Disseste que chegavas, mas o tempo já se faz tarde. Esperar é chato, aborrece-me, pesa-me nos dedos dos pés.
- Só mais cinco minutos, estou a chegar.
Os cinco minutos passados ao longo de duas horas. Eu a ver a chuva a cair. É me indiferente o cabelo imaculadamente penteado, as roupas demoradamente escolhidas numa perfeita combinação monocromática. Preferia que estivesses aqui. Mesmo que, num acto arrojado, saísses de casa sem perfumar as palmas das mãos. Sem tomar banho sequer. Era bom conhecer-te um cheiro mais visceral, um qualquer desvio que te tornasse mais próximo de mim.
- Cinco minutos, o comboio atrasou.
Digo sempre que me vou embora, que não espero mais. Fico quase todas as vezes. Acabo sempre sem perceber se valeu a pena. Devias erguer-me um monumento. Na tua rua não, que nem a conheço, mas num canto do moleskine, nas folhas do fim. Sim, eu sei, por isso é que disse no canto, para não interferir no perfeito amor que nutres pelas coisas poéticas. Não sou poética, desculpa, e muito menos tenho paciência para discussões eruditas em torno de uma qualquer obsessão. Remeto-me sempre às coisas simples, sabes. Passeios demorados, chá de menta, silêncio, o corpo. Lembras-te do meu? Tenho uma vaga memória do teu, mas nem me recordo da última vez que o senti. Ou que senti uma vontade imensa de te ter, em qualquer lado, intensa e despropositadamente. E eu preciso disso, caramba, é chato ter que fazer sempre tudo sozinha.
- Estou a chegar, se te fores embora nunca mais me vês.
Por mim tudo bem, sabes? Adorava dedicar-me a coisas mais práticas, estou a ficar um bocado farta desta história do amor para sempre.