525

Corpo,
esse lugar sanguinolento onde a alma nos prende por engano.

Morada pútrida de seiva,

sémen,

suor,

doença,

morte.

Enterro antecipadamente esta carcaça que possuo.
Liberto-me dos ossos, da falsa alvura da pele, da flacidez dos músculos.

Despeço-me e parto em paz: não há mais matéria em mim.


523

O segredo é sair à rua quando chove: assim ninguém sabe se o que escorre pelo rosto são lágrimas ou chuva, e até eu chego a acreditar que sou feliz. 

522

Se o meu corpo fosse onda rebentava sempre na direcção do céu.

521

Nos dias em que não danço esqueço-me de existir.

518

Sinto que o meu corpo apodrece como a madeira gasta de um navio.
Não reconheço o horizonte nem o caminho de regresso: há nevoeiro, gaivotas cegas, o negro azul do mar.

517

O ano passado, por esta altura, adiei a vontade de te beijar.
Era só sonho, doloroso e belo, histórias de sol e sal. Tempestades.
Depois, muito depois, houve beijo, corpo, lâminas, lágrimas, queda, luz, desprezo, fim.

Obrigada pela viagem. Correu tudo bem.

516

revolta contra a fé

515

O reflexo no espelho ensinou-me a mentir, tanto quanto as noites passadas em claro.

514

Debrucemo-nos sobre a saudade, primeiro estágio do processo de degradação pré-morte.

513

Tenho no coração o silêncio, tocado nas cordas de uma guitarra portuguesa. Cada suspiro é melodia, cada bater é saudade, cada instante é doce e só melancolia. 
Tenho na alma o Tejo, a mortal claridade de Lisboa, o ecoar do fado esquecido nas ruas, nos becos, nas gastas pedras da calçada. A cidade menina, a cidade mulher, a cidade que me acolhe e me repele. Que já me viu chorar com lágrimas de fim de mundo, rir, amar à luz do dia ou em nocturnos cantos escuros; que me conhece o vómito, o sangue, as entranhas, os medos, os sonhos, os segredos.
Sei que em mim cabe um mundo de paisagens imensas, mas o que sou, o que me guia e define,  é a língua da poesia e é Lisboa. 

512

coisas que passam por mim sem que me aperceba:

a noite

511

aparição. deformação. estagnação. 





510

o homem fraco

O homem fraco dá-me náuseas, mete-me nojo. Ao homem fraco tenho vontade de cortar as mãos, o pénis, arrancar um dos olhos e expor o outro ao triste retrato da sua condição. O homem fraco não pensa, é uma marioneta ridiculamente manipulada por alguém que há muito devia deixar de fazer parte da sua vida. E se essa pessoa sorri e puxa um dos fios, o homem fraco vai atrás; se deita a língua de fora, o homem fraco saltita de emoção. Se expõe as carnes, o homem fraco vem-se em prolongado regozijo.
O homem fraco é ridículo, absurdo, repugnante.
Morte ao home fraco.
Fim.

508

Penso em paisagem, esse esgar tantas vezes brutal de sobreposição de sensações. Olho o mar, exponho a alma às ondas e espero: se ao menos os peixes me escutassem o pensamento e me ensinassem porque não devo morrer.
Atrás de mim, um poço de água fétida dá de beber a quem passa. Há muito que deixei de observar as pessoas, de lhes querer saber o nome, os sonhos, a morada. No lugar dos olhos transportam vazio, no lugar da boca uma doença sem cura. 
Talvez a esperança tenha caído com o último sol e o negro da alba seja mais denso no interior do meu corpo usado. Talvez seja demasiado lento o tempo, demasiado tarde, mortalmente arrastado sobre a decomposição dos dias.
Levanto-me para me deitar: duvido que haja hoje, sequer agora, muito menos amanhã.

506

"sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sopro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria."

Herberto Helder, in A Faca Não Corta O Fogo - súmula & inédita . Assírio & Alvim . 2008

504


prólogo de coisa nenhuma

O que há de tão errado em morrer,

dizias abruptamente sobre a noite apagada,

se ao próprio corpo devemos o descanso de nos alojar a alma?

Recordo que a questão me pareceu menos pertinente do que a forma como o fumo do teu cigarro ondulava na sala vazia. Não subia, simplesmente, dissipando-se de seguida. Havia uma espécie de dança, entre os teus dedos e o ponto exacto onde o fumo desaparecia. A cinza acumulava-se no chão de madeira gasta mas tu, indiferente a algo mais para além do teu pensamento, continuavas.

Bem sei que devemos chorar e temer a morte, oh a negra e terrível morte, mas nada me traz mais serenidade do que a certeza do fim. O sofrimento, a devastação do pensamento e da memória, isso sim, causa-me uma imensa agonia. Agonia porque me dá nojo. Nojo! Digo nojo e repito porque é verdade! Não é em vão que me faço acompanhar do eterno poder de decisão. É a decisão, Flor, que cria o Homem.

Não precisava de afastar o olhar do meu verdadeiro objecto de interesse para saber que, dentro do casaco de veludo gasto, o teu braço se erguia em direcção ao tecto. Nas pontas dos dedos, um frasco de prata oxidada era exposto, uma vez mais, à tua representação sobre o declínio e a morte.

- Sim,  de nada vale temer o óbvio. A consciência da fragilidade humana é a força da própria humanidade.

- Humanidade, Flor? Que humanidade? A dos livros de História ou de Utopia? Estou a falar-te do Indivíduo, não do conjunto de mente-captos que forma essa farsa que é a sociedade!

O teu salto repentino da cadeira fez com que a ponta do cigarro caísse no chão e se apagasse. À minha frente, o movimento sem critério, braços e mãos esvoaçantes, a voz saindo grave da garganta e a pele mudando de cor, fez-me perceber que dissera algo que não devia. Indiferente à tua revolta, observei-te. No teu rosto, caminhos sem destino tinham-se sulcado na pele. Marcas profundas assinalavam o contorno dos olhos, a largura da testa, o lugar exacto até onde costumavas sorrir. Não havia qualquer brilho no teu olhar, nem mesmo provocado pelo entusiasmo do discurso repetido. Insisti na procura do homem por quem me apaixonei anos antes, mas em vão. Estavas velho, esgotado, entregue a questões sem resposta e devaneios. O bigode amarelado pelos cigarros constantes, a roupa gasta, os sapatos de solas descoladas, os gestos exagerados, a ira contida; tudo em ti me pareceu demasiado triste, avassalador. Ao longe, muito para lá do meu pensamento, continuavas:

- No man is an Island porque não chega! Somos ilhas muralhadas, protegidas por canhões e cercados de nós mesmos. Eu sou a minha ilha e o meu mar. E não me venham falar de destino, que o Destino é a aceitação do medo por parte dos fracos.

Na altura achei ser carinho mas, entendo agora, o que senti naquele momento foi pena. Compadeci-me de ti com a mesma intensidade com que, um dia, te amei. Sei que dirias que o sentimento mais degradante é a pena, mais redutor da condição humana. Gostava que entendesses que muito pouco na vida é linear. Que há algo de fascinante na abstracção, na aceitação da dúvida e da incerteza. Claro que para ti não havia questões por responder, tudo era claro, tão claro ao ponto de te retirar o gosto por viver.
Entende que não havia, em nós, mais nada para além de um fosso. Lembro-me que um dia me disseste,

És Flor e eu sou árvore velha. Tenho raízes no lugar de pétalas e enquanto tu vais ficando mais bela eu vou caminhando para lá do chão.