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(isto é uma síntese do amor) 

57

Tenho a mente dormente de ilusões, de tentações,
Encadeadas espirais de frustrações,
Abanões opacos de realidades translúcidas
Que sinto na pele,
Que sinto nos ossos,
Que sinto nos músculos e me dão cãibras de mim
E arrasto os dedos e tiro o pó a mim
E arrasto os dedos e tiro a alma a mim
E arrasto os dedos e deixo cair os dedos
Porque nem os dedos me servem para poder fugir de mim

Toco as cordas do pensamento
Na esperança de ouvir uma outra melodia
Mas a música é sempre a mesma
E o tom é sempre o mesmo
E a letra, invariavelmente,
É a da minha melancolia.

Hoje dei um passo em frente
E abri a janela de par em par
Mas no ar que inspirei
Encontrei apenas um sufoco
Um espesso e mudo sufoco de ar negro
Que por mais que tente não consegui ainda expirar

E até podia viver assim
Presa em divagações de final de dia
Enquanto a corda no pescoço aperta
E a esperança se perde numa luz fugidia
E até podia viver assim
sem agarrar nunca a areia que me passa por entre os dedos
Ou então agarra-la com tanta força
para que me não levasse nunca os medos
E até podia viver assim
Na sombra da sombra do meu próprio corpo
Escondida algures nos becos de mim própria
entre o absurdo e o absorto

51

Há luzes que se vêem ao longe e no longe permanecem,
como miragens que se escapam,
folhas que esvoaçam de por entre os dedos e flutuam,
sem rumo,
no leito de um rio seco.
Há paisagens que se deformam ainda antes de se formarem,
palavras que não encontram,
jamais,
as letras que as definem.
Há caminhadas que de tão longínquas perdem os seus passos
e os espaços por entre os passos
e a memória dos espaços por entre os passos.
Confino a minha existência à solidão,
como se num manto infinito tecesse um padrão a linha invisível,
que só eu vejo,
às vezes.
Sinto o tempo como quem afunda os dedos num saco de areia,
procurando o fim que não chega,
enquanto deixo o meu braço ser lentamente absorvido para dentro do saco.
E o saco de areia do tempo nunca acaba,
e o saco de areia do tempo leva o meu corpo,
mas o saco de areia do tempo nunca quer a minha alma.
E é por isso que mesmo sem corpo carrego o pesadíssimo fardo da alma que sustento
em mim,
insustentavelmente,
pintando de cores garridas telas que vejo sempre brancas,
que podiam conter nelas as mais belas cores que a natureza gerou,
as que o homem criou,
mas ainda assim,
para mim,
estão sempre brancas.
E é nesse branco leitoso de princípio de dia que me encontro,
agora,
diametralmente oposta a tudo aquilo que almejo sentir.
Perdi-me a meio caminho entre a realidade e a miragem,
ou então foi a miragem que me levou a crer que havia uma realidade,
ou então foi a realidade que se apoderou da miragem,
e a tela do saco de areia do tempo,
e o saco de areia do tempo espalhou-se sobre a tela
e afinal a tela era o saco de areia que nem areia tinha e muito menos o tempo.


Porque afinal não existe nada,
nem sequer a miragem.

Nada.

E eu flutuo,
algures,
no leito de um rio seco.

50

é silêncio o começo.