594

Meu amor, é tarde
a escuridão deposita-se à tona do corpo
como gotas de orvalho nas folhas caídas.
Beijo-te a pele, 
seda marcada pela húmida transparência 
da breve saliva.
Da alma aos ossos impregnei-me de ti,
o teu nome asfixiado na garganta desgastada.
Sobre os lábios o sabor a sal do teu suor,
o quente pulsar dos músculos, 
o odor do homem.
Escrevo-te de cor 
desta morada de saudade que é a minha cama vazia,
onde enterro sonhos,
o corpo só
e a tua memória longínqua. 

592

Do corpo mudo escorre 
o ar liquefeito das salinas,
pendem lágrimas gastas do olhar cansado
 e um touro enraivecido aloja-se no peito.
Sobre a língua a palavra proibida aproxima-me 
da loucura,
preparo a bagagem para a viagem última,
o caderno demasiado velho e 
a caneta sem tinta.
O tempo transforma-se em espera,
a espera em saudade
e da saudade pende o pranto deste imenso vazio.
Mesmo que tudo em redor o negue,
entrego o que sobra à vã esperança de um
artifício maior.

591

A minha praia é um cemitério de homens que deixei de amar.

590

O vazio no coração e o vazio no ventre, é tudo o que resta do que de mim arrancaram. 

589

Recordo a primeira fotografia que tirei: tinha seis anos e uma máquina azul e amarela com um ursinho. Nesse ano, como em todos os anos, fui acampar com as minhas Irmãs. O parque tinha um jardim e no meio do jardim um baloiço. Não havia escorrega, nem balancé, nem caixa de areia, mas eu não me importei porque andar de baloiço era o que mais gostava de fazer. Apesar do mês de Verão choveu o tempo todo, estava frio e não pude brincar no jardim. Na manhã da partida acordei mais cedo, corri até ao baloiço e tirei uma fotografia - a primeira de todas. Assim, pensei eu, podia andar no baloiço sempre que me apetecesse, mesmo quando chovia muito.
Depois dessa seguiram-se outras fotografias, sempre tortas, desfocadas, com as pessoas cortadas. Fotografei os sítios para onde me levavam a passear, as minhas Irmãs, a minha Avó, a minha gata, os amiguinhos da escola, pedras, flores, os desenhos que fazia. Ainda as tenho a todas guardadas numa caixa de cartão, em casa da minha Mãe.
Com o tempo aprendi que as fotografias não eram só imagens bonitas, que podiam ter tudo – o mundo inteiro, a memória, a saudade – lá dentro. Aprendi que quando algo termina, ou quando alguém se extingue, aqueles rectângulos de papel são muito do que resta. Tenho o meu Pai em duas fotografias tipo-passe, encostadas aos livros de Al Berto e apesar da distância, daquilo que já não existe – e que nunca existiu – posso fazer de conta que ele está comigo. Tenho a minha Irmã, quando era feliz, sentada no sofá da sala a fazer uma careta, a minha Avó, sempre elegantíssima, com o seu ar sereno de quem todo o tempo para ensinar tudo o que sabe.
A máquina do ursinho perdeu-se numa mudança de casa, mas fui tendo outras, do meu Pai, do meu Avô, da minha Tia, umas compradas, a maior parte oferecidas. Continuei a fotografar pela mesma razão que escrevo: para que nunca me esqueça de nada, para que um dia possa olhar para tudo o que passou e recordar o que vivi. Mesmo que a memória me falhe, mesmo que não saiba que aquela história é a minha. Às pessoas que me vão tocando vou deixando pedaços deste tudo que sou - as fotografias de que mais gosto, as palavras mais verdadeiras, ainda que tortas, desfocadas, ou sem sentido.
A cada coisa que vivo o coração vai ficando maior, mais aberto e sincero. E mesmo que o peito escancarado possa parecer uma fragilidade, não me arrependo de nada: de muito pouco vale a viagem se não se for recordando todos os baloiços, todas as paisagens, todas as pessoas e os mais belos sentimentos que se vão encontrando pelo caminho. 

588

Em todas as histórias há um fim

Ao fundo da noite cidades de fogo iluminam e queimam o que resta de ti. 
Avanço através da branca espuma, o teu corpo sobre os meus braços, e para lá da bruma te deixo - sublime homem salgado - para não mais voltares. 

Deste lado do mar sento-me leve, vendo-te desaparecer. 

587

Ironia:


de tanto escrever sobre o amor deixei de o sentir.

586

A vida é imensa quando é feita de banhos nocturnos de mar. Muito pouco se compara à leveza absoluta de ter o corpo coberto de sal e ao sorriso de quem se sente profundamente feliz.
Boa noite.

585



Os noctívagos à janela reconhecem-se uns aos outros pela pequena estrela cintilante que seguram na ponta dos dedos.

584

Uma frase simples sobre uma questão complexa:



Bateu-me à porta o marinheiro.

583

Assim fala Clarice


Todas as manhãs ela deixa os sonhos na cama, acorda e põe sua roupa de viver. Todas as manhãs ela caminha vagarosamente para pegar o ônibus que a levará para lugar nenhum, para ver ninguém. E todas as manhãs ela imagina como serão as tardes, ja sabendo a resposta, finge ser feliz assim todas as manhãs. E todas as manhãs ela espera pela noite, ela espera assim arduamente para voltar para seu quarto, e ser triste. É quando ela sente que esta assim completa. Completamente triste, mas completa. E quando ela tira a roupa e põe todo o seu corpo em baixo das cobertas quentes e sente que começa a sonhar, é quando ela sorri . Assim pra ninguém. Mas pra ela mesma. E viver vale a pena.
Clarice Lispector

582

Se escrevesse a minha insónia teria as letras do teu nome.

E o teu rosto marcado em sonhos que de tão antigos se tornaram pesadelos.


581


Algures no meu prédio, uma espécie de missa brasileira está a decorrer há já duas horas. Cânticos entoados de forma absurdamente desafinada perfuram as paredes e alojam-se no centro da minha sala. Em torno deles, tento acabar um trabalho para entregar amanhã. Quando acordei já era tarde e sobre o tarde mais uma hora me foi imposta. Cheguei atrasada ao dia de hoje e ainda não recuperei. É dia 30 de Março, faz um ano que vim para esta casa. Um ano e 7 horas. Não houve missa brasileira nesse dia, só no seguinte. Nesta casa aconteceram duas mortes, três amantes e um homem tão pequenino que fiz por lhe esquecer o nome, muitas lágrimas, ainda mais riso, pouco siso. Agora quero calma, serenidade e braços mais fortes para bater claras à mão. E porra, que a missa acabe que tenho mesmo que trabalhar!


580

nada é para sempre






579

Relaxa e ouve bossa nova, Samuel






What do we do now, now that we are happy?
Waiting for Godot, Samuel Beckett

578

O cansaço deposita-se no ténue limiar da loucura, a rotina repetida mil vezes, no passar lento dos dias. Cada hora prolongada ao longo de vários anos e eu mais velha extinguindo-me nos relógios de pulso das pessoas que por mim passam. Às vezes acordo com a alma antiga, outras como se só agora tivesse acabado de nascer. À margem do caderno envelhecido, os sonhos anotados dissipam-se na espessura da tinta. Recorro às palavras para enaltecer a memória, como se cada coisa vivida, interior ou exteriormente, se pudesse transformar em algo maior. As letras, cada vez mais imperceptíveis, evidenciam ou anulam uma qualquer forma de verdade. Saber qual dos casos se adequa implicaria passar todas as coisas pelo tenaz filtro do pensamento; e pensar, escrutinar com a razão, é tão absurdamente longínquo da total sinceridade do sentimento. Sei que as palavras são sempre as mesmas: que há mar, amar, amor, morte e aquela permanente inebriação chamada saudade. Às vezes, raramente, há rio e riso, fé reposta na unidade universal. 
Não há início nem fim, apenas meio neste ensaio continuamente renovado.

577

Trago em mim o lugar cativo da memória: debaixo da pele, pousado sobre os ossos, o toque de mercúrio do denso, negro homem. 


Sem âncoras no lugar da alma, servimo-nos do corpo como cálices de vinho numa lenta madrugada. Damos de beber ao desejo, saciamos as entranhas com a leveza de quem já passou por todos os lugares. 



No final do dia, a branda quietude dos amantes revisitados.

576

consagrei o corpo do homem,
ergui-lhe um altar de luxúria e esperança,

a cegueira desmedida do desejo,
oração repetida até à loucura:
p a r a s e m p r e p a r a s e m p r e p a r a s e m p r e n u n c a.

como em qualquer religião, vã e feita de mentiras,
renego a salvação universal,

purifico a alma e a memória,
faço danças apocalípticas da cintura para baixo
e,
como um cão danado,
apago as velas do leito sepulcral.

575

auto-retrato, de dentro para fora


574

"E a paixão, afinal, Beno, não é mais que o pouco daquilo que não ousaste esquecer. Mas subsistem poucos sinais para te ajudarem a reconhecer o caminho... o caminho de regresso... e hoje, amanhã talvez, também tu não serás mais do que um sobejo..." 
Al BertoLunário

573

É 1h da manhã e, uma vez mais, não consigo dormir. Vou até à varanda, debruço-me sobre a minha rua: sempre tão calma, tão absolutamente tranquila nesta noite ventosa. Passa um carro, ouço o mar ao fundo, sinto o frio nas mãos e o teu corpo ao meu lado. De tão longe. Penso que a noite é um lugar secreto, onde se refugiam os medos e os sonhos. Olho o céu sem estrelas, o passeio sem pessoas, as casas. Conto as luzes amareladas dos prédios em frente, uma constelação fictícia de seres terrestres, abandonados ao silêncio. 24 janelas iluminadas. Há dois anos tinha 24 anos. Por esta altura, o coração igualmente magoado por um amor que chegava ao fim. Sentia-me perdida, desprendida de tudo, na ponta mais sombria do meu abismo interior. Escrevia assim:

Adormeço no interior do teu corpo, a última folha de Outono caída sobre o meu colo cansado. De onde te vejo não há o brilho das estrelas, tudo é imensa, absoluta escuridão. Acaricio-te com a ponta dos dedos, sinto-te o sangue, os ossos, o coração. Esta é a última vez que te visito; espera-me o mundo inteiro, ilhas, montanhas, árvores cravadas, sulcadas em mim. Talvez nunca alcance o mar e me desfaça em pó sobre a areia de uma praia. Ainda assim, morrerei com os braços bem erguidos, completos no cimo da terra. Não chegarão as vagas noctunas nem o vento frio de Inverno; e mesmo que o sol me cegue do lado de fora do teu respirar morno, sei que o meu lugar não pertence junto ao teu.

Faltou-me o ar muitas vezes, chorei todos os oceanos, todos os mares, todos os rios do mundo. Quase desapareci. Depois fugi porque Lisboa me sufocava. Fui sozinha para um país que não conhecia, visitei cidades vestidas de branco, senti nos ossos um frio maior que o do coração. Conheci pessoas de todas as partes do globo, falei línguas estranhas, tive longas conversas sobre o amor. Aprendi que há lugares onde, por princípio, não se desiste, onde se crê imensamente na paixão, na beleza dos sentimentos. Lugares onde o para sempre não termina amanhã. Deixei o homem negro sepultado num campo de neve. Voltei em paz. 


Agora não tenho para onde ir. Todos os dias saio de casa, vou trabalhar com um sorriso emprestado colado  ao rosto, passo por todos os sítios que me remetem para ti. Tento esquecer-te, mas não sei como. As paredes da minha casa ecoam o teu nome, a minha cama aprisionou o teu cheiro e até as palavras que trago cravadas na pele insistem na memória de teres sido tu quem lhes tocou. Tento esquecer-te, mas fazê-lo seria perder parte de mim.
Pergunto-me frequentemente como nos recordas, se algo em ti se altera quando o fazes, se o fazes, sequer. Pergunto-me se terá valido a pena, se os teus medos alguma vez se dissiparão, se é completa loucura esta réstia de esperança. Às vezes quase que te odeio, zango-me muito, sinto coisas que me causam um imenso mau estar. Mas depressa passa e o que fica é o carinho imenso que te tenho e esta tristeza de cem mil anos, de quem só queria existir num tempo em que fosse possível dar-te de novo a mão e amar-te. 


Fecho a janela. O corpo gelado. Os lençóis gelados. A água pingando de todas as coisas que ficaram por arranjar. O barulho dos vizinhos. A luz vermelha. Tu que não chegas. Tu que não voltas. Tu que não vais embora. 
E a tua ausência escrita com todas as palavras do mundo.