415

está tão longe de mim, 
esse mundo novo.

abro as asas contra o vento, o voo é baixo:
sou 
      gaivota 
                   amarrada 
                                     ao 
                                          teu 
                                                dorso 
                                                           de 
                                                                pantera.
peço-te o
 tempo, 
a calma 
dos dias,


que me leves para onde acaba o mar.

413

Dois homens amam-se por cima do teu corpo.
A tua pele é o lençol sobre o qual depositam a tessitura dos ossos
e eles carne, sexo e desejo suam e gemem rente a ti.
Sentes lábios na continuação da húmida língua,
os teus dedos involuntariamente penetrados no interior das suas bocas
e um imenso ânus exposto, preenchendo a abrangência do olhar.
O seu suor escorre pelo teu peito a descoberto,
enquanto o teu sexo, coberto de morna saliva, lhes prolonga o prazer.
Porquê o ar tão assustado? E essas lágrimas caindo pelo rosto?
Não és menos homem por servires de objecto de prazer a outros homens.
Recorda-te como é belo o desejo:
tão profundamente humano, humilde e cruel.
Larga a máscara e cede a carne aos outros,
a profundeza das entranhas, a textura do epitélio, o sabor acre ocupando a garganta.
A tua vida podia ser só isto, a loucura roçando a pele por fora
e a paixão transgredindo o corpo por dentro,
uso pelo uso, um crédito de eterno prazer.
Pensa nisso, talvez servir de leito erótico passivo
te distraia da conquista provisória de mulheres aleatórias.

412

tua presença só é visível nas fotografias dos barcos
as quilhas são a tua memória longínqua* 

e o mar inteiro o reflexo do teu olhar.
perguntei-te, um dia, se o sal na tua pele era o mesmo do oceano.
disseste-te um peixe, ou um marinheiro tão perto de naufragar.
o frio junto aos ossos recorda-me que tudo não passou de um devaneio
que os teus olhos não brilham,
que o teu sabor é o comum dos homens,
que não há algas nos teus cabelos, nem o eco das ondas no teu peito.
tão pouco existe a proximidade do luar sobre a praia,
a intimidade das rochas erguidas na areia,
o silêncio dos pescadores.
no lugar das mãos, um fosso
em vez de um beijo, a distância brutal de uma obrigação cumprida.
os meus dedos nada trouxeram do teu corpo,
não houve cheiro nem gemido,
abraço ou respirar.
retomo os sonhos, mas retiro deles o rosto:
a memória deixou de insistir no teu nome e os dias levaram-te para longe de mim.

*Al Berto, excerto de Carta da Flor do Sol

411


há, no meu corpo, uma solidão que não tem nome. 
uma ausência sem espaço, sem forma, apenas peso derrubando os ossos, transformando os músculos em água.
por vezes, a sinceridade com que me exponho fere-me: há histórias que são apenas histórias, imagens que surgem encenadas em ecrãs que me são alheios; outras, vêm directamente de um lugar que me assola, a materialização da alma feita palavras ou fotografias desfocadas num fundo a preto e branco.
escrevo e trato-te por "tu". a ti, a ti e a ti também. queria poder dizer um nome inteiro, com todas a letras, explicar o que me magoa, o que me deixa feliz, a saudade, o desejo, o querer tanto e não ter; todas as coisas que se esgotam e se perdem no profundo da garganta.
se há dias em que acordo e me sinto uma imensa mulher - onde o mundo surge com o tamanho certo para os meus passos -  outros há em que se quebra o chão e as certezas, e eu sou apenas uma menina. demasiado frágil, demasiado insegura, demasiado dependente do sonho de um amor que não chega.
ainda assim, insisto nesta partilha. talvez o que sou possa ser de mais alguém e todo este expor de carne e palavras não seja em vão. 


410

Temo que haja em mim um abismo, o fim do mundo, talvez, ou uma plateia de mortos-vivos aguardando o cessar do coração. Dentro da memória, cristais envenenam a sanidade da existência, linhas difusas traçam o caminho de regresso; desconheço a chegada, e uma e outra mão tocam-me e levam-me o corpo. Aqui desisto de ser gente, entrego-me inteira à súplica de um sentimento forjado.
Entendo que tudo no prazer é falsidade: o que de belo existe no desejo, extingue-se no consumar da carne. É tarde, o sabor do sexo exausto confunde-se com a saliva. Convenço-me de que sou capaz de pensar como um homem, com a mais profunda indiferença masculina. 
Chove, choro, limpo as lágrimas e rio; deveria dedicar o corpo aos amantes passageiros, ou insistir num amor sem nome até se extinguir das  veias o último respirar?

409

"sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mãos da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor de teu corpo"

Al Berto, excerto de Carta da Flor do Sol

408


e, no final, entrega-se o corpo a uma paixão fictícia, quando a única coisa verdadeira é o vazio que permanece no peito.
as coisas são sempre mais bonitas nos sonhos e nos textos.

407

continua a faltar casa nesta morada

lisboa . 2009

405

apontamento recorrente de um sono que não chega

a noite tem o peso errado de uma paixão que não sinto.
limpo do corpo o sal, afasto os cavalos nocturnos da memória.
junto ao teu peito o meu rosto cansado encontra o mar e eu sussurro 
je t'aime mon amour, je t'aime.
mesmo que o mundo inteiro desapareça depois 
e o ar fique mais gelado sem o calor dos teus braços.

404

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love not found

Thank you for your interest in falling in love.

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- keep getting your heart broken.

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You can also return to your cats or enroll on a radical activity.

403

onde falha o coração ergue-se um muro

rotterdam . 2012

402

O delírio aproxima-te do fim. Sabes tão bem evitar a queda da ácida chuva, que com a mesma destreza te separas do bater do coração. Evitas os sonhos, os medos, o amor e, por subtracção de sensações, a própria vida. Reconhecerás o reflexo difuso do teu sorriso, as mãos manchadas de terra, os olhos cegos pelo sol. Entregas o que resta do corpo ao mortal espírito da memória. Não sofras mais, nem esperes a secura dos rios; tão pouco de nós resiste ao amanhecer. Levanta as pálpebras e o ânimo, para lá da densidade do corpo, o mundo espera por ti.

401



chuva nas pedras e na pele, 
longe a jornada. 
neste lado do rio tudo é mais alto, 
porventura mais brando, 
certamente caiado do branco enegrecido pela falsa moral.


os espinhos colam-se à garganta

água-benta escorre do telhado do celeiro 
e ainda assim, 

tão perto da madrugada, 

atravessam a noite bestas mudas de ventre coberto por pedaços bolorentos de ananás. 

um qualquer louco corta o silêncio com o seu riso, 
tropeça nas escadas.

 é nesse preciso instante que as 245 badaladas do relógio de cuco, 
ecoam 
nos
sais de prata 
da 
.

398

Vou contar-te um segredo, trovoada abrupta situada, precisamente, no lugar mais denso do coração. Se lhe desse um nome seria desejo. Numa noite de muita chuva e cama vazia ousei chamar-lhe amor, mas digo-te, o frio nos ossos faz com que se acredite em coisas que não são verdade; que estão longe, muito longe, da verdade.
Soube-lhe o corpo de cor: as proporções exactas de cada músculo, o aveludado da pele, a intensidade do cheiro. O brilho dos olhos e as minhas mãos agarrando o seu cabelo. Desconhecia o  nome, o filme favorito, a forma como ri ou os medos.  Nada disso importa quando se permite ao corpo um abrigo passageiro. Ao amante de uma noite contam-se as mentiras mais belas. Finge-se uma cumplicidade inventada no prolongar do olhar, num passar mais terno dos dedos pelo rosto, na voz rouca e doce de um gemido. Cede-se os lábios em troca de um beijo, as pernas entreabertas por um tocar mais profundo, o pescoço por um rasto de morna saliva. O corpo nu reveste-se de uma sinceridade que me comove: exposto, sem artifícios de roupas ou maquilhagens, total perante o olhar nele depositado. Ouve-se no silêncio das palavras não ditas, aqui me dou a ti, para que nos possamos amar e sentir até que desapareça do céu a última estrela. Há no imaginar do desejo uma realização prévia desse mesmo desejo, como um consumar absoluto e autêntico do sentir interior; as pontas dos dedos tecendo sonhos de pele unida pelo salgado suor da paixão, projectando cada gesto demoradamente cravado na memória.
Passado um tempo demasiado incerto, tudo se esquece; perde-se o toque, o sabor dos beijos, o ofegar da respiração. Recorda-se o conforto bom do lençol morno, o sono a chegar com os primeiros sinais da manhã...e o mar inteiro no olhar.

397

a paisagem que me acolhe o corpo, numa manhã de nevoeiro:

parede . 2009