172

sobre os reflexos e a maresia


sei desigualmente o sentido de todas as coisas, de nenhuma, talvez, entre o seio dependurado de uma varina de almas, até à garganta enferrujada do cacilheiro que nunca abandonou o cais.
sinto, demasiadas vezes, uma predisposição vertical para a inclinação pictórica do palato e, entre o silêncio de um sorriso e a transparência de um olho de cristal, desfaço-me em ponto-de-cruz sobre a abobadada existência espectral: no perfume das horas passadas, há-de prevalecer a trémula cadência da solidão e só assim, olhando de frente a esquina da sé, saberei a razão altiva para desconhecer, na sua essência, o sentido lato da própria existência.

170

incham-me as pálpebras quando me deparo com sons rectos: às vezes tenho uma inclinação aguda para a obtusidade.

168

e depois, subitamente, desaparece-me o negro dos olhos e o peito abre-se num respirar profundo.
basta-me uma palavra tua, o breve lembrar do teu sorriso, a certeza do calor do teu corpo.
sobre a mesa de cabeceira, repousam a máquina fotográfica e um livro de al berto; é assim, à luz amarelada do candeeiro de tecto, que nos sei unidos, entre os contornos de um retrato a preto e branco e um silêncio de poesia. até que as minhas mãos se confundam no começar dos teus dedos, e a minha pele tome o cheiro da tua.
o meu coração é sorriso com a forma do teu rosto, meu amor, e a minha vida o eterno prolongar da tua.

167

ao sangue empastado sob o castanho dos meus olhos


não acredito no amor, nem na natureza fulgurante das coisas impossíveis.
o meu peito lateja a dor de um sorriso, enquanto num rasto de proximidade de morte me lanço no escrutínio-sombra de uma história que não é minha.
depois, há esta necessidade de diametralmente oposto que me suga o corpo para o abismo: desfaço-me dos sonhos e dos ossos, nele não cabe mais do que o sal dos meus olhos.
e é assim, há luz de um dia quente de quase agosto, que me perco para sempre num manto de linho cru.
nada do que respiro tenho como meu, nem mesmo o alinhavado da memória sob a desfeita cavidade ocular.

164

you are welcome to Bairro Alto


não sei forma mais concreta de enaltecer o sentido das coisas, se não confinar a minha existência a um quadrado 4×4 de antagonismo e apoplexia. 

163

cinza vertical

cheira a cinza.
meu corpo é de cinza.
e à orla do olhar aloja-se o homem-vertical.
é cego e surdo, 
e a boca cede enfaixada a mais um diagrama convexo de insânia imoral.
chove cinza sobre a cinza do meu corpo. 
e os ossos desfazem-se em mercúrio.
o homem-vertical rasteja a maresia obscurecida do sorriso 
e à inquietude do diafragma antecipa-se o derradeiro final.

162

das sombras do meu corpo...

...resta a dormência de um dia outonal

156

pão com chouriço



ao homem o que é do homem
ao porco o que é do porco


neste início de varão 
                                    sobe o verão pelo leitão 


e o porco-alucinação transcende a erecção  
de 
         ver 
              homem 
chafurdando numa poça de suor.


do homem faz-se presunto serrano


e do porco um ilustre representante da arte de bem-julgar 


ao porco o que é do homem
ao homem o que é do porco

roinc roinc

155

balt azar coberto de bo lor


ascendeu das sombras como um sorriso. Baltazar exalava o odor das coisas sépia sobre um fundo negro e escorria,
num fumo espesso de três horas e trinta e nove minutos escorria
um fá sustenido numa colcheia coberta de suor, 
perdida num árido deserto outonal.
esbraceja Baltazar
e o corpo cede seco, desfaz-se em pó o corpo seco e estala debaixo dos pés descalços.
na objectiva da máquina forma-se um vulto a contra-luz.
dispara a passagem subliminar do vulto que se perpetua desfocado num quadrado a preto e branco.
esta cidade é de sombras e Baltazar é pó.
uma sede muito sólida habita-me o fundo da garganta
uma garra sacode-me os cabelos e o reflexo de um qualquer corpo surge no lugar do meu.
no fundo da rua Baltazar toma a forma das pedras da calçada
ou as pedras da calçada tomam a forma de Baltazar.
nas reentrâncias do caminho amanhece esta noite tardia e o vão da melancolia enche-se de bolor.

154



continua a escorrer a sombra desta doença venérea. 
nos ponteiros invisíveis sucumbe a passagem das horas sobre o tempo.







e o corpo é vulto que lateja.

153

Ode à Enxaqueca II


minha cabeça aloja o estranho habitar de um batalhão de qualquer coisa:
qualquer coisa pesada, muito densa. qualquer coisa-tonelada.
nela, a coisa-qualquer-coisa esgravata as reentrâncias do hipotálamo,
servindo de alimento a uma porção desproporcionada de encéfalo retraído pelo pudor.
há um aproximar de abismo pelo lado mais longínquo da noite,
e a cabeça estremece em cada respirar profundo.
recosto-me para trás sobre o negro dos lençóis e na esperança rectilínea do retorno,
aguardo o fim da dor.

151

o meu espelho, a solidão

Ingmar Bergman Smultronstället, 1957