III
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II
Hayatimin askı
O decorrer da noite no navio foi um corredor de ruído: passagens demasiado estreitas, ar denso, os olhos famintos dos homens, cravados na minha carne como pregos. Ou talvez fosse eu, que depois de tanto tempo de esperas me desabituei às esporas. A tua blusa trouxe-a colada ao peito, o teu cheiro fluindo na névoa do sonho. O teu cheiro, askim, essa morada quente que me aquieta o sangue e me devolve ao corpo.
Atravessei o mar como quem atravessa os anos de juventude - houve algo de tremendamente belo em ver a terra morrer atrás de mim, a noite a fechar-se como uma pesada pálpebra, e, com a manhã, um novo país a erguer-se da água.
Ancona abriu-se em camadas de tempo: sobreposição de muros sobre igrejas, de igrejas sobre ossos, de ossos sobre lágrimas e de lágrimas sobre a memória. Itália para mim é casa, mas casa sem ti é agora vazio. Queria-te aqui, askim, a ensinar-me os nomes do mundo, de mãos dadas sobre as milenares pedras ainda lembradas.
Agora escrevo-te sentada no interior de um restaurante turco, onde entrei para te sentir mais próximo de mim. Chove lá fora. A gordura escorre das paredes como uma língua, e eu aqui sentada como quem aguarda um presságio. Daqui a umas horas apanho o comboio para Milão, e de Milão regresso à minha terra de sal.
Quero regressar a ti.
P.S.: Milão é uma cidade de vidro morto, uma vitrine de gente vazia. Tudo tão falso, tão vão, tão cheio de nada. Sinto-me cansada até aos ossos e nos ossos cansados não há lugar para ti.
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I
Hayatimin Askı
Escrevo-te do convés deste navio-ferrugem, o horizonte desfazendo-se em chama. A Albânia liquefeita ante mim, como um poema antigo, dissipando-se na pouca tinta: uma linha de sombras, um punhado de luzes amarelas, e a chama ténue das velas que deixámos na igreja de Himarë, a arderem dentro da distância. Tudo se afasta e tudo entra em mim, como um suspiro.
Deixei a minha casa de silêncio há mais de um mês e o tempo é poeira colada à pele. É queijo de cabra e raki queimando o estômago, é o sal do mar Jónico pousado na língua. É o silêncio mineral das montanhas a romper-me o peito. Disseram-me que não era seguro viajar sozinha, que devia partir. Fiquei, porque fugir me pareceu absurdo; porque de fugir já fugia eu.
Antes de chegar a Himarë, dentro da garganta rochosa dos Balcãs, algo em mim se libertou. Não foi um instante: foi uma fenda lenta, uma porta rangendo por dentro do sangue. E eu, do outro lado do medo, a aceitar os outros. A aproximar-me. A devolver amor e compaixão como quem devolve um órgão ao corpo.
Então surgiste tu, askim, por entre esta combustão interior, como se tivesses vivido sempre na margem secreta da minha vida.
O navio avança e eu flutuo nas vísceras sanguinolentas da memória. O mar azul-cobalto ondula como uma besta adormecida, a lua cheia derrama o seu leite espectral sobre a água. As estrelas brilham na densa carne negra do céu e a noite abre-se como um livro de ossos. Vejo-te, askim, levitando feito sombra inquieta, o teu rosto erguendo-se na escuridão. Os teus olhos - que reconheço de há cem anos - atravessando-me a alma, como se soubessem o meu nome antes de eu ser corpo.
Penso, por um instante, como tudo isto parece um sonho. Mas o teu cheiro permanece, acre, entranhado em mim. A tua mão ainda queima na minha pele. Os teus lábios ainda repousam húmidos sobre os meus. E sei, com uma certeza feroz, que foi real. Que, por alguma razão obscura e luminosa, nos cruzámos nos labirínticos caminhos da vida.
As lágrimas caem-me quentes pelo rosto. Não são tristeza: são sal. São baptismo. São excesso de vida.