689

III

Sobre a despedida no hotel em Tirana passaram quarenta dias. O tempo mede-se agora em ausência, em exacerbada distância; em agridoce melancolia. 
Todos os dias me recordas quanto falta para nos reencontrarmos e a cada dia um novo espinho rasga-me a garganta. Perguntas-me se tenho saudades tuas e eu pergunto-me se ainda quero que venhas. 

Chegas-me em pedaços de papel escritos à mão, em fotografias desfocadas de lugares longínquos, em imagens de fogo que me mantêm acordada nas noites mais densas. Chegas-me em suspiros cravados na carne e no cansaço de esperar. 
Para lá de ti, a rotina instalou-se, pegajosa. Sobre ela, a tua memória desfaz-se, rarefeita, no tic-tac do relógio de pulso. 

Já não sei o teu cheiro. 
Já não sei se a tua voz era grave ou apenas rouca. 
Já não sei o peso exacto do teu corpo sobre o meu. 

Escreves-me e dizes que queres casar comigo, 
benimle evlen, sevgilim. 
Digo que sim, porque ao amor não se responde com prudência; porque ao amor não se diz que não. Porque talvez amar seja isto: levar a chama ao limiar do incêndio e esperar que não queime. 

Chegas daqui a dez dias. 
E de ti, agora, guardo apenas o nome. 






688

II

Hayatimin askı

O decorrer da noite no navio foi um corredor de ruído: passagens demasiado estreitas, ar denso, os olhos famintos dos homens, cravados na minha carne como pregos. Ou talvez fosse eu, que depois de tanto tempo de esperas me desabituei às esporas. A tua blusa trouxe-a colada ao peito, o teu cheiro fluindo na névoa do sonho. O teu cheiro, askim, essa morada quente que me aquieta o sangue e me devolve ao corpo. 

Atravessei o mar como quem atravessa os anos de juventude - houve algo de tremendamente belo em ver a terra morrer atrás de mim, a noite a fechar-se como uma pesada pálpebra, e, com a manhã, um novo país a erguer-se da água.  

Ancona abriu-se em camadas de tempo: sobreposição de muros sobre igrejas, de igrejas sobre ossos, de ossos sobre lágrimas e de lágrimas sobre a memória. Itália para mim é casa, mas casa sem ti é agora vazio. Queria-te aqui, askim, a ensinar-me os nomes do mundo, de mãos dadas sobre as milenares pedras ainda lembradas.

Agora escrevo-te sentada no interior de um restaurante turco, onde entrei para te sentir mais próximo de mim. Chove lá fora. A gordura escorre das paredes como uma língua, e eu aqui sentada como quem aguarda um presságio. Daqui a umas horas apanho o comboio para Milão, e de Milão regresso à minha terra de sal. 

Quero regressar a ti. 

Quero regressar ao lugar onde o meu nome é dito apenas pela tua boca.

Seni çok seviyorum, benim güzel askim.

P.S.: Milão é uma cidade de vidro morto, uma vitrine de gente vazia. Tudo tão falso, tão vão, tão cheio de nada. Sinto-me cansada até aos ossos e nos ossos cansados não há lugar para ti.


Chegada a Ancona, Itália, desde o Mar Adriático


687

I

Hayatimin Askı

Escrevo-te do convés deste navio-ferrugem, o horizonte desfazendo-se em chama. A Albânia liquefeita ante mim, como um poema antigo, dissipando-se na pouca tinta: uma linha de sombras, um punhado de luzes amarelas, e a chama ténue das velas que deixámos na igreja de Himarë, a arderem dentro da distância. Tudo se afasta e tudo entra em mim, como um suspiro.

Deixei a minha casa de silêncio há mais de um mês e o tempo é poeira colada à pele. É queijo de cabra e raki queimando o estômago, é o sal do mar Jónico pousado na língua. É o silêncio mineral das montanhas a romper-me o peito. Disseram-me que não era seguro viajar sozinha, que devia partir. Fiquei, porque fugir me pareceu absurdo; porque de fugir já fugia eu.

Antes de chegar a Himarë, dentro da garganta rochosa dos Balcãs, algo em mim se libertou. Não foi um instante: foi uma fenda lenta, uma porta rangendo por dentro do sangue. E eu, do outro lado do medo, a aceitar os outros. A aproximar-me. A devolver amor e compaixão como quem devolve um órgão ao corpo. 

Então surgiste tu, askim, por entre esta combustão interior, como se tivesses vivido sempre na margem secreta da minha vida.

O navio avança e eu flutuo nas vísceras sanguinolentas da memória. O mar azul-cobalto ondula como uma besta adormecida, a lua cheia derrama o seu leite espectral sobre a água. As estrelas brilham na densa carne negra do céu e a noite abre-se como um livro de ossos. Vejo-te, askim, levitando feito sombra inquieta, o teu rosto erguendo-se na escuridão. Os teus olhos - que reconheço de há cem anos - atravessando-me a alma, como se soubessem o meu nome antes de eu ser corpo.

Penso, por um instante, como tudo isto parece um sonho. Mas o teu cheiro permanece, acre, entranhado em mim. A tua mão ainda queima na minha pele. Os teus lábios ainda repousam húmidos sobre os meus. E sei, com uma certeza feroz, que foi real. Que, por alguma razão obscura e luminosa, nos cruzámos nos labirínticos caminhos da vida.

As lágrimas caem-me quentes pelo rosto. Não são tristeza: são sal. São baptismo. São excesso de vida. 

Seni çok seviyorum, meu amor.
Mesmo que o navio não chegue a atracar.

686

Três vezes o sangue

Dizem: três pessoas antes do amor maior
ou o nome que damos ao fogo quando ele já não queima.
Dizem: hão-de passar por mim as
histórias entrecruzadas de três vidas, 
marcar a pele, rasgar a alma
levar a fé ao lodo da memória

Recordo o tempo em que pensei amar tudo o que me atravessava o corpo, 
visceralmente, 
como quem desconhece ainda a essência das feridas:
cada gemido uma boca de verdade inteira
e na inverdade da minha essência a ausência esculpida a sisal

Recordo como o vazio era dor antiga, 
minha, da Mãe, da Irmã,
de todas as mulheres que se fizeram treva ante mim
e submissas se silenciaram

Mas o tempo entranha-se nos ossos, 
na distância onde o amor se revela, 
onde a luz se faz chaga e da chaga cicatriz a mercúrio caiada

E no sótão do esquecimento, os três incêndios:

O primeiro amor foi leve, como são as coisas primeiras,
para sempre, dizíamos, 
para sempre.
Havia pôr-do-sol na praia, verão entrando pelas entranhas, 
havia descoberta e inocência,
e as mãos ignorando o sangue que ia escorrendo dentro da pele

De palavra e sombra foi feito o segundo,
era um homem-lobo de olhos e alma negra.
Al Berto, Herberto, Satie desfiando o silêncio, 
Margaret Leng Tan batendo nas cordas da felicidade como numa ferida, 
Tarkovsky, Bergman — a convicção de que só a profundidade sangra, 
de que era necessário sentir tudo até ao fundo da treva

O terceiro foi palco de estilhaços,
pedras soltas onde o coração se fez chama, 
pela primeira vez, 
deserto,
dentro da geometria impossível da dor

Depois houve uma década de abismo em loop
corpo dormente, 
alma alheada,
entre a abstracção das coisas vivas e a saudade das pessoas mortas

E eu percorrendo-me como uma estranha
no meu próprio labirinto de carne

Agora descanso na certeza do que já não importa:
o coração quieto como cinza, 
esquecida do nome do fogo.
Não é dormência, é talvez
tranquilidade,
ou saber que nada é para sempre

Nem mesmo o lado-sombra,
O lado-silêncio
O lado-solidão 

Recupero as palavras como quem regressa de um naufrágio,
reconstruindo a retalhos a própria alma,
entre os escombros da ruína
e a sede de sal para lá do inverno