565

Fecho o alçapão do mundo.
Encerro-me em mim mesma, sob as raízes mortas da memória de uma árvore.
Todas as coisas continuam a pairar, absortas, no lado de fora do que sou.
Já nada me toca, já nada me agarra, já nada me tenta ou me teme.
Desfaço-me em sal, cheiro a cinza, o corpo falha-me e treme.
Caí no lago amargurado da melancolia, fez agora dezasseis anos.
Não mais de lá saí. Os meus ossos são de lodo, as pernas de quebrado mármore, o coração de corrompida ferrugem.

Escuto-me do princípio do mundo à última viagem.
Faço danças inebriadas em loop.
E cada dia, um dia mais, vai passando ao largo de mim.

Mas não façam caso do drama: por dentro sou um diabo que ri desdentado em vantajosa loucura.

564


O poeta empresta o poema ao leitor,
o leitor sente cada palavra como intimamente sua,
escreve-as sobre um pedaço de papel, com a sua letra trémula,
entrega o papel ao artista que marca a pele a tinta e agulha:

as palavras do poeta, no corpo do leitor, pelas mãos do artista.

O corpo como tela sepulcral do poema,
como extensa folha esbranquiçada à espera de ser preenchida.

562

conto os dias que faltam para entregar o corpo às palavras:

mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar.