recosto-me e penso: há histórias de tão longe surgindo à tona da água.
suspiro o negro e a morte, desejo um tempo sem tempo para existir, aquele em que acreditava poder ser absolutamente feliz.
é uma causa absurda, a vida: penetra nas entranhas como um vírus, desfaz o corpo, adormece a mente e depois parte, levando o tudo que criou.
por mais que sonhe um pôr-do-sol de fogo e malva, o meu pensamento escurece na perspectiva do amanhecer. não sei se é por querer ou pela forma como se me desenha a vida: linhas tortas, sinuosas, fugidias.
e nos caminhos que se perdem na sombra das árvores, redescubro o único trilho que me leva a casa, o da minha solidão.
é tudo tão noite em cada princípio de dia, e todas as coisas são nevoeiro e barco perdido no alto mar. e eu corro, e grito, e lanço os braços estendidos no ar, como velas, como estacas, como algo que me prenda firmemente à terra.
neste vento passando por entre os cabelos, nas primeiras gotas de chuva penetrando a pele há uma breve sensação de segurança, como se o cheiro a outono e a terra molhada fosse uma mão de mãe sobre o peito, que me acalma o intermitente bater do coração.
e as minhas lágrimas já não brilham no mortal sol de agosto e a chuva absorve e reconforta a minha dor.