É 1h da manhã e, uma vez mais, não consigo dormir. Vou até à varanda, debruço-me sobre a minha rua: sempre tão calma, tão absolutamente tranquila nesta noite ventosa. Passa um carro, ouço o mar ao fundo, sinto o frio nas mãos e o teu corpo ao meu lado. De tão longe. Penso que a noite é um lugar secreto, onde se refugiam os medos e os sonhos. Olho o céu sem estrelas, o passeio sem pessoas, as casas. Conto as luzes amareladas dos prédios em frente, uma constelação fictícia de seres terrestres, abandonados ao silêncio. 24 janelas iluminadas. Há dois anos tinha 24 anos. Por esta altura, o coração igualmente magoado por um amor que chegava ao fim. Sentia-me perdida, desprendida de tudo, na ponta mais sombria do meu abismo interior. Escrevia assim:
Adormeço no interior do teu corpo, a última folha de Outono caída sobre o meu colo cansado. De onde te vejo não há o brilho das estrelas, tudo é imensa, absoluta escuridão. Acaricio-te com a ponta dos dedos, sinto-te o sangue, os ossos, o coração. Esta é a última vez que te visito; espera-me o mundo inteiro, ilhas, montanhas, árvores cravadas, sulcadas em mim. Talvez nunca alcance o mar e me desfaça em pó sobre a areia de uma praia. Ainda assim, morrerei com os braços bem erguidos, completos no cimo da terra. Não chegarão as vagas noctunas nem o vento frio de Inverno; e mesmo que o sol me cegue do lado de fora do teu respirar morno, sei que o meu lugar não pertence junto ao teu.
Faltou-me o ar muitas vezes, chorei todos os oceanos, todos os mares, todos os rios do mundo. Quase desapareci. Depois fugi porque Lisboa me sufocava. Fui sozinha para um país que não conhecia, visitei cidades vestidas de branco, senti nos ossos um frio maior que o do coração. Conheci pessoas de todas as partes do globo, falei línguas estranhas, tive longas conversas sobre o amor. Aprendi que há lugares onde, por princípio, não se desiste, onde se crê imensamente na paixão, na beleza dos sentimentos. Lugares onde o para sempre não termina amanhã. Deixei o homem negro sepultado num campo de neve. Voltei em paz.

Agora não tenho para onde ir. Todos os dias saio de casa, vou trabalhar com um sorriso emprestado colado ao rosto, passo por todos os sítios que me remetem para ti. Tento esquecer-te, mas não sei como. As paredes da minha casa ecoam o teu nome, a minha cama aprisionou o teu cheiro e até as palavras que trago cravadas na pele insistem na memória de teres sido tu quem lhes tocou. Tento esquecer-te, mas fazê-lo seria perder parte de mim.
Pergunto-me frequentemente como nos recordas, se algo em ti se altera quando o fazes, se o fazes, sequer. Pergunto-me se terá valido a pena, se os teus medos alguma vez se dissiparão, se é completa loucura esta réstia de esperança. Às vezes quase que te odeio, zango-me muito, sinto coisas que me causam um imenso mau estar. Mas depressa passa e o que fica é o carinho imenso que te tenho e esta tristeza de cem mil anos, de quem só queria existir num tempo em que fosse possível dar-te de novo a mão e amar-te.
Fecho a janela. O corpo gelado. Os lençóis gelados. A água pingando de todas as coisas que ficaram por arranjar. O barulho dos vizinhos. A luz vermelha. Tu que não chegas. Tu que não voltas. Tu que não vais embora.
E a tua ausência escrita com todas as palavras do mundo.