99

O meu amor é palavras de silêncio, é o espaço entre os corpos, é o vazio. O meu amor é dedos entrelaçados e festas no cabelo, beijos na testa e nos lábios e nas pálpebras. O meu amor é esquecer a solidão e querer construir uma casa de papel e nela esperar que o rosto se encha de rugas e as mãos se deformem na forma dos teus dedos. E é assim de mãos dadas querer morrer, a observar as estrelas sentados no banco de um jardim. O meu amor é assim, meu amor, simples demais para encher uma folha de papel.

98


São salgadas as insónias que me humedecem o rosto num rasto brilhante de contra-luz. São metálicas pinceladas de alcatrão no peito, buraco que se escava cada vez mais fundo no tic-tac das horas prisioneiras do meu relógio de pulso
Questões e certezas, questões certezas e incertezas que me consomem os sentidos. Tenho cada vez mais dúvidas e o coração diluído em todas elas.
Penetro no passado e na noite, vergando os pensamentos entre um trago de whisky e um bafejar de cigarro forte, silêncio mortal de medo e melancolia. E nada me dá segurança para enfrentar a passagem das horas; nem o teu corpo. Betonei com ecos o amor verdadeiro e os ecos matam-me mais do que a noite de que sou prisioneira.
Preferia não saber. E como as minhas palavras não te chegam, será tarde demais o momento em que o saberás.

97

obtusas especulações de uma manhã de nevoeiro.
que não me falte a certeza nesta manhã de nevoeiro.

96


é tudo tão infinitamente luz que o que eu vejo é absolutamente silêncio

94

Dissipei-me ao longe no cais como um barco atracado que nunca partiu e se perdeu por entre o nevoeiro.
Dissipei-me na noite que me enche a pele de orvalho e os dedos de um tremor hesitante, um perder de forças vertiginoso que me seca o sangue.
Desfiz-me em frente ao espelho deixado algures entre o corredor de uma grande casa abandonada e o contínuo crepuscular de reflexos sobre o rio.

O meu barco não partiu.

E eu gritei, gritei, gritei, gritei...
e tu não ouviste.

Tivesses sabido escutar-me nas palavras que te escrevia e poderia não ter sido tarde nem hoje, nem nunca.

92

Sei-o melhor que ninguém, que posso encher páginas de palavras que mesmo assim nenhuma chega ao vazio que sinto no peito. 
Posso falar de tudo, menos da concreta certeza da minha dor.