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Tenho sono e fome e ânsia
E a iminência da clemência das sombras
Tenho o abrigo do meu porto de abrigo,
Sem-abrigo obrigo o vento a cessar
Tenho carnavais e verões e definições de melancolias
Tenho dores de cotovelo e azias
E de dentes, às vezes doem-me os dentes
Mas vivo essencialmente submersa
Numa imensa enxaqueca que me atordoa os sentidos
E ficam em sentido os sentidos,
Sentidos pela dor
Eu por mim já nem sinto
Sinto o vómito na boca e no nariz
E sinto a fria porcelana da sanita sobre a qual
Me debruço e expulso a enxaqueca em pedaços
De pato com ananás.

E assim passo  noites
Que chegam a ser dias
Sem olhar para o calendário
E sem saber sequer o número do mês e da porta
E da segurança social e do telefone,
Já nem sei o meu número de telefone...
São só números
E letras, às vezes também encontro letras
E números que se misturam com as letras
Como em códigos

HJ876JGS9

1626JJ99

ou matrículas

49-56-BC

embora matrículas sejam códigos

ou então todos os códigos são matrículas,
embora não ache que isso faça particular sentido.

Embora ache que o maior sentido seja o da falta de sentido.

75

e eu que julgava saber o amor, estou agora suspensa neste tecto de vidro.

73

quanto vale o vazio quanto vale desculpe pode repetir a pergunta? eu não sou de cá eu não sou de cá cá tenho fome e sede de entranhas sinto a corda a apertar o pescoço não corras tão depressa são vozes no silêncio são ecos e mantras ecos e mantras de murmúrios no alcatrão sinto o veneno na ponta da língua e queima eima eima NÃO CORRAS JÁ DISSE sai da estrada vai para a estrada parte ao meio o corpo e a alma salta o abismo salta o abismo salta o abismo. silêncio. fim.

72

Foi como uma brisa. Um vento ao de leve no rosto que eu não senti, a vida. 
Relembro presa na distancia os dias passados lá fora, no jardim. As tardes de sol no rosto, o cheiro a água salgada na pele, o sorriso solto, leve, fácil. Relembro. Queria dar-me mais do que memórias, mas não sou capaz. Perdi-as algures, no vazio, num vazio, num qualquer vazio que as levou e reclamou como suas. E eu, fiquei sem nada. Podia ser mais fácil se soubesse, à partida, como acaba a história. Não posso deixar de pressentir um alivio imenso ao pensar no fim, ao sabe-lo certo, ao tê-lo como garantido. Guardo nas palmas das mãos resquícios do que o outrora me deixou, ténues, trémulos, fugidios. Vejo linhas, muitas linhas cujo significado desconheço, adjacências e confluências que não sei. Uma das coisas que faz parte de mim e que por completo desconheço. Uma mais, no meio de tantas outras. Sento-me de novo à procura dos significados que não encontro, jamais, em lado algum. E cravo na pele essa permanente busca, afloro as entranhas na perseguição constante do tudo...do nada...de significados, apenas e só significados.

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são só pessoas que já não conheço. as paredes do meu quarto estão forradas com rostos do passado, impressos em papel fotográfico. não me recordo do teu nome, e a ti, minha velha amiga, não sei mais o que nos unia. mas não faz mal, aprendi que não fazia mal. só não sei o que fazer com as tuas fotografias, meu amor, e esse é o meu único problema.

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recebi mil cartas de amor numa língua que não entendo. durante noventa dias as li, sem saber sequer pronunciar uma única palavra. sei que são cartas de amor porque me fazem o coração sorrir. respondi a todas com desenhos, mas em todas me recordas que não sei desenhar. de resto, é tudo demasiado vago e eu nem gosto de cartas e muito menos gosto do amor.