As comportas do passado abriram-se sem pré-aviso, e agora estou aqui – sozinha, sempre só eu – com o peso do mundo entre os dedos.
Tento lembrar-me de como se respira sem pensar na respiração. De como se está num corpo sem sentir cada osso, cada articulação, cada músculo tenso à espera do expirar que não chega.
O passado não deveria ser assim: repentino, deselegante, aos trambolhões. Deveria chegar com ternura, bater à porta, pedir licença. Mas irrompe como bêbado às três da manhã, cuspindo verdades.
Durante treze anos habitei o inverno. Tornei-me pedra, couraça, porta que só abre para fora. Treze anos de névoa, cortando pela raiz tudo o que ameaçava florescer.
E eis que a Primavera renasce súbita. Alguém que me olha por dentro e o peito – contra toda a lógica, contra todo o gelo – abre-se. Mesmo sem saber para o quê.
Telefono à mãe morta, mas a mãe morta não atende o telefone. As perguntas acumulam-se na garganta sem terem a quem ser ditas. Fiz do sim não, durante tanto tempo, que deixei de pensar nas próprias perguntas.
Talvez seja isso que me pesa nos dedos. Não o mundo – o mundo segue bem sem mim. Mas este acumular de ausências, este catálogo mental de tudo o que não ficou. E percebo que a agonia é isto: não saber se estou à espera que algo comece ou que algo termine.
Fora, a cidade respira. Aqui dentro, sou mulher-quarto-vazio, mulher-espera-tardia, mulher sentada à beira do que poderia ter sido, entre o cume e o precipício.