284

magdalena carmen frida kahlo y calderón

Frida aceitaria tudo o que sei sobre o expressionismo mexicano: teria o coração preso entre os dentes, e um pássaro de três cores ocupando o seu lugar; dir-lhe-ia estamos juntas pela morte, e a morte escorreria negra dos seus cabelos até debaixo da terra; sairiam mulheres e crianças da raíz de uma árvore; e na lágrima pendendo do rosto, um homem pequenino regressaria ao ventre de sua mãe. 

283

ainda sobre o mesmo tema


um dia gostava de ser mulher no sonho de alguém.
só para ser mais bonita.
as mulheres são sempre mais bonitas nos sonhos.

282

O contorno da mulher surge brando por entre a branca cortina,
o corpo da mulher longamente enegrecida, mulher brutalmente incompleta.
Verga e dança,
solta um lamento e suspira.

O sufoco habita a garganta e prende o mundo dentro dela,
a mulher é uma mulher que asfixia.
Às vezes também come e chora,
outras, medita sobre o passado e delira.

Encerra o tempo entre as mãos,
no coração o amor de uma vida.
É uma mulher terrivelmente densa,
profundamente vazia. 

281

o tempo lento do outono sobre o corpo

os movimentos feitos folha caindo na berma da estrada

a voz doce de cat power sussurrando ao ouvido

o teu cheiro na memória do meu abraço.



a chuva. a terra molhada. o tempo escorrendo lento sobre a noite. a nostalgia.


a nostalgia.

280

ao domingo, uma música e uma fotografia
ou vice-versa


osso vaidoso . animal

279

afoguei as memórias num banho de água quente,
água ou sangue, já não sei

ou então seiva
ou saliva

e um fino fio de fétida falsidade.

278

O homem-velho avança lento pelas ruas, o corpo vergado pendendo sobre o alcatrão. No rosto, a pele sulcada pelo tempo; nas mãos, o toque longínquo da mulher que um dia amou. 
O homem-velho tem feridas presas aos olhos, cheira a colónia antiga e espuma de barbear, lágrimas secas  sobre a pele e mijo.
A família abandonou-o num banco de jardim, onde todos os dias regressa, à espera de ser lembrado. 
O homem-velho é vivo, mas há muito que morreu; a esperança largada nas margens do rio, o brilho do olhar gasto pelo sol. Perdeu o nome e a morada, a dignidade e a paixão. Não importa quantas lutas travou na vida ou se foi o próprio mundo que construiu: do lado de fora do corpo, não é mais que um homem velho.

277

sufixo de entendimento verbal:

duas vezes denominado pelo objecto comum. ser ou morrer sendo



  

276

mais perto que o rio que cresce na palma da mão,
rio cravado sobre a agudez nocturna do pensamento:
sei que um dia a espera sulcará o seu nome no meu corpo,
e a intermitência da vida sucumbirá ao largo da memória.

274

voltei a sonhar que tinha um filho.



voltei a sonhar que me morria nas mãos.

273

percepção analógica do silêncio:



"Desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela"

272

32. m'jabouille

"Num momento de maior lucidez" chamar-te-ia pai; talvez, então, o teu nome tendesse para a plenitude da minha garganta e não se perdesse no esquecimento.
Sairíamos à rua com a pasta de pele numa mão e a máquina fotográfica na outra; falar-me-ias do mar e da Grécia Antiga, do amor e da poesia de Herberto Helder. Desenhar-te-ia o rosto, as mãos, o verde dos olhos e o tom indefinido do cabelo. 
Saber-nos-iam Pai e Filha por sermos iguais. 
Eu saber-te-ia meu Pai. 
Tu aceitar-me-ias como Filha. 


A ironia tratou de sulcar no meu rosto o teu, e nos meus gestos os teus gestos que desconheci. Estamos unidos pelo sangue e pelo sarcasmo, pelo olhar e o mau feitio. Tudo o resto acreditámos que chegaria com o tempo, mas o tempo não esperou por nós. 

Presa nesta distância sem retorno, digo-te: estivemos tão perto de ser felizes.