242

vou contar-te uma história: a do teu mundo, coberto de saliva negra, escorrendo, devoluto, sobre os contornos desta enfraquecida primavera tardia.

o corpo masculino ergue-se para o céu; e nas pernas escorre o sangue pútrido da mulher que um dia ousaste ser.

habitas telhados, como numa caverna; o corpo mirrado sobre a fulgurante bravura do sol, a garganta seca ardendo sob a pele outrora elástica.

acenas à sombra cativa do teu anterior sorriso e, do alto de mil telhas, recordas o teu esplendor.

241

se a pergunta fosse amor, a resposta seria saudade.

241



assim me soube sombra;
ou chuva;
ou carcaça deixada ao vento, neste dia esquecidamente outonal.

239

lisboa . 2010

em lisboa dançam vestidos sem forma, à janela de casas que descaem sobre as ruas.
são vestidos negros, manchados de flores desbotadas, com cheiro a um mofo que o sabão azul e branco teima em não deixar passar.

237


Pauline Julier, Noé, 2011

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há muito que não durmo,
a pele estende-se baça sobre o corpo, translúcida na sobreposição das veias. 
cravo os dedos por entre as costelas, sentido o seu contorno uma a uma: sou ossos, braços e pernas escanzeladas, cintura desaparecida em quaisquer duas mãos que me agarrem. 
perdi a noção do tempo; há quem diga que tenho que projectar uma casa, o próprio mundo, mas perdi a força.
dói-me o corpo quando caminho, quebram-se os pulsos no passar desta folha. 
e o frio que não passa, mirra o pouco que resta de mim.

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à sombra cativa da noite, confesso que tudo isto é uma desculpa para chorar,

ou para morrer.