613

Regresso como se nunca tivesse partido: a estação mudada, 
o aproximar do sempre brutal Agosto, 
a morte do Poeta, 
a saudade e a demência, fulminando a pele, como ferida em sangue. 

Escrevi dez páginas de um contínuo-poema, ou contínua-loucura, a que chamei auto-biografia. Perdi-as a todas, mas agradou-me a ironia. Agora repouso num espaço inventado onde as palavras não magoam, mesmo as que me recordam que a casa que habito é uma mortal morada de silêncios, erguidos, ainda antes da invenção do tempo, no lugar do coração. 

611

Amar-te-ei para sempre:
digo-o em silêncio,
as palavras forçosamente mudas,
a mágoa vítrea instalada no fundo do olhar.
Amar-te-ei mesmo que nos esqueças,
que arranques do peito o que fomos,
a verdade e a mentira,
todas as coisas inventadas,
da flor da pele ao fundo dos ossos.
Amar-te-ei para poder beber
do mortal veneno
que é amar-te.

609

Adormeço sobre o corpo vergado,
a cabeça tombando em direcção ao peito,
os lábios entreabertos, pontilhados pela morna saliva,
as pálpebras cerradas, onde gotas de salgada névoa cristalizam.
A respiração atravessa a garganta como um espinho,
rosa outrora púrpura,
agora apenas venenosa,
letal ácido de lágrimas e fel.
O alabastro envelhecido da pele cede ao tempo,
emanando o seu odor a fuligem, eterna espera,
sangue nas veias estagnado.
No colo, o caderno sem folhas,
memórias brutalmente arrancadas.
Sobre as páginas caídas no chão, vultos negros esvoaçam,
os medos e o passado, tornados visíveis, rodopiando no centro da sala:
o Pai feito nevoeiro, dissipando-se,
a Irmã, consecutivamente morrendo,
o amor pairando absorto, impossivelmente longe,
e a solidão erguendo-se como um manto,
absorvendo os mortos,
os medos,
as questões,
as páginas do caderno,
a casa,
os dias,
as gélidas noites,
o tempo,
os sonhos,
o corpo adormecido.

Quando acordar talvez não seja tarde
e consiga ainda recolher do chão as folhas escritas,
ordenar as memórias,
recordar o Pai,
perdoar a Irmã,
despir o manto,
ceder ao amor
e entender que o que sou não está nas palavras,
mas no silêncio entre elas.



608


Desenho de Daniel Moreira. Texto escrito para o livro de artista "Sobre um Traço Negro",  2014.

607

E  olho para o lado e vejo-te: de corpo nu, pele perfeita, imenso e belo; desconhecendo ainda o quão perto estavas de matar a réstia de esperança que havia em mim.

606

Sonhei contigo, feito onda e sal, rebentando, lentamente, sobre a praia do meu corpo.