Tenho sono e fome e ânsia
E a iminência da clemência das sombras
Tenho o abrigo do meu porto de abrigo,
Sem-abrigo obrigo o vento a cessar
Tenho carnavais e verões e definições de melancolias
Tenho dores de cotovelo e azias
E de dentes, às vezes doem-me os dentes
Mas vivo essencialmente submersa
Numa imensa enxaqueca que me atordoa os sentidos
E ficam em sentido os sentidos,
Sentidos pela dor
Eu por mim já nem sinto
Sinto o vómito na boca e no nariz
E sinto a fria porcelana da sanita sobre a qual
Me debruço e expulso a enxaqueca em pedaços
De pato com ananás.
E assim passo noites
Que chegam a ser dias
Sem olhar para o calendário
E sem saber sequer o número do mês e da porta
E da segurança social e do telefone,
Já nem sei o meu número de telefone...
São só números
E letras, às vezes também encontro letras
E números que se misturam com as letras
Como em códigos
HJ876JGS9
1626JJ99
ou matrículas
49-56-BC
embora matrículas sejam códigos
ou então todos os códigos são matrículas,
embora não ache que isso faça particular sentido.
Embora ache que o maior sentido seja o da falta de sentido.