Há uma qualquer forma de ternura entre as pessoas que partilham os últimos comboios da noite - durante a semana, depois das aulas ou do trabalho. Há uma humildade maior nos gestos, uma aproximação genuína de quem sente longe o tempo de voltar para casa. Os homens de gravata sobre o colo e camisa amarrotada; as mulheres com a maquilhagem no fundo do rosto e os sapatos de salto alto pendendo da ponta dos pés. Dorme-se sem vergonha, ressonando o cansaço do dia, enquanto uma fina camada de baba quente escorre pelo canto da boca.
Talvez a noite torne as pessoas mais inteiras, mais próximas de si. O sol já não brilha rente à pele, já não é necessário sorrir e parecer feliz. Instalam-se coisas novas no olhar: medo, tristeza, insegurança, solidão. Os sonhos já não pesam e parecem fazer sentido. Dizem-se palavras absurdas como gosto de ti a um estranho e, só porque é de noite, ele responde dizendo eu também. As pessoas são mais bonitas, os objectos mais próximos, os cheiros mais suaves. Lisboa volta a ser menina e até as putas do Cais do Sodré reinventam um corpo mais fácil ao toque.
Depois, no despertar sereno da manhã, os lavadores de ruas enxaguam a alma nocturna dos que dormem; na certeza de um dia novo, guarda-se a entrega para o próximo anoitecer.