636

Sento-me na orla dos teus braços,
no lugar que a memória cravou dentro de mim,
abismo a que me entrego em noites que se erguem densas:
de inesperado frio,
de brutal saudade.
Há chamas carmim nas cidades que reluzem no horizonte,
tudo arde,
das paisagens ao meu peito,
tudo se extingue,
do teu abraço à minha crença no amor.
Recolho-me para onde não fere a mágoa,
ergo-te um monumento com o meu coração cansado,
tão cansado de esperar pelo dia em que em todas as sombras
não mais surja o teu vulto. 

635


Roman Polanski .  La Vénus à la fourrure

632



Retrato do lugar a que chamei casa, 
que em sal transforma a pele 
e os recônditos lugares da alma. 
Morada de silêncio, 
de um outro mundo,
jazigo de amores esquecidos, 
de corpos perdidos, 
de navios desfeitos,
do anoitecer carmim,
da densa bruma,
da branca espuma,
do rugir do vento.
Mar de habitar, 
mar de sonhar, 
mar onde das lágrimas nascem peixes, 
mar orla de cidades em fogo, 
mar manto negro velando a noite, 
mar manto plúmbeo velando o teu corpo, 
mar amor, 
mar amar, 
mar saudade, 
mar solidão. 

631


Ternura é um beijo pousado sobre a testa e os teus braços no abraço do meu corpo.

630

Não importa se do corpo, se da alma, cegueira é cegueira e dormência um modo de ser cúmplice da barbaridade daqueles a que chamámos de outros homens. As terras resvalam, as vidas cessam, a natureza cede e as pessoas morrem; as notícias manipulam, todos são tudo quando, na verdade, são nada. A arma de fogo destrói lado a lado com a arma de pixels e já nem a dor mais sagrada se respeita. Nas areias movediças do tempo fizemos por cravar a nossa marca, mas onde se erguiam castelos resta agora este acre mar de devastação. 

629

                     Os teus lábios
                      o meu  abrigo nocturno




                                                             a tua pele
                                  a seda de que me cubro



                                                                                a morna saliva
                                                                                      da sede com que te beijo



                                                                                                    o pulsar dos músculos
                                                                                                                  de fome e de
                                                                                                    desejo.

628

Habito o mar como se de apenas sal fosse feita a minha alma,
morada onde Cila e Caríbdis se perpetuam,
densas gargantas-prisão de marinheiros.
Habito o rugir nocturno das ondas,
a branca espuma,
as negras crateras até ao núcleo da Terra esculpidas.

E de maré em maré habito em ti,
demorando-me no esplendor cálido do teu corpo.
Quando o espelho de água é tocado por uma brisa
e a sua cristalina superfície estremece,
diluímo-nos um no outro como o dia que termina:
tu,
oceano azul da Prússia engolindo os feixes de luz últimos do sol,
eu,
pincelada rosa carmim pousada sobre o horizonte.

627

Podia ser gaivota ou a ampla brisa do mar.
Podia ser onda ou nevoeiro,
pôr-do-sol no início do Verão
ou a chuva ainda morna do Outono.

Podia ser qualquer coisa que fosse tudo:
liberdade,
respirar,
o mundo.

626

Há chamas para lá das cidades,

também o mar se incendeia.

624


Guardar-te-ei para sempre no lugar mais terno do coração.

623

Destruir depois de ler

A tua presença anunciada pelo arrepio na minha pele, pelo coração ferindo o peito, pelo ar aprisionado na garganta. 

Depois olhar para o lado, ver-te e fugir, fugir tanto: de ti, da memória, da ilusão; e desfazer a raiva em suor e lágrimas largados no chão da casa.  

622

O meu fado é solidão de onde extraí o medo, 
velha casa onde me arrasto como sombra polida,
sombra morta ou esquecida,
traço faminto de humanidade.
Uma e outra noite tropeço no teu corpo, 
debruço-me sobre o branco ventre de um outrora amante, 
agora apenas vulto esfumando-se no limiar da memória.
A melancolia instala-se como uma densa nuvem de Outono, 
negra bruma ou 
mortal espuma lançada à ingratidão do tempo. 
A língua que ama é a mesma que mata, 
repetidamente, 
num tortuoso caminho 
marcado a sisal 
sobre a alvura da pele. 
Chamo-te num uivo, 
grito o teu nome à pálida esfera da noite: 
abre-se o céu em vertigem quando,
na certeza das quedas futuras,
diluo na fornalha da vida o sopro último do vento. 

621

Casa é onde o corpo se faz mar
e o sal das ondas limpa da pele o fel dos teus lábios.

620

Sonhei com quem nunca existiu fora do meu corpo, apenas dentro, por um breve momento, que não soube prolongar. 

619

A inconstância púrpura da madrugada deposita-se no lado de fora da janela. Dentro da casa a luz vermelha, a cama aberta, a pele de mármore latejando. Renunciámos às palavras por nos reconhecermos no silêncio: entras, fechas a porta, pousas as tuas coisas sobre a cadeira; olhas-me; espero-te; sorris; desejo-te. Sobre o teu corpo ancorei um dia o meu e juntos nos fizemos oceano, gemido, sal e suor, carne, sangue e seiva, êxtase e abismo. Disseste: és a minha morada em terra, e eu disse habita-me sempre que estiveres deste lado do mar. Trazem-te até mim os ventos brandos, os equinócios, o início de uma nova estação, a lânguida fome. Sacia-te e eis que te fazes demorada boca ardente, mãos-de-fogo, sexo quente, denso, profundo, acre alimento, permanência imutável de ti em mim. Inebria-me o teu cheiro a ferrugem dos navios, a portos perdidos do mundo, a sol incendiando as cidades que se desvanecem no horizonte. E é do horizonte que te chamam as paisagens que só conheço das tuas histórias: dizes sonho contigo todas as noites, e partes deixando comigo a indomável força das ondas, o mel dos poros e o azul do olhar.


618

Cravei na areia a permanência do teu nome, na súplica de te dissipar sob as ondas do mar.

617

Eu dou-te as palavras, tu dás-me silêncio.

É-te suficiente, esse observar-me à distância?

616

Revisto-me do silêncio da tua partida,

é tarde.

Adormeço recostada nos braços de ninguém.

615

samaná . 2009

614

Escrevo-te,
chamas ascendem ao peito,
a escuridão da noite engole-me
como uma garganta fulminante,
uma vertigem,
um abismo inconstante de temor antigo,
escarpas, espinhos, espelhos sem reflexo,
absoluta lentidão,
o degolar do tempo pela memória
que penetra e empodrece o lugar
do coração.
Escrevo-te,
grito,
lágrimas sulcam a pele como lâminas,
ou como caminhos
traçados a sal
onde te procuro,
lugares que percorro chamando por ti,
estradas infinitas de terra-sangue,
terra-cinza,
terra-só-terra,
cemitério onde te fizeste corpo-terra,
lápide
e depois jardim.

A Irmã morta habita em mim
como uma tristeza de eternidade,
com a dolorosa incerteza do que há
para lá do corpo terrestre,
se será estrela
brilhando no espaço
ou inóspito vazio.
A Irmã morta habita em mim
como um espinho,
um punhal de lâmina
carregada de veneno,
como vento frio quebrando os ossos,
gelo, tempestades,
o rugir nocturno do oceano,
medo, lágrimas suspensas,
às vezes raiva,
às vezes serenidade,
talvez um dia perdão.

Escrevo-te,
mas escrever-te é escrever morte,
essa incógnita que chamaste para ti
e tornaste tua,
minha,
das irmãs sem Irmã,
da Mãe sem Filha,
dos filhos sem Mãe,
do absurdo que é
desconhecer em quem amamos
o lugar sombrio da sua
(in)existência.

613

Regresso como se nunca tivesse partido: a estação mudada, 
o aproximar do sempre brutal Agosto, 
a morte do Poeta, 
a saudade e a demência, fulminando a pele, como ferida em sangue. 

Escrevi dez páginas de um contínuo-poema, ou contínua-loucura, a que chamei auto-biografia. Perdi-as a todas, mas agradou-me a ironia. Agora repouso num espaço inventado onde as palavras não magoam, mesmo as que me recordam que a casa que habito é uma mortal morada de silêncios, erguidos, ainda antes da invenção do tempo, no lugar do coração. 

611

Amar-te-ei para sempre:
digo-o em silêncio,
as palavras forçosamente mudas,
a mágoa vítrea instalada no fundo do olhar.
Amar-te-ei mesmo que nos esqueças,
que arranques do peito o que fomos,
a verdade e a mentira,
todas as coisas inventadas,
da flor da pele ao fundo dos ossos.
Amar-te-ei para poder beber
do mortal veneno
que é amar-te.

609

Adormeço sobre o corpo vergado,
a cabeça tombando em direcção ao peito,
os lábios entreabertos, pontilhados pela morna saliva,
as pálpebras cerradas, onde gotas de salgada névoa cristalizam.
A respiração atravessa a garganta como um espinho,
rosa outrora púrpura,
agora apenas venenosa,
letal ácido de lágrimas e fel.
O alabastro envelhecido da pele cede ao tempo,
emanando o seu odor a fuligem, eterna espera,
sangue nas veias estagnado.
No colo, o caderno sem folhas,
memórias brutalmente arrancadas.
Sobre as páginas caídas no chão, vultos negros esvoaçam,
os medos e o passado, tornados visíveis, rodopiando no centro da sala:
o Pai feito nevoeiro, dissipando-se,
a Irmã, consecutivamente morrendo,
o amor pairando absorto, impossivelmente longe,
e a solidão erguendo-se como um manto,
absorvendo os mortos,
os medos,
as questões,
as páginas do caderno,
a casa,
os dias,
as gélidas noites,
o tempo,
os sonhos,
o corpo adormecido.

Quando acordar talvez não seja tarde
e consiga ainda recolher do chão as folhas escritas,
ordenar as memórias,
recordar o Pai,
perdoar a Irmã,
despir o manto,
ceder ao amor
e entender que o que sou não está nas palavras,
mas no silêncio entre elas.



608


Desenho de Daniel Moreira. Texto escrito para o livro de artista "Sobre um Traço Negro",  2014.

607

E  olho para o lado e vejo-te: de corpo nu, pele perfeita, imenso e belo; desconhecendo ainda o quão perto estavas de matar a réstia de esperança que havia em mim.

606

Sonhei contigo, feito onda e sal, rebentando, lentamente, sobre a praia do meu corpo.

605

Interrompo o sono para escrever. Na mesa-de-cabeceira, o caderno e a caneta de tinta preta aguardam pacientemente por noites assim, onde o peso que me habita o peito se dissipa apenas em palavras. A marca invisível das mãos sobre a pele é ferida que se instala, esculpindo de terrífica acidez o oco tremor do corpo. Digo que me dói, a solidão; tudo o resto são máscaras colocadas tão junto ao rosto, que chego a acreditar ser felicidade o vazio que por dentro sinto. E de vermelho pinto os lábios e a vil falsidade da minha existência, largando dias sobre dias, até ao desmoronar da construção. Da hipotética esperança de uma mão que me ampare a queda, nada sobra: sobre o tempo e até à deterioração do corpo, continuo a oferecer o leito a quem disser as correctas palavras de engano e mentira, repetindo, sucessivamente, o eterno ciclo da minha degradação. No fim, o que sou pesa-me, torna os ossos frágeis e a alma velha. Faz-me extinguir com todas as coisas que trago em mim e não são de ninguém, apenas do silêncio sepulcral que me habita. 

604

A noite, com os seus longos dedos de fel, toca-me o corpo inebriado sobre a cama. De pele nua e pernas entreabertas, humedeço os lábios com a ponta da língua. Assim, exposta à invisível presença dos que por aqui passaram, desejo parar o tempo, esquecer o nome dos homens, limpar o fundo da alma e recomeçar; fazendo de conta que o amor é possível, que a esperança me habita  e a solidão não me convém. 

603

Infinito: é o tempo que me podia demorar nos teus lábios. Não creio, contudo, que haja em cada um de nós lugar para a permanência do outro.

602


A lentidão dos dias e dos gestos escorrendo sobre a folha permanentemente branca. A fluorescência da luz ferindo o olhar e a ferida da existência trespassando a pele. As escaras camufladas com abrigos de lã e sémen, cravando-se nos ossos até à inconstância da medula.