Frida aceitaria tudo o que sei sobre o expressionismo mexicano: teria o coração preso entre os dentes, e um pássaro de três cores ocupando o seu lugar; dir-lhe-ia estamos juntas pela morte, e a morte escorreria negra dos seus cabelos até debaixo da terra; sairiam mulheres e crianças da raíz de uma árvore; e na lágrima pendendo do rosto, um homem pequenino regressaria ao ventre de sua mãe.
282
O contorno da mulher surge brando por entre a branca cortina,
o corpo da mulher longamente enegrecida, mulher brutalmente incompleta.
Verga e dança,
solta um lamento e suspira.
O sufoco habita a garganta e prende o mundo dentro dela,
a mulher é uma mulher que asfixia.
Às vezes também come e chora,
outras, medita sobre o passado e delira.
Encerra o tempo entre as mãos,
no coração o amor de uma vida.
É uma mulher terrivelmente densa,
profundamente vazia.
281
o tempo lento do outono sobre o corpo
os movimentos feitos folha caindo na berma da estrada
a voz doce de cat power sussurrando ao ouvido
o teu cheiro na memória do meu abraço.
a chuva. a terra molhada. o tempo escorrendo lento sobre a noite. a nostalgia.
a nostalgia.
279
afoguei as memórias num banho de água quente,
água ou sangue, já não sei
ou então seiva
ou saliva
e um fino fio de fétida falsidade.
278
O homem-velho avança lento pelas ruas, o corpo vergado pendendo sobre o alcatrão. No rosto, a pele sulcada pelo tempo; nas mãos, o toque longínquo da mulher que um dia amou.
O homem-velho tem feridas presas aos olhos, cheira a colónia antiga e espuma de barbear, lágrimas secas sobre a pele e mijo.
A família abandonou-o num banco de jardim, onde todos os dias regressa, à espera de ser lembrado.
O homem-velho é vivo, mas há muito que morreu; a esperança largada nas margens do rio, o brilho do olhar gasto pelo sol. Perdeu o nome e a morada, a dignidade e a paixão. Não importa quantas lutas travou na vida ou se foi o próprio mundo que construiu: do lado de fora do corpo, não é mais que um homem velho.
276
mais perto que o rio que cresce na palma da mão,
rio cravado sobre a agudez nocturna do pensamento:
sei que um dia a espera sulcará o seu nome no meu corpo,
e a intermitência da vida sucumbirá ao largo da memória.
rio cravado sobre a agudez nocturna do pensamento:
sei que um dia a espera sulcará o seu nome no meu corpo,
e a intermitência da vida sucumbirá ao largo da memória.
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