529

É tarde, mas o sono não chega: tenho um vazio no peito, um buraco imenso com o teu nome no fundo. Tudo à minha volta é escuro, feio, pesa demasiado sobre os meus ombros frágeis. No interior do meu corpo, uma ferida aberta sangra a saudade que te tenho, enquanto nos ossos uma lâmina romba crava cada metro que te separa de mim. 73 600 sulcos. Esta distância absurda sufoca-me, desespera-me, entristece-me. E de nada me serve ter o mar inteiro, um céu de nevoeiro, folhas caídas nas estradas e o cheiro dos eucaliptos no ar; de nada me serve ter sonhos, beijos à espera dos teus lábios, braços feitos de carinho para te abraçar; de nada me serve o próprio corpo, a própria alma, o sorriso e o brilho nos olhos se não for para te dizer quero a vida inteira contigo a meu lado, meu perfeito e imenso amor.

.

528


Podemos caminhar sempre na direcção das estrelas
e nunca chegar ao céu.
Diluir nas entranhas a ácida esperança de alvura e calma,
de azul petróleo,
de vazio.
Ver a imagem para lá do reflexo,
estender os braços,
não cair.
Até pode ser manhã,
a tardia aurora de cada início de noite,
pode ser de fogo a chuva
e de paz os Homens.
Nada se opõe à tenacidade absorta do pensamento.
Enterram-se os pés na lama,
os corpos nas abadias,
o vidro na densa musculatura dos vingados.
Entre nós e o silêncio
há água estelar,
cristal tingindo de púrpura,
madrugadas.

527

Não desistas de mim hoje.
Não desistas enquanto sentires no meu corpo as infinitas ondas do mar.

527

Esqueci-te ainda antes de ter o que recordar.

526

Dias que são pó na alvura da madrugada,
como ferro oxidado na garganta podre dos incertos de destino.
Sonhamos para enganar a morte,
para que ela não saiba se a dormência da alma é o fim,
alguma espécie de vida,
ou solidão.

Talvez o afastamento do mundo seja uma negra dádiva
e a nostalgia permanente a força necessária ao bater do coração.
Talvez a reserva na entrega total nos proteja
perante a ameaça de um qualquer apocalipse interior.

Sucumbo à minha natureza,
tanto quanto ao desejo de ser feliz:
pesa-me nos ossos, esta bipolaridade do que quero de mim.

Acomodo-me uma vez mais à imensidão do abismo.
Amo com a mesma intensidade com que desejo ficar só.

525

Corpo,
esse lugar sanguinolento onde a alma nos prende por engano.

Morada pútrida de seiva,

sémen,

suor,

doença,

morte.

Enterro antecipadamente esta carcaça que possuo.
Liberto-me dos ossos, da falsa alvura da pele, da flacidez dos músculos.

Despeço-me e parto em paz: não há mais matéria em mim.


523

O segredo é sair à rua quando chove: assim ninguém sabe se o que escorre pelo rosto são lágrimas ou chuva, e até eu chego a acreditar que sou feliz. 

522

Se o meu corpo fosse onda rebentava sempre na direcção do céu.

521

Nos dias em que não danço esqueço-me de existir.

518

Sinto que o meu corpo apodrece como a madeira gasta de um navio.
Não reconheço o horizonte nem o caminho de regresso: há nevoeiro, gaivotas cegas, o negro azul do mar.

517

O ano passado, por esta altura, adiei a vontade de te beijar.
Era só sonho, doloroso e belo, histórias de sol e sal. Tempestades.
Depois, muito depois, houve beijo, corpo, lâminas, lágrimas, queda, luz, desprezo, fim.

Obrigada pela viagem. Correu tudo bem.

516

revolta contra a fé

515

O reflexo no espelho ensinou-me a mentir, tanto quanto as noites passadas em claro.

514

Debrucemo-nos sobre a saudade, primeiro estágio do processo de degradação pré-morte.

513

Tenho no coração o silêncio, tocado nas cordas de uma guitarra portuguesa. Cada suspiro é melodia, cada bater é saudade, cada instante é doce e só melancolia. 
Tenho na alma o Tejo, a mortal claridade de Lisboa, o ecoar do fado esquecido nas ruas, nos becos, nas gastas pedras da calçada. A cidade menina, a cidade mulher, a cidade que me acolhe e me repele. Que já me viu chorar com lágrimas de fim de mundo, rir, amar à luz do dia ou em nocturnos cantos escuros; que me conhece o vómito, o sangue, as entranhas, os medos, os sonhos, os segredos.
Sei que em mim cabe um mundo de paisagens imensas, mas o que sou, o que me guia e define,  é a língua da poesia e é Lisboa. 

512

coisas que passam por mim sem que me aperceba:

a noite

511

aparição. deformação. estagnação. 





510

o homem fraco

O homem fraco dá-me náuseas, mete-me nojo. Ao homem fraco tenho vontade de cortar as mãos, o pénis, arrancar um dos olhos e expor o outro ao triste retrato da sua condição. O homem fraco não pensa, é uma marioneta ridiculamente manipulada por alguém que há muito devia deixar de fazer parte da sua vida. E se essa pessoa sorri e puxa um dos fios, o homem fraco vai atrás; se deita a língua de fora, o homem fraco saltita de emoção. Se expõe as carnes, o homem fraco vem-se em prolongado regozijo.
O homem fraco é ridículo, absurdo, repugnante.
Morte ao home fraco.
Fim.

508

Penso em paisagem, esse esgar tantas vezes brutal de sobreposição de sensações. Olho o mar, exponho a alma às ondas e espero: se ao menos os peixes me escutassem o pensamento e me ensinassem porque não devo morrer.
Atrás de mim, um poço de água fétida dá de beber a quem passa. Há muito que deixei de observar as pessoas, de lhes querer saber o nome, os sonhos, a morada. No lugar dos olhos transportam vazio, no lugar da boca uma doença sem cura. 
Talvez a esperança tenha caído com o último sol e o negro da alba seja mais denso no interior do meu corpo usado. Talvez seja demasiado lento o tempo, demasiado tarde, mortalmente arrastado sobre a decomposição dos dias.
Levanto-me para me deitar: duvido que haja hoje, sequer agora, muito menos amanhã.

506

"sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sopro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria."

Herberto Helder, in A Faca Não Corta O Fogo - súmula & inédita . Assírio & Alvim . 2008

504


prólogo de coisa nenhuma

O que há de tão errado em morrer,

dizias abruptamente sobre a noite apagada,

se ao próprio corpo devemos o descanso de nos alojar a alma?

Recordo que a questão me pareceu menos pertinente do que a forma como o fumo do teu cigarro ondulava na sala vazia. Não subia, simplesmente, dissipando-se de seguida. Havia uma espécie de dança, entre os teus dedos e o ponto exacto onde o fumo desaparecia. A cinza acumulava-se no chão de madeira gasta mas tu, indiferente a algo mais para além do teu pensamento, continuavas.

Bem sei que devemos chorar e temer a morte, oh a negra e terrível morte, mas nada me traz mais serenidade do que a certeza do fim. O sofrimento, a devastação do pensamento e da memória, isso sim, causa-me uma imensa agonia. Agonia porque me dá nojo. Nojo! Digo nojo e repito porque é verdade! Não é em vão que me faço acompanhar do eterno poder de decisão. É a decisão, Flor, que cria o Homem.

Não precisava de afastar o olhar do meu verdadeiro objecto de interesse para saber que, dentro do casaco de veludo gasto, o teu braço se erguia em direcção ao tecto. Nas pontas dos dedos, um frasco de prata oxidada era exposto, uma vez mais, à tua representação sobre o declínio e a morte.

- Sim,  de nada vale temer o óbvio. A consciência da fragilidade humana é a força da própria humanidade.

- Humanidade, Flor? Que humanidade? A dos livros de História ou de Utopia? Estou a falar-te do Indivíduo, não do conjunto de mente-captos que forma essa farsa que é a sociedade!

O teu salto repentino da cadeira fez com que a ponta do cigarro caísse no chão e se apagasse. À minha frente, o movimento sem critério, braços e mãos esvoaçantes, a voz saindo grave da garganta e a pele mudando de cor, fez-me perceber que dissera algo que não devia. Indiferente à tua revolta, observei-te. No teu rosto, caminhos sem destino tinham-se sulcado na pele. Marcas profundas assinalavam o contorno dos olhos, a largura da testa, o lugar exacto até onde costumavas sorrir. Não havia qualquer brilho no teu olhar, nem mesmo provocado pelo entusiasmo do discurso repetido. Insisti na procura do homem por quem me apaixonei anos antes, mas em vão. Estavas velho, esgotado, entregue a questões sem resposta e devaneios. O bigode amarelado pelos cigarros constantes, a roupa gasta, os sapatos de solas descoladas, os gestos exagerados, a ira contida; tudo em ti me pareceu demasiado triste, avassalador. Ao longe, muito para lá do meu pensamento, continuavas:

- No man is an Island porque não chega! Somos ilhas muralhadas, protegidas por canhões e cercados de nós mesmos. Eu sou a minha ilha e o meu mar. E não me venham falar de destino, que o Destino é a aceitação do medo por parte dos fracos.

Na altura achei ser carinho mas, entendo agora, o que senti naquele momento foi pena. Compadeci-me de ti com a mesma intensidade com que, um dia, te amei. Sei que dirias que o sentimento mais degradante é a pena, mais redutor da condição humana. Gostava que entendesses que muito pouco na vida é linear. Que há algo de fascinante na abstracção, na aceitação da dúvida e da incerteza. Claro que para ti não havia questões por responder, tudo era claro, tão claro ao ponto de te retirar o gosto por viver.
Entende que não havia, em nós, mais nada para além de um fosso. Lembro-me que um dia me disseste,

És Flor e eu sou árvore velha. Tenho raízes no lugar de pétalas e enquanto tu vais ficando mais bela eu vou caminhando para lá do chão.

502


Os meus lábios anoitecem selados,
é tarde, demasiado tarde, para os abrir.
Do lado de fora do medo há labaredas,
monstros de cabeças várias,
um precipício maior chamado saudade.
Às vezes penso que não sou daqui,
que há mil anos nasci e me esqueci de morrer.
Há no meu corpo um cansaço de eternidade,
uma espera de cal e entranhas,
infinita e densa.
Do olho direito, sangue quente atravessa a pele,
escorre pelo rosto em direcção à boca fechada.
Como seria possível negar a fétida carcaça do homem que persiste,
do homem podre, morto, o homem que me habita a alma.
Entrego o pensamento ao delírio, como se me tocasse.
Insisto na loucura.
Adormeço.

501

Falta mar ao corpo.
Há alturas em que o cimo da terra magoa a pele. O sal é sempre mais brando e as ondas brutais. 

500

q u i n h e n t o s

Quebro o silêncio desta morada para dizer olá:

Olá!

Sinto algo de solene neste momento. 500 posts é demasiada coisa escrita e eu continuo sem saber ao certo o que se passa por aqui. Em breve faz quatro anos que este espaço foi criado e dois desde que decidi torná-lo público. Muito pouco mudou, desde então.
Este continua a ser um lugar de silêncio ou de grito. De negro profundo ou de incandescente claridade. Há palavras inventadas, histórias imaginadas, e outras que vêm directamente do coração. Também há as que não são coisa nenhuma, apenas exercícios de estética ou auto-abstracção. Apesar da porta aberta, há algo por aqui que permanece fechado. É quase inconsciente, na verdade, mas talvez seja a maneira que encontrei de me sentir confortável na partilha que faço. Ao longo do tempo, este lugar tem deixado de ser apenas meu, para se tornar também daqueles que o acolhem e visitam. Há quem quebre o afastamento e se dê a conhecer, tornando esta partilha ainda mais especial. É um sentimento demasiado grande, o de poder tocar os outros com o que me toca. Mesmo através de algo tão comum, banalizado até, como um blogue. 
Por tudo isto, considerem-se timidamente abraçados, num gesto de agradecimento e carinho.

Retorno agora ao meu lugar mais recolhido. 

 Até sempre, 

 marlene.

499



Sonhei com Beno,  como se fosse meu aquele amor impossível de dor e saudade.


497

Ensaio sobre o princípio do mundo:




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496

já é tempo de deitar o corpo ao mar


parede . 2011

495

A Sweet Little Tale About Boobs

CHAPTER I
 Boobs are the New Faces


There’s so much about faces
that’s not easy to yap,
funny noses, silly eyes,
mouths full of crap.

In the world wide web,
emotions are not to be concise,
faces might be deceiving,
but boobs are always nice.

Oh, they’re so pleasant
both for women and for men,
don’t be shy, little girl,
show your rack as much as you can.