Na minha rua há um louco que se chama solidão. Traz uma corda em torno do pescoço, no coração uma seta cravada até ao outro lado do peito. Não tem mãos nem braços; duas rosas sem pétalas ocupam o seu lugar. Sorri com a boca vazia, enquanto uma lágrima seca se acomoda no mais profundo da pele. Dizem que um dia amou, mas que o amor o trocou por uma qualquer forma de liberdade. Vive de noite e morre de dia; às vezes parte num navio feito carcaça, ao largo de uma encosta esquecida. Um dia chamou-me para junto dele, deitou a cabeça no meu colo, pediu que lhe passasse as mãos pelos cabelos. Tinha o peso do mundo nos ossos e na alma a leveza de quem deixou de acreditar.
301
devaneios de tinto da casa
O sangue cega, o sangue seca, o sangue suga. Sanguessuga dá sangue que não sangra; só esquece.
A raiz do pensamento são três freiras e um gato. O gato reza todo o dia a um deus por ele inventado. As freiras deitam-se ao sol e miam, espreguiçam-se enquanto recebem festas na barriga.
Acredito que temos astros no lugar do coração; universo e planetas orbitando nas veias.
Tudo o resto são coisas que nos esquecemos de contestar.
Liberta o corpo da roupa,
inventa um hino à brisa sobre a pele.
Se és mulher, troca as calças por saia, esquece as meias, sente o vento fresco por entre as pernas.
Se és homem, lança-te ao mar, deixa que os peixes te toquem a alma, os dedos, o sexo.
Tatuemos no corpo a passagem dos dias.
Escreve os sonhos e as memórias, o nome do teu primeiro amor, desenha a tua rua.
Não esperes o perfeito, acredita no autêntico.
Vive o dia de amanhã como se fosse o último:
abraça um estranho
perde-te na tua cidade
lança um papagaio de papel ao ar
o corpo ao mar
dança
corre
canta
às 16h50 convida a primeira pessoa que te vier à cabeça para um café
conta as estrelas
questiona o silêncio
as cores
aquela história que contam de a terra ser redonda
beija
ama
perdoa
Sulca no rosto tudo aquilo em que acreditas.
As estrelas quando caem não voltam aos céus.
300
Digo-to, na certeza mais completa deste dia: a alma nunca se esgota quando olhamos o oceano. Tudo é imenso, profundo, azul. O horizonte não tem fim, perde-se na distância circular do olhar. Respiramos até ao interior do corpo, o sangue feito sal a escorrer pelas veias. Somos marinheiros, gaivotas, peixes. Sonhadores sem vergonha de sonhar. A pele é vento sobre o corpo; escutamos o uivo mais profundo da terra.
Somos iguais perante o mar: não importa se vivemos para morrer ou para sentir a vida; o mar tece as ondas e recebe-nos de igual maneira.
Da próxima vez, esquece o frio e entrega o corpo às vagas: é-se tão mais feliz com a memória esculpida pela água.
299
A caminho de casa, ao subir as escadas da estação de comboios, um bêbado aproximou-se de mim:
- Menina, espere, vou consigo.
Perguntei-lhe porquê, enquanto lhe segurava o braço para que, nos gestos cambaleantes, não perdesse o vinho no chão da estação.
- Porque tem uns olhos tristes. As escadas são perigosas e pode cair.
Acompanhou-me na subida, despediu-se com um é melhor quando se é feliz.
Achei bonito, agradeci-lhe com o sorriso. Tinha toda a razão do mundo, mesmo com os lábios pintados de perdição.
298
Há uma qualquer forma de ternura entre as pessoas que partilham os últimos comboios da noite - durante a semana, depois das aulas ou do trabalho. Há uma humildade maior nos gestos, uma aproximação genuína de quem sente longe o tempo de voltar para casa. Os homens de gravata sobre o colo e camisa amarrotada; as mulheres com a maquilhagem no fundo do rosto e os sapatos de salto alto pendendo da ponta dos pés. Dorme-se sem vergonha, ressonando o cansaço do dia, enquanto uma fina camada de baba quente escorre pelo canto da boca.
Talvez a noite torne as pessoas mais inteiras, mais próximas de si. O sol já não brilha rente à pele, já não é necessário sorrir e parecer feliz. Instalam-se coisas novas no olhar: medo, tristeza, insegurança, solidão. Os sonhos já não pesam e parecem fazer sentido. Dizem-se palavras absurdas como gosto de ti a um estranho e, só porque é de noite, ele responde dizendo eu também. As pessoas são mais bonitas, os objectos mais próximos, os cheiros mais suaves. Lisboa volta a ser menina e até as putas do Cais do Sodré reinventam um corpo mais fácil ao toque.
Depois, no despertar sereno da manhã, os lavadores de ruas enxaguam a alma nocturna dos que dormem; na certeza de um dia novo, guarda-se a entrega para o próximo anoitecer.
297
after peace, swim twice*
Disseste que chegavas, mas o tempo já se faz tarde. Esperar é chato, aborrece-me, pesa-me nos dedos dos pés.
- Só mais cinco minutos, estou a chegar.
Os cinco minutos passados ao longo de duas horas. Eu a ver a chuva a cair. É me indiferente o cabelo imaculadamente penteado, as roupas demoradamente escolhidas numa perfeita combinação monocromática. Preferia que estivesses aqui. Mesmo que, num acto arrojado, saísses de casa sem perfumar as palmas das mãos. Sem tomar banho sequer. Era bom conhecer-te um cheiro mais visceral, um qualquer desvio que te tornasse mais próximo de mim.
- Cinco minutos, o comboio atrasou.
Digo sempre que me vou embora, que não espero mais. Fico quase todas as vezes. Acabo sempre sem perceber se valeu a pena. Devias erguer-me um monumento. Na tua rua não, que nem a conheço, mas num canto do moleskine, nas folhas do fim. Sim, eu sei, por isso é que disse no canto, para não interferir no perfeito amor que nutres pelas coisas poéticas. Não sou poética, desculpa, e muito menos tenho paciência para discussões eruditas em torno de uma qualquer obsessão. Remeto-me sempre às coisas simples, sabes. Passeios demorados, chá de menta, silêncio, o corpo. Lembras-te do meu? Tenho uma vaga memória do teu, mas nem me recordo da última vez que o senti. Ou que senti uma vontade imensa de te ter, em qualquer lado, intensa e despropositadamente. E eu preciso disso, caramba, é chato ter que fazer sempre tudo sozinha.
- Estou a chegar, se te fores embora nunca mais me vês.
Por mim tudo bem, sabes? Adorava dedicar-me a coisas mais práticas, estou a ficar um bocado farta desta história do amor para sempre.
292
É de noite. O relógio marca o adiantado da hora mas, ainda assim, é de noite. O silêncio interrompido pela chuva, pelo ladrar dos cães, pelos trovões. Lisboa cai morta aos meus pés; na distância que nos separa sinto-lhe o respirar quebrado pela vaidade. Recordo que lá deixei o corpo - há quatro anos ou uma hora, já não sei. A claridade estende-se sobre a água do rio como branca espuma. No seu interior, um poço sem fim ecoa o ribombar da alma, o grito gutural do coração. Uma rosa apodrece no meu peito, crava-se no fundo da memória, como um sonho que não pedi para sonhar.
Paro o desejo silenciado, o tremer das mãos, as imagens esculpidas nos ossos; recosto-me no cadáver que trago junto à pele, peço à saudade para trancar a porta ao sair: talvez, assim, no lado mais interior do corpo, consiga erguer um monumento à minha solidão.
290
Saudades de amor de recreio: dedos entrelaçados, beijos tímidos ao de leve nos lábios, flores oferecidas presas ao cabelo. Quando gosto de ti significava o mundo, e o mundo era um bilhete deixado às escondidas dentro das pasta: és bonita quando sorris. queres namorar comigo? Tardes feitas de conversas estendidas sobre o debotado verde do banco de jardim, história e ternuras, uma brisa doce e um refresco de limão.
Era tão mais simples esse amor, que não se perdia na urgência de ter que durar uma vida, e se sentia na plenitude da inocência de quem não tem razões para deixar de acreditar.
Air, Playground Love
289
Dilui-se, lá fora, o mundo em chuva; cá dentro, o tempo escorre lento pelos dedos cansados das minhas mãos. Sei que estou viva porque sinto medo. Isso, uma qualquer indiferença de existir. O homem que habita o meu peito jorra sangue dos olhos, manchando-me de vermelho os pequenos malmequeres da camisa de dormir. Diz-me, a noite é eterna no teu corpo e esqueceste-te de como sorrir. Na brancura demente dos lençóis enterro a alma, o estrépito da razão tem a lenta cadência do teu respirar. Tenho-te a meu lado sobre esta cama-abismo, mas penso num louco; desenho um rosto sem forma, que ainda não comecei a procurar. Se soubesses o sabor da minha carne, percebias que me estendo num caixão aberto, à espera de cair. Levanta as perguntas e o fraco sentido das palavras, o céu é sempre mais escuro no fraco pulsar do meu coração.
288
É Outono, querida Irmã. Outono bonito, de Novembro. O chão é de folhas esculpidas pelo tempo, a brisa surge fresca junto ao rosto, por debaixo dos cabelos. Chove, há poças transbordantes de reflexos. Há um vento forte, que me esvoaça os vestidos. As noites são longas e frias, demoradamente pontilhadas de estrelas. Esta, em que te escrevo, é denso nevoeiro. A nostalgia escorre, cristalina, pelo olho direito, sal no vermelho dos lábios. Sou feliz assim, na certeza desta tristeza de chá quente e meias de lã. Zbigniew Preisner enche as paredes do meu quarto. Gostava que o ouvisses, de conversar contigo sobre a variação cromática entre o rio da tua casa e o mar da minha. Paro. Apercebo-me que já não sei a tua voz. A tua voz, Irmã minha, esqueci-a. Recordo, com precisão, a inclinação dos teus dedos, o desenho do teu corpo, o sorriso. O riso perdi-o também. E o sono. O meu sono. A insónia a ferver na pele, no peito escancarado, no contorno dos ossos. No mundo que trago lá dentro. É por ter sido enquanto dormia que morreste, sabes. Por, enquanto sonhava com uma qualquer fantasia de menina, tu arrancares do teu corpo o último suspirar. Respiro fundo e abro muito os olhos. Talvez a distância das minhas pestanas à cavidade ocular te aproxime de mim. Ou o cair da chuva complete o lugar da tua voz. Talvez tu toda sejas chuva. Desde as nuvens que estudaste, até ao rio onde largámos o Pai. Outono e Primavera na memória de ti.
Sorrio.
Ouço-te a cantar lá fora.
És tão bonita, Irmã.
285
meu amor, é outono.
junta as folhas tingidas de amarelo,
a terra húmida,
o ar denso esculpido na garganta;
teceremos sob as estrelas o lugar do coração,
feito sombra,
mármore,
sangue,
erva.
os dias planando na orla do esquecimento,
o azul do céu dissolvido em malva,
dissolvido em chuva.
guarda-me o corpo num abraço, beija-me as pálpebras:
lisboa é tão sozinha quando não me tens pela mão.
meu amor, escuta o fado.
os peixes chorando no fundo do rio,
o passar lento do tempo sobre as coisas,
a alma caindo das árvores,
folhas e alma amontoadas na escuridão da vida.
ergue-me uma casa onde possamos morar,
uma casa onde ganhemos as raízes de uma árvore,
o corpo feito tronco demoradamente envelhecido.
uma casa, meu amor, onde seja sempre outono,
onde um dia morreremos de nostalgia.
viveremos de nostalgia.
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