567

A tua boca como uma morada autêntica,
boreal,
manto tecido a veludo sobre os meus lábios demoradamente vermelhos.
Luz ténue à tona do rosto e a quente saliva inundando o interior da garganta.
O traço único do teu corpo revela-se lento na ponta dos dedos, da fibra dos músculos às células dos ossos,
da brisa leve da manhã à grandeza índigo do mar. 
Toquemo-nos mutuamente, do início ao final de cada dia, como se os sexos unidos fossem a casa que sempre sonhámos habitar.

566


Não me finjo detentora da aparição do poema,
aqui onde cede e canta,
onde a valsa nocturna dos finados se encerra.
Não vislumbro montanhas,
nem mar,
nem céu,  
nem criação alguma que nunca tenha sentido em si
a imensa e tenebrosa
luz do sol.
Alcanço-me serena:
a secular vida das coisas adiada,
a questão fulcral lançada ao engano,
o firmamento
onde cego e sangro a
ferida aberta do peito.
Escorro liquefeitas deambulações que arranco de mim
para atirar contra o negro muro dos sentidos,
a lógica amovível da existência
instalada sob a retina.
Mulheres de ventre empodrecido
choram o lugar último da sua morada,
espelhos quebrados reflectem
o sexo desfeito protegido por mãos
que já nada transportam.
Agora fecho os olhos e nego a dor,
movo-me,
predominantemente horizontal,
exercendo dia após dia o meu direito
de existir.
E sinto na pele o calor do homem,
imenso e belo,
que paira num tempo anterior a mim.
A caneta toca o papel
e as palavras desfazem-se em tinta,
digo coisas que se perdem nesta nuvem de fumo.
A chuva,
escorrendo sólida pela janela,
encerra o temor dos dias de solidão,
cristais fundem-se com a pele do rosto,
aqui onde me habito inteira.
Transformo em ar a lenta arritmia do pulsar do corpo,
sinto-me dos ossos dos pés à estrutura do crânio.
Calmamente me ergo e me revejo em ti,
quando abro a porta da casa para que nela
marques o chão com o peso dos teus passos:
de pele nua, 
travamos lutas secretas de suor e seiva
na cama desfeita que abriga todos
os meus sonhos.