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Sobre o desfiar do fio
a equilibrista sem rede:
o ar cortante na queda da
senda fulminada da aurora.

O precipício abrindo-se em chama
a pele em fiapos ao longo da escarpa
os músculos liquefeitos 
até ao ocre da chaga.

Nos ossos a solidão, 
cravada a lâmina romba,
o temor como manto denso,
manto de fel,
manto-mão-de-aço,
estilhaçando o lugar do outrora-coração.

Dos jardins recolho o canto dos pássaros
e do mar apago as ondas.
Houve um instante – brevíssimo – 
de esperança de uma outra coisa:
de talvez abraço, de talvez ternura,
de talvez alvura.

Assim regresso à caverna sem nome,
de feridas entreabertas,
fera suspensa
num labirinto de sangue
onde o eco dilui o meu nome
até ao próximo amanhecer.

692

Epílogo

Às cartas escritas em silêncio adicionei fotografias de Himarë, da viagem pelos mares a Ocidente, dos dias em Lisboa. Coloquei-as num envelope de papel pardo, o teu nome e o meu, e enviei-tas como quem encerra um capítulo: a fechar a prosa do passado. 

Esqueci-te, como se esquecem os amores passageiros, como se esquecem as feridas que se pensava cicatriz e que não foram, afinal, mais do que arranhão sobre a pele. Soube que perguntavas por mim, entre sombras, de cada vez que me sabias nos lugares que sonhavas visitar, a caminhar nos tórridos desertos dos quais imaginavas apenas as dunas.

Anos mais tarde, encontrámo-nos em Berlim. Era Verão, Gilberto Gil tocava ao vivo, os dias demasiado leves para a urgência da tua presença. Surgiste com lágrimas, desculpas, arrependimento. As tuas mãos procuraram as minhas, a tua voz fez-se doce. A indiferença que te tinha transformou-se em momentânea ternura, em breve compaixão. Entendi como tudo em ti era esforço, como te cansavam os teus próprios gestos, a profundidade das palavras, o sentir. Entendi como caminhavas num fio estreito entre o que desejavas ser e o medo de não conseguires.

As tuas mãos agarraram o meu rosto, silenciaste as palavras: 

Askim

Olhaste-me imitando a profundidade com que nos olhámos anos antes – fabricando uma intimidade há muito extinta – na esperança de que nos revisse em ti. 

No reflexo do teu olhar encontrei apenas o meu;

E essa foi a última vez que te vi. 






691

V

Eram 18h quando baixaste a cabeça e murmuraste algo que não entendi. Pedi que repetisses, procurando os teus olhos para te entender melhor. 

De olhar cravado nas tábuas do chão, as mãos cruzadas sobre o peito, disseste: comprei um bilhete, vou embora amanhã. Não precisas de me levar ao aeroporto

Disse tudo bem, porque estava tudo melhor assim. Passaram doze dias desde a tua chegada e éramos dois estranhos arrastando-se em silêncio. Eu a passar os dias do lado de fora da minha própria casa. Tu a passar as noites dissolvendo-te numa garrafa de vinho. 

O dia amanheceu pesado. As malas feitas, eu entre o sono e o sonho. 

Abriste a porta uma última vez:

Tekrar görüşene kadar, sevgilim.


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IV

Na minha cabeça a imagem repetia-se em loop: via-te ao longe, corria na tua direcção, hayatimin aski, benim Sultanim. Ficávamos em silêncio, no mergulho do olhar, no tempo suspenso do reencontro: o mundo reduzido ao intervalo – mínimo – entre os nossos corpos. 

Chegaste num dia de chuva, como são todos os dias das coisas que se extinguem — ou que para sempre perduram. Chegaste num dia de aeroporto de corpos moles apinhados, de sopro rarefeito na garganta, eu ausente de mim própria. Chegaste com um sorriso que não reconheci, de braços abertos como punhais, ferindo o ar. E eu estática, presa ao corpo. Nas entranhas, um nó de gelo. No rosto, a falta de expressão. 

Envolveste-me num abraço feito de nada. De ausência. De coisa nenhuma. 

O caminho até minha casa foi um atropelo de palavras inúteis — as obras do metro na Praça do Comércio, o tempo de viagem de comboio, o ponto exacto onde o Tejo encontra o Atlântico — como se a geografia pudesse preencher o vazio que se agarrou a nós. 

Instalaste-te na minha casa com uma densidade inquietante. Por dois meses, vinhas. E eu sem reconhecer o agora. 

Há um estranho na minha sala. 

Há um estranho sentado à minha mesa. 

Há um estranho adormecido, ao meu lado na cama. 


E é enquanto dormes que te escrevo, na esperança de te reencontrar nas palavras.  

Conhecemo-nos de olhos postos no mar, com a Grécia ao fundo, entre ruínas e o suor das pedras por nós erguidas. Conhecemo-nos no tempo dos dias longos, do vento morno beijando a pele, do lugar suspenso entre um verbo e o outro: a vida dizia ir e nós escrevemos ficar sobre uma frase em fuga. Que loucura pensar que resistiríamos ao fio de tempo entre nós tecido, à aridez do Inverno, à banalidade, à própria vida. 

Na noite silenciosa, observo-te. Tudo em mim se fecha como um sarcófago antigo, na poeira da solidão: a pele queima quando lhe tocas, os lábios resistem aos teus, a tua presença asfixia-me. Sei que também eu me ergo, estranha, ante ti. 

E no entanto, persistimos. Agarramo-nos às palavras como uma mentira bela:

seni çok seviyorum, 

seni çok seviyorum, 

seni çok seviyorum.


Mesmo sabendo que não é assim.