435

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onde, outrora, se escondiam loucos
erguem-se, agora, carnavais de mentecaptos
bobos,
putas,
chulos,
raivosos ancestrais,
filósofos de merda,
gente deprimida,
gente cega,
gente pútrida,
gente sem braços e sem pernas,
tristes solitários de um serão comunitário fictício,
velhas sem dentes,
homens sem tesão,
anafadas inquisidoras,
línguas bífidas no interior das bocas podres,
só escarro,
só sangue,
só seiva,
só esperma,
só ruído,
só gemido,
só lágrima seca sobre o rosto.

o mundo.
o mundo.


434

olá. 
hoje estou pop.

lisboa . 2011

433

utrech . 2012



"Nada melhor do que caminhar numa cidade, sem a conhecer. Saber-me perdido e, mesmo assim, continuar a andar como se ali tivesse nascido. O pior é que me perco cada vez menos nas cidades, ou melhor: já não possuo a capacidade de me deixar perder."  Al Berto . O Anjo Mudo

432

Nunca fizeste se não erguer, em ti, espessas paredes de mundo.
De cada vez que o corpo morre, nasce um grito na garganta sedentária dos sonhadores. Gerberas e magnólias enfeitam a boca maculada, enquanto a mágoa desfeita cega as estrelas sob o pó da noite.
Não faltarão idóneos chacais, mulheres de ventre liso e amargurada desventura:
dos ossos à pele gasta, o riso silenciado do futuro há-de secar a morna textura do sangue envenenado. Talvez então, as ruínas da Babilónia deixem de se atravessar no teu caminho, e a longa luz da madrugada traga até ti a memória luminescente da casa. 

431

das noites passadas em claro:

acto I
o nascer do dia e o tempo que não parou


acto II
tudo o que ficou por fazer

acto III
um banho de água muito fria, para não adormecer


acto IV
o peso do mundo sobre o corpo amolecido



430

Apesar do medo, salto de braços bem abertos para o precipício.
O corpo lançado para a frente num ângulo impossível, o grito silenciado pelo rancoroso rosnar do vento.

Durante a queda, traço no ar esboços de sonhos, melodias de pôr-do-sol e saudade:
lá  ao fundo, uma certeza chamada amor.

429

Às vezes apetece-me fugir daquilo que me espera.
Mas como se vira costas ao que ainda não aconteceu?

428

ensaio sobre a Primavera


426


"Claro que se tem medo que alguém nos entre pelos olhos.
Mas podes arder. Para a tua temperatura sou mercúrio,
linhas de mão, lábio e sopro. Atravesso-te porque me atravessas
e onde somos corsários rendemo-nos ao encanto da
devolução."


o poema
+
imagens bonitas feitas por pessoas bonitas,
aqui,
até ao dia 30 de junho.

425

dia 217

"Como um veneno, a minha vida começa a actuar. Não é de repente. É ir perdendo os dedos, os braços, cada vértebra - a ortodoxia do corpo."
Vasco Gato

424

meu coração é de vidro,
na fímbria do olhar gotas de névoa cristalizam,
o sangue estagna oxidado nas veias e eu digo
meu amor,
para que não deixes de existir.
meu amor.  
trago o teu nome ao peito, tecido numa corda de lírios,
e um manto de sonhos, ascendendo da branca espuma do mar.
recolhi do mundo o tempo,
as pessoas,
todas as coisas que te afastam de mim.
avançamos lentamente contra a cauda centrípeta do vento.
fora dos teus braços há precipícios,
feras inebriadas,
escuridão absoluta.
o brilho apagado das estrelas,
na noite demoradamente sombria.
quero desenhar-te o sorriso na pele nua,
beijar-te as pálpebras, erguer-te uma casa de amor.
renuncio aos medos e aos planos,
dou-te a mão, escuto o silêncio:
voamos juntos para onde nasce o mar.

423

podia ser Buñuel


What sort of hopes do you place in love?

Luis Buñuel: If I'm in love, all hopes. If not, none.

422

casamar
cas amar
amar o mar
amaro
amor

parede . 2012