188

Fed5 e os encontros impossíveis




                                                                                  Giacometti e Francis Bacon encontram-se num rectângulo fotográfico de papel mate.
Ambos alimentam a silenciosa expressão da matéria: Giacometti define a indefinida composição de um vulto estreito, enquanto Bacon lhe engole o rosto e o confina ao negrume. 
Surgem empastadas deformações de texturas que liquidificam a envolvência púrpura do vulto: Bacon perde-se na fuga aos limites, enquanto Giacometti passa pelo rosto as mãos feitas barro. 
Alcançada a matéria, recolhe-se, cada um, ao seu espaço, deixando sobre a objectiva da máquina a eterna representação do seu encontro.

fotografia por Rui Alves Rocha

187

limpo as lágrimas e guardo o vestido negro: agora só volto a pensar para o ano

186

era um quadro tons de morte, aquele quarto no terceiro andar.
passou um ano. nada mudou. a morte sobe negra pelo corpo.
a morte trava a passagem do ar na garganta.
a morte são mil bestas desfazendo o peito.
a morte escorre por entre os dedos como água.
recosto-me e recordo todos quanto a morte me levou:
aceno ao longe ao pai que mal conheci, à avó que perpetuo no meu abraço e a ti,
que escolheste a incerta obscuridade à vida.
tenho aprendido a não pensar e assim afastar de mim o peso do mundo.
sou cada vez mais pedra, mais gelo, mais vazio,
sou cada vez mais voz silenciada pelo tempo.
quando alguém morre, penso, nunca morre só.
morrem os pais com os filhos, os filhos desfazem-se na sombra dos pais, sucumbem as irmãs à memória de outra irmã, e até os netos têm na sua vida a continuidade da morte dos avós.
sucedem-se os dias e as ondas rebentam na praia uma e outra vez.
há flores que nascem nas árvores e cães moribundos na berma da estrada.
há a oblíqua continuidade de todas as coisas e, ainda assim, sinto-me infinitamente só.

185

à sexta um poema



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à procura do vento num jardim d'agosto
Al Berto

184

há-de passar por mim o crepúsculo desta cidade adormecida, que percorro em círculos concêntricos no desdenhar da alma.
escrevo nada e nada acontece. e os dias são nada e a cidade vazia.
com as unhas triangularmente esculpidas esgravato o peito de um qualquer transeunte,cego pelo imenso reflexo da vida. aí me instalo e lhe devoro as entranhas, cobrindo com branca cal os pedaços que não me saciam. uma estreita linha de fumo negro atravessa as pálpebras do homem que me transporta – homem-nada, homem-lixo – devoro o fumo com as narinas muito abertas e o homem sucumbe num sufoco. ah, homenzinho idiota, que me tomas por parasita, a mim, que no teu peito escancarado deixei escorrer para o lado de fora das entranhas a mortal doença de que padecem os homens como tu: já não te ofusca o reflexo do mundo? porque sorris se o teu corpo escorre sangue? olha para ti, por uma vez que seja move o pescoço e olha para ti. é bonito, não é? aonde está o teu corpo, homem-lixo? ou és só pescoço muito hirto encimado por uma estúpida cabeça oca? pega numa corda e amarra-a ao pescoço. quero-te ver com o corpo pendente num qualquer candeeiro de rua . e a ti, e a ti também: até a cidade amanhecer repleta de carcaças secas balouçando nos candeeiros . e aí sim, vil criatura, poderei ter nas ruas o lar que procuro, sem ter que me cruzar com o teu amarelado padecer. 

183

não sei se chore, se morra ou se caia. falta-me o chão neste final de mês. faltam-me os próprios ossos. só a memória permanece inalterada. 

182

fecundação parisiense
paris . 2010

Paris não é a cidade do amor.
chego mesmo a duvidar que exista lugar algum para o amor acontecer.

181






se perguntarem por mim
digam que voei




180

há ferrugem no lado de dentro da alma
e no corpo o sal marcado pelo amplexo do mar
navego, sorrio, 
estendo os dedos para lá da rebentação das ondas,
flutuando sobre a inaudita transparência da morte.
penso o mundo a preto e branco,
cinza e fúchsia,
sombra picotada de um qualquer vulto igual a mim.
o meu tempo é anterior ao das palavras
mas nem a cega transcrição de um pôr-do-sol de agosto
me devolve a abreviada reminiscência do sentir.

178

    aman
            hã devolvo
as reentrâncias da
                       razão
                                e no candeeiro deixo
                                                          a memória
                                                                          apagada
de reflexos.
                    desco rente ao chão a orla do cais
                                          e no leito do rio
                                           afogo o sorriso

177

à sexta, um poema


SE ALGUÉM DISSER

VASCO GATO



"se alguém disser que morri, avança até à varanda do céu,
escuta a noite e recolhe o meu corpo da espuma dos planetas.
não deixes que o meu rosto se dissolva nas tuas mãos,
insiste no meu nome até que o mar ascenda à tua boca.
e de luar em luar celebra o coração que fiz teu, mudamente,
como se o amor fosse sobreviver às veias paradas de sangue."


Um Mover de Mão, Assírio e Alvim, 2000

176

reflexos violeta de um dia de verão

lisboa . 2010

175

as coisas-abismo
01

tenho uma aproximação equidistante às coisas que me rodeiam: eu avanço até metade, elas avançam a metade restante e, assim, estabelecemos uma relação estável e equilibrada. 


mas, depois, há as coisas que avançam abruptamente na minha direcção e me esmagam, se entranham no meu corpo até aos ossos e me esmagam, instalando-se cada vez mais profundamente na génese do meu ser, até me inebriarem os sentidos e aniquilarem a própria razão: são as coisas-abismo...imagens, músicas, filmes, cheiros, momentos, pessoas até...fazem-me recordar que o ser humano foi feito para sentir, para fechar os olhos na solidão da sua existência, e sentir a força do tempo e do espaço que o rodeia. das coisas belas, das coisas negras, das coisas mortais. 









Herberto Helder, Poemacto II  
Minha Cabeça Estremece  
"Os Poetas, Entre Nós e as Palavras", Columbia, 1997