383

marionnettes

rotterdam . 2012

abro-te a porta do cemitério.
os corpos feitos árvores erguem-se sobre a neve.
ao longe vês a cidade, adiando a sua chegada a este lugar que nos é comum.
apanha os ramos caídos e redesenha a tua figura.
pode ser que quando regressares ainda se lembrem de ti.

382

Fome, frio, saudade: o corpo inteiro e um céu sem estrelas dão de beber à insónia.
Aqui, onde a noite se torna infinita, conto as falhas da memória. Seria precisa a eternidade do tempo para recordar a branda quietude das constelações, o esplendor do universo desenhado no tecto da casa antiga, o oceano cantando ao longe as histórias do seu negro fundo.
No caderno de folhas gastas desenho o contorno da minha pele cansada; a cabeça pendendo do tronco nu e a vergonha que não sinto ao me saber exposta. O rosto perdeu a expressão no passar dos anos, uma máscara eficazmente largada sobre a estrutura óssea.
Ouço o vento do lado de fora da janela, o ladrar dos cães irrompendo do silêncio da calma nocturna. Olho os pulsos, recordo as palavras que neles tatuei: amar, amar-te e a esperança toda do mundo na concretização desse amor.
Um fino fio de seda azul cose-me o contorno dos olhos. Adormeço na distância do teu corpo, os sonhos agora largados na calma água do rio.

381

Onde o meu corpo desistiu do teu ergui um altar. Ainda julguei possível adiar o pensamento e a vontade de te gritar larga-me!, enquanto prendia as tuas mãos com mais força junto a mim. Esgotei todas as formas de sentir: o amor torna-me fraca, a paixão enlouquece-me, o desejo faz-me dizer que sim mais vezes do que as que deveriam ser permitidas a uma mulher. Saio à rua com uma falsa confiança que atrai estranhos para perto de mim. Perguntam-me quem sou, invento uma resposta diferente de todas as vezes. Quando o rio toca o mar sonho com um marinheiro que nunca conhecerei. E uma casa numa ilha sem nome, sem gente, sem nada. Acordo todas as manhãs na esperança de que chova: tenho lágrimas presas aos olhos, à espera de cair.

380

in heaven everything is fine*

aeroporto . schiphol
2012

aeroporto . lisboa
2012

379

e o teu nome, aqui.


o meu desejo para esta noite é o mar e a tua pele salgada tocando a minha de dentro para fora. 
habita-me o corpo. esgotei as palavras para te dizer que te quero.

378

Largámos as amarras e detonámos as acções futuras. Deste lado da paisagem tudo é mais calmo, projectado a linhas ténues e contornos imperceptíveis. Beijo-te a face, Irene, as minhas mãos entrelaçadas no comprimento dos teus cabelos. Vamos subir a colina e esquecer a chegada, dedicar a existência àquele momento mais completo em que deixamos este lugar. Para lá do sol posto há cristais e melodias várias, lagos cristalinos e estrelas no céu manchado de azul. Dá-me a mão e corre comigo sobre a densa relva: estamos a dois passos e um sorriso de sermos profundamente felizes.

376

Há um templo imenso no corpo de uma mulher, uma casa à espera de ser habitada. Toma uma mulher nos braços, não tenhas pressa. Demora a eternidade do tempo.
Ama a mulher pela sua grandeza, pela sua absoluta sensualidade, pela totalidade do que é. Amar uma mulher é como tecer delicadas cordas de flores raríssimas e atá-las em torno da barriga, do interior das coxas, dos seios, do fundo das costas, do pescoço.
Ama a mulher em que tocas, nem que seja por uma noite. E se é só uma noite que queres, não deixes que ela se apaixone por ti: diz-lhe como é bonita, mas não a olhes nos olhos; beija-lhe lentamente os lábios, as mãos, mas nunca as pálpebras. Elogia-lhe o cheiro, jamais o sorriso. E, acima de tudo, nunca a abraces.
Todas as mulheres são meninas também, respiram com o coração no lugar dos pulmões. Ama a mulher durante a noite, recorda-a pela manhã.

375

regressar com a dimensão do mundo cravada na alma:
há um sentimento sem nome ao descobrir em mim própria a força necessária para esculpir a vida. como se as mãos tivessem o tamanho certo para aquilo que pretendo alcançar e o caminho para o conseguir fosse barro que se molda e toma a forma correcta. sem pressa, com a sabedoria de um oleiro sem tempo, dedicado ao seu ofício.
os sonhos já não me sufocam, não anseio que aconteçam aqui e agora; há uma calma maior na espera.
guardo o amor no coração como uma memória bela. já não choro por ele. reconheço a sua grandeza e fico feliz por ter acontecido.
escrevo o que sou na bainha da saia, nos braços nus, no corpo exposto a esta brisa que me parece tão morna.
tão leve.
tão imensamente perfeita. 

373

há dias em que se erguem moradas eternas no lugar do coração

parede . 2012

372

à sexta um poema


v a s c o . g a t o

"Claro que se tem medo que alguém nos entre pelos olhos.
Mas podes arder. Para a tua temperatura sou mercúrio,
linhas de mão, lábio e sopro. Atravesso-te porque me atravessas
e onde somos corsários rendemo-nos ao encanto da
devolução.

Tu e eu à porta de um lugar que vai fechar tudo numa árvore.
Aqui onde os minutos são a rua em que nos sentamos toda
a tarde à espera do silêncio, onde o teu corpo pesa a
medida exacta do meu desejo.

Sou um animal. Necessito diariamente da transfusão de uma
enorme quantidade de calor. Tocas-me?"


A Prisão e Paixão de Egon Schiele, & Etc., 2005

371


a memória é como um banho de água demasiado quente: 
torna a alma engelhada e dilata os vasos capilares da razão.