681

Demoro-me onde termina a estrada,
o final de dia penetra púrpura por entre as copas das árvores, 
as folhas estremecem, húmidas, no tocar sibilante do vento. 

Das nuvens em manto ergue-se a montanha manchada de branco, 
lugar longínquo onde o corpo não chega,
morada ancestral da primitiva penumbra.

O frio crepuscular instala-se sob a pele,
fendilha os frágeis ossos, retalha os músculos.
Na ferida aberta do peito surge sangue morno,
escorre por entre os seios num rasto rubi,
deposita-se no umbigo,
contorna as coxas como a lenta língua do amante
que a casa ainda não voltou.

Espero-te,
nesta ardente melancolia,
nas noites que se repetem entre o abismo profundo
e a ausência de ti. 

680

Como uma faca de dois gumes cravada
sobre o extremo do medo,
sobre o extremo da alma,
a idade largada sob a roupa usada,
a pele moribunda,
lambida,
tocada.

Como o mar sem profundo
azul vibrante,
espectro imóvel rente às escaras
da terra perdido,
mão húmida que magoa e não nega
a razão da saudade,
o tempo passado,
o passado esquecido.

E se um dia fui marinheira
das ondas de ócio,
das ondas cegas,
das ondas de riso,
onde sepultei a verdade quando
da garganta fiz casa do silêncio mais profundo,
do amor mais impreciso?