672



Homens: o uso do plural para minimizar a ausência do singular.

671

Estado da arte: crença de significado na teorização do nada;
masturbação pública sob a forma de hashtag em nome próprio.

670



Faz silêncio das palavras que te dou,

eu faço palavra das palavras que me não deste. 

669



Silêncio 
para não dizer 
facada

Perdão 
para não dizer
revolta

Medo
para não dizer
suicídio

Solidão
para não dizer
mentira

Nada
para não dizer
amor.



668



Quero dizer-te que há em mim 
um lugar com o teu nome 
a que chamei ternura. 

667

Esperas por mim?, perguntaste. O frio da noite trespassava a pele como um punhal, petrificava os ossos. O vento, soprando amíude, desanhaliva-me os cabelos perante o teu sorriso: minha leoa, dizias de todas as vezes. Minha, a possessão no início de cada frase: minha querida, minha menina, minha paixão. E eu tão longe de ser tua. 

- Espero pelo quê?
- Por mim. Por nós. 
- Porque tenho que esperar por nós, se estamos aqui os dois, agora?

Nessa noite, não sabia ainda a diferença entre estar e ser, que estarmos juntos era diferente, muito diferente, de sermos juntos. Mas, percebo agora, como poderia existir com alguém que estava tão longe da essência da sua existência? Tão contra a sua natureza, tão a lutar contra tudo? Falaste-me em tempo, como se o tempo, por si só, te transformasse em alguém maior. E porque a ti te faltava tanto, continuavas a tomar-me como tua. Mas eu também sou teu, dizias, sem entender o quanto tudo isso era, para mim, absurdo. 

- Não é a melhor altura.
- O que é para ti a melhor altura?
- É quando organizar as ideias. 

Recordo-me que sorri porque entendi o quão longe estávamos um do outro, há tanto tempo; a proximidade do corpo, dissimulando a distância da alma. Dizias que eram também as conversas que nos uniam, os debates, o desejo de mundo, a poesia. Só que isso não é o essencial,  há algo maior, com a dimensão da própria vida: não se trata de olhar o mesmo, mas sim do modo como se vê. 
Expliquei-te que não ia esperar por ti, que isso seria menosprezar tudo o que tínhamos construído, transformar as boas memórias na ânsia desenfreada de novos momentos juntos. Não precisávamos disso. Não precisámos. 
Anos passaram sobre a noite gélida na praia. Sei que o tempo não te trouxe ainda a clareza de ideias que desejavas. Querido, sacode o frio dos ossos e a dormência da alma: as pessoas, o mundo, a vida...nada espera por ti.


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Bruma: sonhei que éramos feitos de algo mais que nevoeiro. 

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A dormência índigo do final de dia escorre pesadamente pelas paredes manchas de fel. Faz-se espessa, pesada mucosa, prende-se ao corpo como uma doença antiga. Na rua onde nos cruzámos formou-se um Império, e da amendoeira nada mais sobra do que as raízes apodrecidas, presas sob a terra alcatroada. 
Recordo as linhas que escrevemos juntos e penso: não há mentira que o tempo não transforme em verdade, toque a que a pele não acrescente calor, beijo a que a memória não adicione intensidade. E, de repente, o pouco que fomos juntos transforma-se em tudo imenso. 
Tenho aprendido que todas as coisas podem ser outra coisa qualquer, que não há nos gestos concretos nada que nos negue à interpretação. É uma cegueira colectiva, a procura de significado onde ele não existe, condição a que sucumbimos sem questionar, nem mesmo os que se julgam protegidos por uma vivência alternativa ou superioridade interior. 
Deste lado da penumbra, colecciono despojos de guerra, empresto uivo e gemido, encenada ternura, lábios manchados de vinho, noites cheias, dias lentos, palavras bonitas porque as feias não dão alento,  língua bífida impossivelmente húmida, abraços com hora de acabar, o quente do lençol, a impaciência, a porta da rua.
Para lá disso, nada.