709

Sento-me neste quarto vazio à espera de alguma coisa sem nome. Coisa indefinida e, no entanto, pesada. Coisa agonia.
As comportas do passado abriram-se sem pré-aviso, e agora estou aqui – sozinha, sempre só eu – com o peso do mundo entre os dedos.

Tento lembrar-me de como se respira sem pensar na respiração. De como se está num corpo sem sentir cada osso, cada articulação, cada músculo tenso à espera do expirar que não chega. 
O passado não deveria ser assim: repentino, deselegante, aos trambolhões. Deveria chegar com ternura, bater à porta, pedir licença. Mas irrompe como bêbado às três da manhã, cuspindo verdades.

Durante treze anos habitei o inverno. Tornei-me pedra, couraça, porta que só abre para fora. Treze anos de névoa, cortando pela raiz tudo o que ameaçava florescer.
E eis que a Primavera renasce súbita. Alguém que me olha por dentro e o peito – contra toda a lógica, contra todo o gelo – abre-se. Mesmo sem saber para o quê. 

Telefono à mãe morta, mas a mãe morta não atende o telefone. As perguntas acumulam-se na garganta sem terem a quem ser ditas. Fiz do sim não, durante tanto tempo, que deixei de pensar nas próprias perguntas.

Talvez seja isso que me pesa nos dedos. Não o mundo – o mundo segue bem sem mim. Mas este acumular de ausências, este catálogo mental de tudo o que não ficou. E percebo que a agonia é isto: não saber se estou à espera que algo comece ou que algo termine.
Fora, a cidade respira. Aqui dentro, sou mulher-quarto-vazio, mulher-espera-tardia, mulher sentada à beira do que poderia ter sido, entre o cume e o precipício. 

708

Escrevo-te como se ainda te 

sentisse nas palavras,

boca-de-mel,

do fio ainda morno de saliva,

escorrendo do contorno das coxas,

ao sexo pulsante, 

fulgurando o interior da carne.


A língua avança lenta sobre a pele,

tece a sua textura poro a

poro, vibra e estremece.

O corpo torna-se espesso, 

profundo,

imenso,

derrete ao toque com 

suor e suspiro.


No instante em que 

a carne cede ao incêndio,

abro-me inteira à chama. 

Já não há distância entre o que arde

e o que queima, 

juntos nos fazemos cinza. 

Diluo-me no rasto do teu corpo,

no interior que ainda lateja,

no sabor que a garganta guarda.

707

 


non compos mentis


ardil vs vulnerabilidade 

706

05h11m


É assustadora, a escrita. E eu caminho pela palavra, num labirinto em loop - sem saber se estou a descrever o que fiz, o que estou a fazer, o que vou fazer, ou o que poderia ter feito. A luz e as trevas confundem-se, a mentira do poema e a verdade da vida. A escrita antecipa, profetiza, altera, anula, amplifica. 

Escrevo para ser leve. Mas às vezes o peso do que escrevo volta para mim. E eu já não sei se o que sou é a minha essência, ou a materialização da metáfora. Porque escrevo os medos e os transfiro para mim. Porque escrevo sombra, e a sombra tapa o sol. 

Devia escrever sobre a ternura. Sobre não temer a vulnerabilidade. A suspensão. A paixão. O amor. Devia escrever sobre mergulhar de cabeça e nadar, mesmo não vendo o fundo. 

Devia. 

Mas os demónios têm boca e chamam por mim. 

705

04h25m


A noite fez-se insuportável. Acordei encharcada em suor. A garganta azeda. A cabeça a latejar.

Tantos anos caminhando no fino fio, resistindo a ventos e marés, e foi com uma aragem que caí. Com um vento leve de início de Primavera. Uma brisa. O fio é - sempre foi - fino, e eu caí. 

Desço agora ao fosso para apanhar os estilhaços da alma. Lavar o corpo suado. A língua com sabor a veneno. 

A cabeça pesada como um jazigo, prendendo os mortos. 

Penso que a culpa é da poesia. Que em vez de dizer metáfora, deveria dizer foda-se. Em vez de dizer está tudo bem, deveria dizer que está tudo bastante mal. 

Mas sobrevivi às trevas, uma vez mais. Fui matar saudades, digamos assim. 

O fio é fino e eu caí.

Talvez amanhã teça novas meadas. O fio se faça mais largo, mais resistente. Talvez amanhã já não faça da palavra prisão e da escrita loucura. 

Talvez amanhã a casa seja de pedra e cal. E tenha as flores e a poesia. Talvez amanhã, meu amor.

704

23h49m


Meu amor,

o meu sonho és tu, 
eu,
e uma casa de flores e poesia. 


Só que a minha casa não é de poesia, nem de flores, e muito menos contigo, meu amor. A minha casa é de fel: garrafa de vidro, gargalo alto, líquido dourado que me auto-mutila os sentidos. 
A minha casa é a inebriação de todas as coisas que fazem de mim humanaSensívelCapaz de sentir cada milímetro de inconstância
A minha casa é couraça, porta com um sentido apenas: cada passo de distância sem retorno possível. 
Na minha casa de vidro rio alto. Se sinto o veneno vítreo formar-se no olhar, troco-o por tímpanos furados, música impossivelmente alta, estrada nocturna sem destino. Na minha casa de vidro entram homens que me tatuam a pele, às 3h da manhã. Dormem na minha cama até os expulsar, entre náusea e nojo. 
E o vidro da garrafa-casa estilhaça-se, e eu vomito no chão de porcelanato. 
Há 10 anos dançava em lingerie.
Há 5 anos fazia amizade com o rapaz da loja de conveniência, para me deixar entrar fora de horas.
Agora, “vou pôr gasolina”, “ver a lua”, “arejar”: erguer a casa e cortar pela raiz cada grama de vulnerabilidade. Cada grama de sentimento. 


703


Respiração à tona do peito,

suspensa 

como as palavras 

pesada

como a memória.

702

Ossos com marcas de dentes e unhas, 

rasgados como papel: 

a besta devolve-me  o corpo que

lhe lancei ao desvario. 

Uso a carne de 

homens-sem-nome como

coberta numa noite fria, 

febril inconstância,

mutilação dos sentidos. 

Houve dois segundos em que

me esqueci de quem era

e abri as 

cancelas da alma.

Vergada.

Asco.

Erro crasso.


Dissolvo a pouquíssima ternura que me resta em frascos de terebentina e aguardo:

já falta pouco para regressar a mim. 


701


por


                            um





           fino






f

i

o




o insustentável peso de sentir todas as coisas

todas as palavras

todos os gestos

todas as  _______  ___ _


m u r a l h a


                    portafechada


.


fim

.



700

Há sempre qualquer coisa
animal moribundo 
lambendo as feridas
um fosso na penumbra 
e eu habitando a penumbra como 
sombra sobre a 
sombra.
Vulto.
O próprio fosso. 
Fossa asséptica.
Morada hermética onde 
escondo corpos sem alma
só corpos à espera 
de serem lançados ao mar.
Há sempre qualquer coisa
que é vertigem
que é queda
e eu na queda
de braços abertos
a pele em escara 
o riso viscoso
entregue à loucura.
E o riso bate nas
paredes pegajosas do fosso.
Ecoa.
Retoma a mim
como soco desenfreado
punho cerrado
nó dos dedos entre as costelas.
O riso louco recorda-me
porque fiz das sombras
morada de abismo.
Porque fiz dos corpos sem
alma família
porque me fiz fera de
feridas abertas
tropeçando
repetidamente
no nó nocturno da
solidão. 
Ah, o riso louco
que me diz que
arranquei do peito o coração
que me movo sem
órgão vital
que o fosso que habito é
mais fosso ainda no
vão do tórax.
O riso louco que sabe que
serei mais uma carcaça 
sem alma, 
inamável, 
na penumbra
entre escaras,
feras,
vultos,
escarro. 

Limpo o sangue da
pele – ou da alma,
já não sei,
e com abrigos de 
pó-cinza disfarço o
frio dos ossos. 
As mãos trémulas.
Vazias.
Como a loucura.

699

O poema
começa dentro do peito
e dentro do peito 
– entre marés e gerberas –  
existes tu. 
O poema nasce 
no espaço entre mim e ti,
fragmento onde a 
inquietação 
se faz coisa escrita.
O poema sou eu
e és tu. 
E nós existimos dentro da 
verdade imperfeita
do poema,
ao longo da página rasurada.
Já não habitamos só o peito:
habitamos o caderno,
a palavra,
o futuro do conjuntivo
do verbo estar,
ou o espaço entre as palavras 
–  o silêncio. 

O poema anuncia o seu fim
–  é sempre o poema
a dizer quando acaba. 

Fecho o caderno,

connosco dentro

na sépia da tinta. 

698

regresso à 
caverna-mercúrio 
onde o corpo se faz ofício
e a alma não pesa 

onde o coração não arde
e a pele
intocável
se cobre de abrigos 
de lã-veneno

regresso ao promontório do meu silêncio
onde não há chaga 
nem chama
só a espectral solidão do medo

o peito calcifica como rocha milenar
aqui
onde recolho a ternura
para lá do esquecimento

697

O silêncio deposita-se, 
lentamente, 
no lugar-abrigo onde o tempo aprende a respirar,
no espaço entre os corpos.
Não te chamo.
Não me movo.
Há gestos que pertencem ao outro
como o primeiro passo pertence ao abismo.
Sinto-te afastar sem te moveres
na tensão quase invisível que atravessa a noite 
fio estendido entre dois dedos.
Espero.
Com a perigosa inquietação 
de quem já inclinou o coração
um milímetro além do equilíbrio.

695

a lâmina romba rasga 

uma 
a
uma 

as veias-veneno.

694

Há um lugar na tua boca
onde o meu nome aprende a respirar
abrigo de fogo
sílaba morna
a nascer na húmida curvatura da tua língua.
Faz-se espesso 
na clausura da noite
entre o meu corpo e o teu
entre a pulsação contida
percorrendo a pele largada ao vento
mão suspensa
fio incandescente
onde o mundo inteiro se equilibra.
Nos teus lábios o meu nome estremece
à beira de dizer fica
e eu inclino-me 
devagar
para a vertigem da entrega
sabendo que não há rede
apenas o teu corpo
e uma janela de sal entreaberta
para a fera adormecida da alma.

693

Sobre o desfiar do fio
a equilibrista sem rede:
o ar cortante na queda da
senda fulminada da aurora.

O precipício abrindo-se em chama
a pele em fiapos ao longo da escarpa
os músculos liquefeitos 
até ao ocre da chaga.

Nos ossos a solidão, 
cravada a lâmina romba,
o temor como manto denso,
manto de fel,
manto-mão-de-aço,
estilhaçando o lugar do outrora-coração.

Dos jardins recolho o canto dos pássaros
e do mar apago as ondas.
Houve um instante – brevíssimo – 
de esperança de uma outra coisa:
de talvez abraço, de talvez ternura,
de talvez alvura.

Assim regresso à caverna sem nome,
de feridas entreabertas,
fera suspensa
num labirinto de sangue
onde o eco dilui o meu nome
até ao próximo amanhecer.

692

Epílogo

Às cartas escritas em silêncio adicionei fotografias de Himarë, da viagem pelos mares a Ocidente, dos dias em Lisboa. Coloquei-as num envelope de papel pardo, o teu nome e o meu, e enviei-tas como quem encerra um capítulo: a fechar a prosa do passado. 

Esqueci-te, como se esquecem os amores passageiros, como se esquecem as feridas que se pensava cicatriz e que não foram, afinal, mais do que arranhão sobre a pele. Soube que perguntavas por mim, entre sombras, de cada vez que me sabias nos lugares que sonhavas visitar, a caminhar nos tórridos desertos dos quais imaginavas apenas as dunas.

Anos mais tarde, encontrámo-nos em Berlim. Era Verão, Gilberto Gil tocava ao vivo, os dias demasiado leves para a urgência da tua presença. Surgiste com lágrimas, desculpas, arrependimento. As tuas mãos procuraram as minhas, a tua voz fez-se doce. A indiferença que te tinha transformou-se em momentânea ternura, em breve compaixão. Entendi como tudo em ti era esforço, como te cansavam os teus próprios gestos, a profundidade das palavras, o sentir. Entendi como caminhavas num fio estreito entre o que desejavas ser e o medo de não conseguires.

As tuas mãos agarraram o meu rosto, silenciaste as palavras: 

Askim

Olhaste-me imitando a profundidade com que nos olhámos anos antes – fabricando uma intimidade há muito extinta – na esperança de que nos revisse em ti. 

No reflexo do teu olhar encontrei apenas o meu;

E essa foi a última vez que te vi. 






691

V

Eram 18h quando baixaste a cabeça e murmuraste algo que não entendi. Pedi que repetisses, procurando os teus olhos para te entender melhor. 

De olhar cravado nas tábuas do chão, as mãos cruzadas sobre o peito, disseste: comprei um bilhete, vou embora amanhã. Não precisas de me levar ao aeroporto

Disse tudo bem, porque estava tudo melhor assim. Passaram doze dias desde a tua chegada e éramos dois estranhos arrastando-se em silêncio. Eu a passar os dias do lado de fora da minha própria casa. Tu a passar as noites dissolvendo-te numa garrafa de vinho. 

O dia amanheceu pesado. As malas feitas, eu entre o sono e o sonho. 

Abriste a porta uma última vez:

Tekrar görüşene kadar, sevgilim.


690

IV

Na minha cabeça a imagem repetia-se em loop: via-te ao longe, corria na tua direcção, hayatimin aski, benim Sultanim. Ficávamos em silêncio, no mergulho do olhar, no tempo suspenso do reencontro: o mundo reduzido ao intervalo – mínimo – entre os nossos corpos. 

Chegaste num dia de chuva, como são todos os dias das coisas que se extinguem — ou que para sempre perduram. Chegaste num dia de aeroporto de corpos moles apinhados, de sopro rarefeito na garganta, eu ausente de mim própria. Chegaste com um sorriso que não reconheci, de braços abertos como punhais, ferindo o ar. E eu estática, presa ao corpo. Nas entranhas, um nó de gelo. No rosto, a falta de expressão. 

Envolveste-me num abraço feito de nada. De ausência. De coisa nenhuma. 

O caminho até minha casa foi um atropelo de palavras inúteis — as obras do metro na Praça do Comércio, o tempo de viagem de comboio, o ponto exacto onde o Tejo encontra o Atlântico — como se a geografia pudesse preencher o vazio que se agarrou a nós. 

Instalaste-te na minha casa com uma densidade inquietante. Por dois meses, vinhas. E eu sem reconhecer o agora. 

Há um estranho na minha sala. 

Há um estranho sentado à minha mesa. 

Há um estranho adormecido, ao meu lado na cama. 


E é enquanto dormes que te escrevo, na esperança de te reencontrar nas palavras.  

Conhecemo-nos de olhos postos no mar, com a Grécia ao fundo, entre ruínas e o suor das pedras por nós erguidas. Conhecemo-nos no tempo dos dias longos, do vento morno beijando a pele, do lugar suspenso entre um verbo e o outro: a vida dizia ir e nós escrevemos ficar sobre uma frase em fuga. Que loucura pensar que resistiríamos ao fio de tempo entre nós tecido, à aridez do Inverno, à banalidade, à própria vida. 

Na noite silenciosa, observo-te. Tudo em mim se fecha como um sarcófago antigo, na poeira da solidão: a pele queima quando lhe tocas, os lábios resistem aos teus, a tua presença asfixia-me. Sei que também eu me ergo, estranha, ante ti. 

E no entanto, persistimos. Agarramo-nos às palavras como uma mentira bela:

seni çok seviyorum, 

seni çok seviyorum, 

seni çok seviyorum.


Mesmo sabendo que não é assim.

689

III

Sobre a despedida no hotel em Tirana passaram quarenta dias. O tempo mede-se agora em ausência, em exacerbada distância; em agridoce melancolia. 
Todos os dias me recordas quanto falta para nos reencontrarmos e a cada dia um novo espinho rasga-me a garganta. Perguntas-me se tenho saudades tuas e eu pergunto-me se ainda quero que venhas. 

Chegas-me em pedaços de papel escritos à mão, em fotografias desfocadas de lugares longínquos, em imagens de fogo que me mantêm acordada nas noites mais densas. Chegas-me em suspiros cravados na carne e no cansaço de esperar. 
Para lá de ti, a rotina instalou-se, pegajosa. Sobre ela, a tua memória desfaz-se, rarefeita, no tic-tac do relógio de pulso. 

Já não sei o teu cheiro. 
Já não sei se a tua voz era grave ou apenas rouca. 
Já não sei o peso exacto do teu corpo sobre o meu. 

Escreves-me e dizes que queres casar comigo, 
benimle evlen, sevgilim. 
Digo que sim, porque ao amor não se responde com prudência; porque ao amor não se diz que não. Porque talvez amar seja isto: levar a chama ao limiar do incêndio e esperar que não queime. 

Chegas daqui a dez dias. 
E de ti, agora, guardo apenas o nome. 






688

II

Hayatimin askı

O decorrer da noite no navio foi um corredor de ruído: passagens demasiado estreitas, ar denso, os olhos famintos dos homens, cravados na minha carne como pregos. Ou talvez fosse eu, que depois de tanto tempo de esperas me desabituei às esporas. A tua blusa trouxe-a colada ao peito, o teu cheiro fluindo na névoa do sonho. O teu cheiro, askim, essa morada quente que me aquieta o sangue e me devolve ao corpo. 

Atravessei o mar como quem atravessa os anos de juventude - houve algo de tremendamente belo em ver a terra morrer atrás de mim, a noite a fechar-se como uma pesada pálpebra, e, com a manhã, um novo país a erguer-se da água.  

Ancona abriu-se em camadas de tempo: sobreposição de muros sobre igrejas, de igrejas sobre ossos, de ossos sobre lágrimas e de lágrimas sobre a memória. Itália para mim é casa, mas casa sem ti é agora vazio. Queria-te aqui, askim, a ensinar-me os nomes do mundo, de mãos dadas sobre as milenares pedras ainda lembradas.

Agora escrevo-te sentada no interior de um restaurante turco, onde entrei para te sentir mais próximo de mim. Chove lá fora. A gordura escorre das paredes como uma língua, e eu aqui sentada como quem aguarda um presságio. Daqui a umas horas apanho o comboio para Milão, e de Milão regresso à minha terra de sal. 

Quero regressar a ti. 

Quero regressar ao lugar onde o meu nome é dito apenas pela tua boca.

Seni çok seviyorum, benim güzel askim.

P.S.: Milão é uma cidade de vidro morto, uma vitrine de gente vazia. Tudo tão falso, tão vão, tão cheio de nada. Sinto-me cansada até aos ossos e nos ossos cansados não há lugar para ti.


Chegada a Ancona, Itália, desde o Mar Adriático


687

I

Hayatimin Askı

Escrevo-te do convés deste navio-ferrugem, o horizonte desfazendo-se em chama. A Albânia liquefeita ante mim, como um poema antigo, dissipando-se na pouca tinta: uma linha de sombras, um punhado de luzes amarelas, e a chama ténue das velas que deixámos na igreja de Himarë, a arderem dentro da distância. Tudo se afasta e tudo entra em mim, como um suspiro.

Deixei a minha casa de silêncio há mais de um mês e o tempo é poeira colada à pele. É queijo de cabra e raki queimando o estômago, é o sal do mar Jónico pousado na língua. É o silêncio mineral das montanhas a romper-me o peito. Disseram-me que não era seguro viajar sozinha, que devia partir. Fiquei, porque fugir me pareceu absurdo; porque de fugir já fugia eu.

Antes de chegar a Himarë, dentro da garganta rochosa dos Balcãs, algo em mim se libertou. Não foi um instante: foi uma fenda lenta, uma porta rangendo por dentro do sangue. E eu, do outro lado do medo, a aceitar os outros. A aproximar-me. A devolver amor e compaixão como quem devolve um órgão ao corpo. 

Então surgiste tu, askim, por entre esta combustão interior, como se tivesses vivido sempre na margem secreta da minha vida.

O navio avança e eu flutuo nas vísceras sanguinolentas da memória. O mar azul-cobalto ondula como uma besta adormecida, a lua cheia derrama o seu leite espectral sobre a água. As estrelas brilham na densa carne negra do céu e a noite abre-se como um livro de ossos. Vejo-te, askim, levitando feito sombra inquieta, o teu rosto erguendo-se na escuridão. Os teus olhos - que reconheço de há cem anos - atravessando-me a alma, como se soubessem o meu nome antes de eu ser corpo.

Penso, por um instante, como tudo isto parece um sonho. Mas o teu cheiro permanece, acre, entranhado em mim. A tua mão ainda queima na minha pele. Os teus lábios ainda repousam húmidos sobre os meus. E sei, com uma certeza feroz, que foi real. Que, por alguma razão obscura e luminosa, nos cruzámos nos labirínticos caminhos da vida.

As lágrimas caem-me quentes pelo rosto. Não são tristeza: são sal. São baptismo. São excesso de vida. 

Seni çok seviyorum, meu amor.
Mesmo que o navio não chegue a atracar.

686

Três vezes o sangue

Dizem: três pessoas antes do amor maior
ou o nome que damos ao fogo quando ele já não queima.
Dizem: hão-de passar por mim as
histórias entrecruzadas de três vidas, 
marcar a pele, rasgar a alma
levar a fé ao lodo da memória

Recordo o tempo em que pensei amar tudo o que me atravessava o corpo, 
visceralmente, 
como quem desconhece ainda a essência das feridas:
cada gemido uma boca de verdade inteira
e na inverdade da minha essência a ausência esculpida a sisal

Recordo como o vazio era dor antiga, 
minha, da Mãe, da Irmã,
de todas as mulheres que se fizeram treva ante mim
e submissas se silenciaram

Mas o tempo entranha-se nos ossos, 
na distância onde o amor se revela, 
onde a luz se faz chaga e da chaga cicatriz a mercúrio caiada

E no sótão do esquecimento, os três incêndios:

O primeiro amor foi leve, como são as coisas primeiras,
para sempre, dizíamos, 
para sempre.
Havia pôr-do-sol na praia, verão entrando pelas entranhas, 
havia descoberta e inocência,
e as mãos ignorando o sangue que ia escorrendo dentro da pele

De palavra e sombra foi feito o segundo,
era um homem-lobo de olhos e alma negra.
Al Berto, Herberto, Satie desfiando o silêncio, 
Margaret Leng Tan batendo nas cordas da felicidade como numa ferida, 
Tarkovsky, Bergman — a convicção de que só a profundidade sangra, 
de que era necessário sentir tudo até ao fundo da treva

O terceiro foi palco de estilhaços,
pedras soltas onde o coração se fez chama, 
pela primeira vez, 
deserto,
dentro da geometria impossível da dor

Depois houve uma década de abismo em loop
corpo dormente, 
alma alheada,
entre a abstracção das coisas vivas e a saudade das pessoas mortas

E eu percorrendo-me como uma estranha
no meu próprio labirinto de carne

Agora descanso na certeza do que já não importa:
o coração quieto como cinza, 
esquecida do nome do fogo.
Não é dormência, é talvez
tranquilidade,
ou saber que nada é para sempre

Nem mesmo o lado-sombra,
O lado-silêncio
O lado-solidão 

Recupero as palavras como quem regressa de um naufrágio,
reconstruindo a retalhos a própria alma,
entre os escombros da ruína
e a sede de sal para lá do inverno