ladrar dos cães, pelos trovões. Lisboa cai morta aos meus pés; na distância que nos separa sinto-lhe o respirar quebrado pela vaidade. Recordo que lá deixei o corpo - há quatro anos ou uma hora, já não sei. A claridade estende-se sobre a água do rio como branca espuma. No seu interior, um poço sem fim ecoa o ribombar da alma, o grito gutural do coração. Uma rosa apodrece no meu peito, crava-se no fundo da memória, como um sonho que não pedi para sonhar.
Paro o desejo silenciado, o tremer das mãos, as imagens esculpidas nos ossos; recosto-me no cadáver que trago junto à pele, peço à saudade para trancar a porta ao sair: talvez, assim, no lado mais interior do corpo, consiga erguer um monumento à minha solidão. 

291

que o mundo se afunde lá fora;
nada abala a leveza deste lugar.

290

Saudades de amor de recreio: dedos entrelaçados, beijos tímidos ao de leve nos lábios, flores oferecidas presas ao cabelo. Quando gosto de ti significava o mundo, e o mundo era um bilhete deixado às escondidas dentro das pasta:  és bonita quando sorris. queres namorar comigo?  Tardes feitas de conversas estendidas sobre o debotado verde do banco de jardim, história e ternuras, uma brisa doce e um refresco de limão.
Era tão mais simples esse amor, que não se perdia  na urgência de ter que durar uma vida, e se sentia na plenitude da inocência de quem não tem razões para deixar de acreditar.


Air, Playground Love

289


Dilui-se, lá fora, o mundo em chuva; cá dentro, o tempo escorre lento pelos dedos cansados das minhas mãos. Sei que estou viva porque sinto medo. Isso, uma qualquer indiferença de existir. O homem que habita o meu peito jorra sangue dos olhos, manchando-me de vermelho os pequenos malmequeres da camisa de dormir. Diz-me, a noite é eterna no teu corpo e esqueceste-te de como sorrir. Na brancura demente dos lençóis enterro a alma, o estrépito da razão tem a lenta cadência do teu respirar. Tenho-te a meu lado sobre esta cama-abismo, mas penso num louco; desenho um rosto sem forma, que ainda não comecei a procurar. Se soubesses o sabor da minha carne, percebias que me estendo num caixão aberto, à espera de cair. Levanta as perguntas e o fraco sentido das palavras, o céu é sempre mais escuro no fraco pulsar do meu coração.