230

escrevi solidão na memória da noite,
quando o coração sucumbiu sob o pó das estrelas.

uma só vez escrevi vulto,
a vermelho do peito desfeito
num abismo ensanguentado.

escrevi espera,
dor,
vazio;

escrevi imensa saudade.

escrevi a respiração pesada
e as mãos trémulas,
um mortal espinho habitando a garganta.

escrevi a presença da salgada névoa,
a alma plúmbea,
o corpo brutalmente amolecido.

escrevi
tenho medo
e o medo cegou a noite de que me fiz prisioneira.

agora escrevo silêncio e guardo a folha em branco,
ao negro vulto sussurro que
amor
foi a última palavra que escrevi. 

229


(desfeito,
no início)

desconhecia ainda que todas as coisas começavam assim, minutos antes do amanhecer.
o corpo, mole da noite passada em claro, reage à leve brisa; a pele retrai-se na sua dimensão microscópica, enquanto o peito se debate num respirar profundo. ouço o mar, para lá da parede esbranquiçada, sem me recordar da última vez que o vi. às coisas outrora belas acenei há muito o último adeus.
ao meu lado, dormes indiferente à agitação nocturna. os cabelos negros caem-te sobre o rosto, desenhado na expressão de imensa tranquilidade. observo-te, mas nem assim me recordo do teu nome.
não importa, penso, não és mais meu por saber quem és.
aos vultos que nos rodeiam, chega agora o primeiro rasto de luz: há uma mesa sob a janela e a cadeira repleta de folhas em branco; há uma porta entreaberta, a alcatifa que cobre o chão gasta pelo tempo; há uma lâmpada pendendo do tecto e esta cama imunda que nos devora o corpo. as paredes nuas, a roupa amontoada a um canto, garrafas partidas espalhadas pelo quarto e, no vidro da janela, a fotografia.
respiro fundo, acendo um cigarro, demoro-me  na contemplação das sombras: sorrio por saber ser esta a imagem que verei antes de morrer. 

228

i have a theory of ghosts*


*Piano Magic, Theory of Ghosts

227

não há certeza mais concreta do que o ódio caminhar lado a lado com o amor.

226

doespaço

d           o          v         a          z            i              o




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- c oisas

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h a j a o p o d e r o c u l t o d a m o r t e 









eaexacerbadaomnipresençadavida


.


.


.

224

lisboa tem jardins,

lisboa . 2010

que se alimentam do interior das casas abandonadas.

223

diz-se, da morte, que quem é vivo sempre aparece.