502


Os meus lábios anoitecem selados,
é tarde, demasiado tarde, para os abrir.
Do lado de fora do medo há labaredas,
monstros de cabeças várias,
um precipício maior chamado saudade.
Às vezes penso que não sou daqui,
que há mil anos nasci e me esqueci de morrer.
Há no meu corpo um cansaço de eternidade,
uma espera de cal e entranhas,
infinita e densa.
Do olho direito, sangue quente atravessa a pele,
escorre pelo rosto em direcção à boca fechada.
Como seria possível negar a fétida carcaça do homem que persiste,
do homem podre, morto, o homem que me habita a alma.
Entrego o pensamento ao delírio, como se me tocasse.
Insisto na loucura.
Adormeço.

501

Falta mar ao corpo.
Há alturas em que o cimo da terra magoa a pele. O sal é sempre mais brando e as ondas brutais. 

500

q u i n h e n t o s

Quebro o silêncio desta morada para dizer olá:

Olá!

Sinto algo de solene neste momento. 500 posts é demasiada coisa escrita e eu continuo sem saber ao certo o que se passa por aqui. Em breve faz quatro anos que este espaço foi criado e dois desde que decidi torná-lo público. Muito pouco mudou, desde então.
Este continua a ser um lugar de silêncio ou de grito. De negro profundo ou de incandescente claridade. Há palavras inventadas, histórias imaginadas, e outras que vêm directamente do coração. Também há as que não são coisa nenhuma, apenas exercícios de estética ou auto-abstracção. Apesar da porta aberta, há algo por aqui que permanece fechado. É quase inconsciente, na verdade, mas talvez seja a maneira que encontrei de me sentir confortável na partilha que faço. Ao longo do tempo, este lugar tem deixado de ser apenas meu, para se tornar também daqueles que o acolhem e visitam. Há quem quebre o afastamento e se dê a conhecer, tornando esta partilha ainda mais especial. É um sentimento demasiado grande, o de poder tocar os outros com o que me toca. Mesmo através de algo tão comum, banalizado até, como um blogue. 
Por tudo isto, considerem-se timidamente abraçados, num gesto de agradecimento e carinho.

Retorno agora ao meu lugar mais recolhido. 

 Até sempre, 

 marlene.

499



Sonhei com Beno,  como se fosse meu aquele amor impossível de dor e saudade.


497

Ensaio sobre o princípio do mundo:




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496

já é tempo de deitar o corpo ao mar


parede . 2011

495

A Sweet Little Tale About Boobs

CHAPTER I
 Boobs are the New Faces


There’s so much about faces
that’s not easy to yap,
funny noses, silly eyes,
mouths full of crap.

In the world wide web,
emotions are not to be concise,
faces might be deceiving,
but boobs are always nice.

Oh, they’re so pleasant
both for women and for men,
don’t be shy, little girl,
show your rack as much as you can.

494

É necessário o lado sórdido das coisas?

– Pode distinguir-se o que é muito belo, depois.


Mas é necessário?

– Para mim é. Não quero dizer que o seja para as outras pessoas.

Mas magoa, a sordidez?

– Claro que magoa. É óbvio que magoa. Só magoa. E, se calhar, tudo isso é inútil, a sordidez. Se calhar, essas experiências são completamente inúteis. Mas, será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive?...

Provavelmente também há outras vias…

– Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. Por isso é que no Lunário não há lugar para a criação de uma nova moral.

Atrai, essa vertigem?

– Sim. Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros.



excerto da entrevista de Francisco José Viegas a Al Berto
 Revista Ler nº 5 . 1989


493

por vezes, aqui também há cor

setúbal . 2012

492

ordem de trabalhos:

descer das trevas,

provar o vinho,

matar o homem.

491

Retomo a este lugar feito de cinzas para dizer que morri.

Fechado na garganta de um corvo cego, o meu coração tornou-se novamente negro, feito de nostalgia, silêncio, solidão.

Rio-me de mim própria por ter achado que havia brandura do outro lado do fogo: ignóbil acervo de esperança, essa dor a que chamam amor.