Vergarei sempre perante o amor,
essa ferida em chaga que debaixo da pele me
dilacera as entranhas e recorda que dor
é a memória do teu beijo sobre os lábios que
há muito perderam a
apaziguadora completude dos teus.
660
O mercúrio da noite tinge os ossos de uma certeza antiga: tem
proximidade de asfixia,
um desdém empoeirado empoleirando-se no contorno das coisas, o
peso da penumbra apoderando-se da memória como
lama nas poças do Outono, como
asco na voz das feras, como
a mentira e a cobardia no suor dos homens que esta cama acolheu.
Sentir-se-á um dia um perfume que não o de
sémen pútrido semeado nas paredes da casa,
prímulas e gerberas, cerejeiras e frésias, fé ou
crença inabalável, em que algo maior do que gemido poderá
despontar das pessoas.
proximidade de asfixia,
um desdém empoeirado empoleirando-se no contorno das coisas, o
peso da penumbra apoderando-se da memória como
lama nas poças do Outono, como
asco na voz das feras, como
a mentira e a cobardia no suor dos homens que esta cama acolheu.
Sentir-se-á um dia um perfume que não o de
sémen pútrido semeado nas paredes da casa,
prímulas e gerberas, cerejeiras e frésias, fé ou
crença inabalável, em que algo maior do que gemido poderá
despontar das pessoas.
659
Escreve-me
e da palavra faz imagem do teu silenciado gemido,
da pele salgada reflectindo a alvura da noite à
cadência do corpo por entre os dedos cerrados.
Escreve-me
e do desejo faz delírio e do delírio
crença em algo maior,
como se o suor e a seiva fossem
a pedra basilar assente
no fundo do abismo que nos detém.
e da palavra faz imagem do teu silenciado gemido,
da pele salgada reflectindo a alvura da noite à
cadência do corpo por entre os dedos cerrados.
Escreve-me
e do desejo faz delírio e do delírio
crença em algo maior,
como se o suor e a seiva fossem
a pedra basilar assente
no fundo do abismo que nos detém.
654
Dá imenso trabalho, isto da vida. Levantar a cada dia, sorrir, permitir que as coisas boas façam parte de nós. Às vezes apetece mandar tudo à fava, pegar no que temos de denso e fazer disso desculpa: podemos sentir-nos miseráveis porque os anos passam e continuamos a não saber quem somos, ou porque perdemos alguém muito importante, ou porque temos o coração magoado, ou porque às vezes nada à nossa volta parece fazer sentido...tanta coisa, qualquer coisa! Mas no fundo, que importa tudo isso? É preciso dizer "foda-se", sem medo, gritar se for preciso, e não deixar que todos os quês e os porquês e os pequenos dramas se apoderem e justifiquem tudo. Sair deste ciclo vicioso sem jeito nenhum, em que os nossos bloqueios bloqueiam os outros e às tantas estamos todos bloqueadíssimos e com o peito pesado por causa de coisas que já nem nos pertencem. E como desconfio que as tais "desculpas" vão fazer parte do que somos a vida toda, entre andar à deriva - levar tudo e todos atrás só porque não se sabe o que se quer - e deixarmo-nos de tretas e fazer aquele esforço extra para sermos melhores, admitamos que a segunda hipótese faz mais sentido. Respirar ajuda, tenho aprendido isso. Mas respirar à séria, com o corpo inteiro, com os ossos, até: absorver todo o ar pelo nariz, senti-lo fresco a entrar enquanto o peito expande e o corpo inteiro vibra com o oxigénio extra, depois empurrar o ar para o fundo da garganta sentindo-o espesso e morno, para finalmente expirar pela boca e o corpo ficar leve leve leve! O resto vem com o tempo, e com tal trabalho. Nos dias de sol e calor sente-se que vale a pena, nos dias mais cinzentos há mais dúvidas mas, no fundo, é tudo uma questão de imensa e inabalável fé!
652
Habitar-te-ia de forma una,
como palavra num poema a que não faltou a tinta,
abrir-te-ia o peito com uma doçura de eternidade
e no seu interior plantaria prímulas e cerejeiras,
um campo imenso onde as trevas jamais se abateriam.
Seríamos paz e sorriso,
cumplicidade e ternura,
seríamos corpo demoradamente esculpido nas noites húmidas,
amanhecer sereno de sol e salsugem.
Dos braços fiz casa para te receber
e no coração escrevi o teu nome a medo e esperança.
Enquanto o tempo nos separa existe uma baía fria
onde me ergo e te aguardo,
até que as palavras sejam só coisa dita
e a tua existência memória.
650
A noite cai e com ela aquela dor antiga de medo em mim sepultado. Tomo um banho de água fria para justificar o tremor do corpo, visto-me, pego nas chaves do carro e saio à rua. São 1h35m e o mar ruge do meu lado esquerdo. À minha frente, o negro alcatrão da estrada surge ténue por entre o branco dos faróis. Estou a andar há 2 horas, sem qualquer destino, a estrada deserta, a música demasiado alta ferindo os ouvidos. Grito, choro, rio, fico em silêncio, contorno o limiar da loucura que me acena e me chama para junto de si. As horas passam, os quilómetros sucedem-se e nada se altera em mim.
O depósito acusa o pouco combustível, desço a serra, a estrada sempre vazia, a escuridão deserta da noite.
Algures encontro uma bomba, 10€ de gasóleo, por favor, o rapaz olha-me é só o gasóleo?, digo que sim, ele insiste, de certeza que é só isso que queres daqui?, repito a resposta, guardo o troco, encho o depósito e retomo o caminho para lugar nenhum.
Algures encontro uma bomba, 10€ de gasóleo, por favor, o rapaz olha-me é só o gasóleo?, digo que sim, ele insiste, de certeza que é só isso que queres daqui?, repito a resposta, guardo o troco, encho o depósito e retomo o caminho para lugar nenhum.
No negro da noite surgem os primeiros feixes de luz, os pássaros da madrugada cantam, o alcatrão fica mais suave, o peito estagna dormente. Eventualmente chego a casa, abro uma garrafa de vinho, bebo e fumo à janela. A cabeça pesa, o corpo lateja, arrasto-me até à cama. Preparo-me para dormir e para esquecer.
648
Dia da Palavra inteira, dos homens-maiores que existem para lá da alma,
dia de dizer Obrigada a todos os que fizeram da solidão coisa escrita e através da Poesia nos fazem sentir um pouco menos à margem do mundo.
dia de dizer Obrigada a todos os que fizeram da solidão coisa escrita e através da Poesia nos fazem sentir um pouco menos à margem do mundo.
647
Ode aos que chegam com a neblina e partem ainda antes da Primavera.
Breve, um abraço tão breve como os dias mornos,
e o lugar da outrora chama permanece lentíssimo na certeza de ninguém.
Breve, um abraço tão breve como os dias mornos,
e o lugar da outrora chama permanece lentíssimo na certeza de ninguém.
644
Abandono a memória no limbo da noite: é para lá das imagens um dia erguidas - agora apenas sepultadas - que há paz.
642
A minha religião pousa morna rente ao rosto: é o vento e o ar que respiro, é o azul das ondas e a força imensa do mar, é o sol sobre a pele e a chuva, o céu nocturno pontilhado de estrelas, as altas serras, as imensas árvores, o canto dos pássaros da madrugada. A minha religião é água fresca dos ribeiros, pés descalços sobre a terra, os dias, as noites, o respirar mais profundo, toda a liberdade, serenidade imensa, o coração feito sorriso, o mundo.
640
O mar também se incendeia
e do sal se faz cinza e das ondas sepulcro.
A réquia ecoa na noite plúmbea como grito antigo,
como suspiro primacial dos seres agora espectrais,
demoradamente sombrios.
Tento dizer-te que me acomodei à espera,
que o coração já não se inflama,
que a paixão existe apenas em horas de
emprestada ternura.
As chamas dançam na garganta do crepúsculo,
gotas de fel cristalizam à tona da água,
morrem os peixes, as mulheres choram,
há devastação celeste reflectida.
Tento dizer-te que um dia fui mãe,
que já houve corpo na morada do meu corpo,
que também eu me incendiei e agora
madrasta me entrego ao retruso lugar da
minha solidão.
e do sal se faz cinza e das ondas sepulcro.
A réquia ecoa na noite plúmbea como grito antigo,
como suspiro primacial dos seres agora espectrais,
demoradamente sombrios.
Tento dizer-te que me acomodei à espera,
que o coração já não se inflama,
que a paixão existe apenas em horas de
emprestada ternura.
As chamas dançam na garganta do crepúsculo,
gotas de fel cristalizam à tona da água,
morrem os peixes, as mulheres choram,
há devastação celeste reflectida.
Tento dizer-te que um dia fui mãe,
que já houve corpo na morada do meu corpo,
que também eu me incendiei e agora
madrasta me entrego ao retruso lugar da
minha solidão.
638
Um fino manto de silêncio repousa sobre a paisagem,
o tempo esquecido do lugar das outrora coisas,
da outrora maresia,
ergue-se na montanha cálida.
E eu sentada na fímbria do futuro poema sinto
a imensa calma, como um imenso ofício,
suspiro resplandecente no interior do peito fulminado:
morada onde primitivos espinhos quebram.
Onde as feridas,
o tempo esquecido do lugar das outrora coisas,
da outrora maresia,
ergue-se na montanha cálida.
Suspenso ao longe, o nevoeiro avança lentíssimo,
toca o contorno das árvores como um terno amante,
no fulgor virgem onde gotas de orvalho cristalizam.
no fulgor virgem onde gotas de orvalho cristalizam.
A chuva inquieta do Inverno escorrega na pele, reveste as clareiras.
Há vento soprando nas gargantas incendiadas,
o carmim das folhas últimas pairando,
estremecendo no supremo silêncio da cidade nunca erguida.
E eu sentada na fímbria do futuro poema sinto
a imensa calma, como um imenso ofício,
suspiro resplandecente no interior do peito fulminado:
morada onde primitivos espinhos quebram.
Onde as feridas,
antiquíssimas,
saram.
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