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Tento encontrar a brandura das ondas entre o negrume do alcatrão e a imensidão do céu. Este mundo cansa-me, esgota-me, prende-me de fora para dentro nesta teia mesquinha de virtual vivência. Pessoas estranhas entram por uma porta falsamente entreaberta; mostram-se pedaços que deviam ser privados, gritam-se silêncios, torna-se comum a existência.
Penso que nasci errada no tempo, mas ainda assim dou por mim a seguir este caminho colectivo para a degradação humana. As máscaras acumulam-se sobre o rosto, como pele sobre pele que não descama. A cabeça pesa, dói o pescoço e as máscaras continuam. Tento balançar o que não sou com o que sou, mas perco-me pelo caminho. E que se desenganem os que julgam que há sinceridade neste abismo de emprestada proximidade: tornámo-nos pornográficos, obtemos prazer através da observação do falso prazer dos outros. A ostentação da felicidade – de uma qualquer espécie de felicidade mastigada e cuspida -  tornou-se mais importante do que a felicidade em si, necessitando sempre de ser validada. A auto-estima é tão baixa que em tudo é necessário a aprovação de praticamente estranhos. No dia que se teve, na roupa que se vestiu, na sobremesa que se comeu. E já nem é permitida a tristeza. Sofrer cansa quem está junto de quem sofre. Sofrer só é aceitável se for um sentimento colectivo.
Lembro-me de escrever cartas, fazer desenhos para explicar situações, juntar folhas das árvores, um tecido bonito, marcar um beijo a batom. Esperar pela resposta. Achar que receber uma carta de volta em 15 dias era imensamente rápido. Os meus filhos não vão saber esperar 15 dias, nem vão saber o que é escrever uma carta a um amigo que existe numa morada real e não numa fotografia estupidamente editada, num qualquer ecrã. Não vão saber que não é preciso vender a alma para se ser feliz.
Tudo isto me mete nojo e entristece-me e faz-me querer voltar atrás no tempo e já ser muito velha e não pertencer ao agora. Porque o mundo não pode ser só isto, esta teia de falsidade, consumismo, dormência permanente do sentir. E o que me magoa mais, o que me fere e preocupa, é que como em qualquer teia densamente tecida, uma vez lá dentro torna-se demasiado difícil sair. 

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abrir a porta da casa,
tropeçar nas nuvens,
cair ao mar.

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sai, amor,
e deixa-me só.

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Dois passos.
O quarto vazio. Paredes demasiado brancas.
A janela ao fundo, o reflexo das árvores, um rectângulo de sombra.
Olhar em volta. Nada.
Brisa.
Um passo. O centro do quarto.
Aqui costumava estar a cama.
Deitar no chão, barriga para cima, braços abertos.
Nasci e morri nesta cama, às vezes no mesmo dia, outras com anos de diferença.
Olhar o tecto. Ler o que lá foi sendo escrito:

hoje o mundo acordou vestido de mansidão e eu de escárnio
     para quê ficar se tudo em mim acaba?
                        outono, lava-almas sazonal
a insónia levou-me à loucura, essa puta vadia
     o abismo não encerra o eco, todos os gritos terminam no céu

Achar que nada mudou.
Que é demasiado tarde num tempo demasiado lento.
Querer desistir. Deitar de lado na cama invisível.
Ver as árvores projectadas na parede.
Dói-me o corpo.

Fechar os olhos.
Sentir o vento que abana as árvores tocar a pele.
Fechar os olhos.
É agora.
Voltar a morrer.