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ou um auto-retrato vermelho


nada diz  silêncio  como o azul do mar,

ou os meus olhos  caiando  cidades

com o branco crepuscular  da primavera.

o espaço ou o tempo,

ou o momento em que se descobre na vida o sentido inalterado da existência,

a dormência no peito face ao entendimento da inexistência.


nada diz amo-te como a melodia desalinhada de uma guitarra,

o vento ou o corpo, a  respiração trocada por um tocar mais profundo,

a pele largada por entre as ondas,

o coração batendo sobre a areia,

os dedos entrelaçados no fundo da terra  e os peixes tecendo a alma.


nada diz nada, como um poço

ou o reflexo do céu manchado de infinito,

a espera,

a noite,

a  ausência do gesto sobre o rosto,

um grito rasgando as estrelas.


a cadência  é a do tempo perdido,

das silhuetas esculpidas no regaço de uma mãe,

uma mãe silêncio,

uma mãe mar,

uma mãe alucinação.

uma mãe momento  nos dias de sol

ou esquecida nas sombras do Inverno.





03/ a u t o r e t r a t o v e r m e l h o

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é-me ácido o ar, na passagem da poesia.

o coração ardendo dentro do peito.

o peito ardendo dentro do corpo.

o corpo desfeito sob o peito.

e a alma ensanguentada rente ao rosto.

tudo o resto é névoa 

ou miragem

ou  sombra tecendo vultos no lado mais longínquo da vida.


e as palavras lidas cravam-se na pele

como facadas dolorosas e belas.

a dor infinita das coisas belas.

das palavras dos outros.

da poesia.

do imenso silêncio que só escuto na poesia.