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paris . 2010


permanecem silêncio, as palavras: as minhas, as tuas, as do tempo que nos fugiu por entre os dedos.
o sol de final de tarde não me aquece e os passos já não ecoam a chegada dos teus.

há sempre mais qualquer coisa para lá da fina tela de algodão.

219

um coração solitário jamais traçará o seu caminho a dois; e a ilusão é maior do que o tempo.

são só culpas e desculpas, mas a crucial questão permanece:


até quando?

já nem me recordo da última vez que te chamei meu amor.

217

dir-se-ia imenso este tempo, feito compasso de espera, na sombra inaudita dos mortos onde só escorre mar e já não há peixes;
todas as coisas redesenham o seu contorno, em trémulos traços transpondo a alma, e mesmo que gritem tenho medo, são ecos que se perdem para lá da escuridão.

o vento, diriam, é sempre mais denso da cintura para baixo, onde prende as pernas na impossibilidade dos passos, e por mais que se corra é em vão esse caminho.

tudo o resto, são brumas, ou miragem, ou estelar húmido nevoeiro: o riso, penetrando a noite, penetrando as estrelas, quebrando os ossos, atravessa a fugidia brancura crepuscular, instalando-se, mortalmente, na negra sombra das árvores.

215

dezembro,
meu amor, que bom é receber-te aqui mais um ano.

paris . 2010