150

no corpo de otília reis II


Otília Reis desenhava o contorno das coisas, através da fina lâmina do seu lápis de cor sépia.
Elevava a mão à altura do olhar e da esponjosa pendência dos dedos vertia a indefinida composição dos volumes.
Diziam que nada via, mas tinham por certo que não era cega: aos olhos de Otília Reis tinha-se acomodado uma espessa camada de névoa que, perpetuada pela pressão do interior das pálpebras, a impedia de ver para além de um horizonte marfim.
O seu corpo estendia-se paralelamente ao chão, a partir da zona da cintura; na deformação dos ossos surgia um quarto minguante de lua e a sua direcção era a da ponta dos dedos dos pés.

148

sobre o posicionamento de uma vírgula


era uma história recta. assim: ______________________________________


só que fora isso, nada
  
             e depois 


, + , = copularam vírgulas no vão embrutecido das escadas


                                 mas para além disso nada.                          houve uma espécie de b
                                                                                                                                      l
                                                                                                                                       o
                                                                                                                                         q
ueio criativo ao nível 
do
terceiro
§
.

e a vírgula verteu uma gosma esbranquiçada
muito líquida
muito espessa

e ao diafragma de seda polar cortaram
invisíveis veias de sangue congelado

durante a noite a vírgula cresceu 

e o seu sentido tornou-se lato 
era uma vírgula...como direi


,



mortal


e do lado de fora da sua inclinação, cambalearam reticências compostas de um qualquer inflamado ponto de exclamação

146

seios líquidos

diriam: era uma casa cor-de-morte.
e a casa cor-de-morte nascia do seio da seiva.
flutuavam omnipresentes deambulações de merda líquida
e o cargueiro temia, inchado, os próximos dez metros de ondulação.
do alto das catedrais vomitam gárgulas de tez-pedra,
e o ribombar do estaleiro da alma
avança cadavérico sobre as hastes do portão.
sai serradura do canal lacrimal de um qualquer pastor de trutas,
e a casa fede no crematório nupcial.

143

da trémula luminescência do candeeiro de mesa


como matar o pensamento e este não saber se de já, se de agora,
e cravar no mais fundo do peito a lâmina de sequências nubladas

- de mais um dia, mais do que amanhã -
retirando de debaixo das unhas o negro fluir da apedrejada insensatez?

não espero respostas para além do silêncio de arrastar de pálpebras sobre a gasta protuberância ocular,

e na inflamada incerteza da vida perscrutar o vento de outono sobre o pó dos ossos.
ao largo desta casa redesenho a escuridão, num retrato a preto e cinza de tóxicas memórias veladas pela espessa exorbitância da morte.
fora isso, descrevo um arco de circunferência sobre o peito dos pés,
e, rodopiando nesta amargura de sal-doce, aceno de sorriso inchado ao batalhão de sem-alma que caminha do lado de fora do meu armário: na vergada sequência de eventos, há-de flutuar a gasta luminescência da podridão.

141

Não espero que alguém entenda a dimensão da minha solidão. É um caminho traçado a sombras e a preto e branco, definições que só eu vejo e só eu sem, em mim, nesta abrupta sensação de abismo constante. Há um flutuar na orla dos dias, e eu sobre eles atravesso a cidade, a vida, as pessoas, as sensações. Cravo na pele as unhas e no sangue que me escorre sei que sim, que sou corpo e existo, algures, entre esta indefinição de prosa e a líquida dormência da poesia.

140


palavras de um pensamento interrompido


sei esta paisagem de cor por outras coisas: coisas-nada ou coisas-vinho
sei o tempo que escorre para lá da folha de papel e se derrete,
até aos dedos dos pés,
como um acabar lento de espaço e de melancolia.
há um apagar de horas sobre a mesa de centro,
e a casa eleva-se sobre a cota da estrada.
conto os anos que faltam para avistar a solidão e caminho,
sobre o corpo que me foge, caminho,
e prendo entre os fios de cabelo a recordação de um final de dia com sabor a azul.
vi em postais gastos de sépia e de esperança, este esplendor de sufoco e de vida:
um caminho estreito ladeado de ciprestes, desembocando numa casa em ruína.
soube os meus braços pendendo das janelas da casa,
e os meus joelhos no lugar das fundações;
a minha cabeça era um telhado quebrado pelo vento
e os meus olhos ninho de um qualquer ser esvoaçante de passagem sazonal.

136

o louco néon e as 20 catedrais


há um passar de horas sobre o cais: 
avança o tempo no cacilheiro e eleva-se a ondulação do rio; 
sobrevoam pássaros sobre a espessa medula do alcatrão;
corro as estradas atrás do reflexo de um ponto de luz,
encontro clareiras nas ruas que se estendem assim, solitárias
e o vento rasga os ossos e os ossos afundam-se no rio.
dizem que há uma cidade que se ergue paralela a este murmúrio de cabos de eléctrico 
e nela os seus habitantes se recolhem e se reconhecem,
sentados no ténue nevoeiro da outra margem da terra.
um assobio corta o espaço e um homem caminha;
diz-me um poema com três palavras, três palavras apenas que contêm o reflexo deste lugar;
e os corpos esvoaçam e pairam no ocre do céu 
e o translúcido plástico do saco deixado numa qualquer esquina 
envolve e prende os corpos que dentro dele desaparecem.
há um louco na cidade e as suas palavras são néons gastos que queimam e ferem a vista
e esfumaçam a distorcida perspectiva das coisas.
e o louco avança sobre a aparente calma de final de dia
verte da boca o espesso fluído da vida, quente, fétido, corrosivo
e assim morre e morre a cidade e morrem as pessoas sobre a praça.
gaivotas de olhos muito negros rasgam com os seus bicos aguçados as cabeças deixadas ao ocaso
e às vinte horas certas, desfazem o delírio os sinos da sé. 
não os ouço: o corpo é plástico e a alma do louco apoderou-se de mim.

135

análise de um pensamento justificado primeiramente à esquerda

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e no fundo é isto

134

apagão na cesta de vime


estão 23° do lado de fora da minha janela e eu sinto: um vento espesso a início de Inverno do lado de dentro do pijama.
coisas concretas como isto, ou aquilo, diluem-se no emaranhado holocáustico do perfume barato da vizinha do sexto andar; eleva-se em novelos amarelo-mijo e penetra os espaços intersticiais da argamassa sobre a laje de porcelana. um negrume zenital ofusca a claridade do pensamento e uma lesma apodera-se do corpo, marcando a pele com a sua baba peçonhenta.
às 15h23m, às 15h23m em ponto, brotam margaridas púrpura dos furúnculos dos pés: jaz um cachalote na adjacência do quarto-de-vestir e o pijama transforma-se em areia.

130

hoje sentei-me a pensar no futuro: imaginei-me daqui a 22 anos, tantos como aqueles que já vivi. não encontrei família, nem amigos, nem casa; soube uma viagem sem retorno pelos lugares mais impossíveis do globo. a voz seca de não falar, falar pouco, quase nada e a ponta dos dedos tingida pelo passar amarelado das folhas de papel. no olhar cansado soube-me mais velha do que a idade que me somavam os anos: os olhos vazios diziam vi tudo, as lágrimas esgotadas, já não sinto nada. as roupas, sempre negras, escondiam o corpo tatuado de palavras. palavras soltas como vento, paixão, água, morte, alcatrão, vazio, chegada, lisboa, mãos, banco, silêncio, paisagem, amor, sombra, impulso, tráfego, casa, mãe, crença, solidão, memória...

128

esperma nocturno


o que distingue os homens da noite dos cães da noite e os olhares que se cruzam na penumbra da madrugada?
é passado o crepúsculo vespertino e os homens avançam pelas ruas no silêncio da sombra que o luar lhes dá.
mãos nos bolsos e a voz silenciada pelo cigarro pendendo dos lábios. são cães que atravessam a cidade no seu destino incerto e irracional.
os cães juntam-se nas ruas oblíquas e farejam o sentido das coisas:
são muitos, tantos que se aproximam numa mancha negra de olhos fixos, imóveis.
e os cães penetram a noite com o sexo exposto brilhando na escuridão.
e os homens penetram putas e a sua solidão ofusca o esperma que escorre no peito a descoberto de uma qualquer raquel.
têm destinos incertos, os cães. e os homens, do topo das suas cabeças ocas, traçam carregadas linhas de carvão e de planos que não chegam ao amanhecer.
cruzam-se numa rua ao acaso: os homens olham os cães e sentem pena dos cães sozinhos na noite tão escura. os cães ignoram os homens e é essa a superioridade da sua razão.

127

recostei-me para morrer
re costei 
                   costei 
                             costeiEi ei


em-ietsocer
p
a
r
a
M O
R
RE 
R

a minha morte é lí
í
í
í
í
íquida


ESCUTA!*






e     a     v   i   d   a     é     só só só
                               li
DA DA DAAAA AAAA AAA


repito pepito, olha aqui:


para (não) morrer
morri
a (minha) morte é líquida
a vida é SÓ lida
só lida
lida

óó

são 5:00am + 7minutos depois da hora certa e a cidade amanhece. VAI: hoje vai para lá do teu reflexo em linha recta. quebra o espelho. LOUCURA DO LADO DE LÁ DA SOMBRA.

OUVE-ME
ouve-me me me
hoje, quando saíres à rua, dá um passo atrás por cada dois em frente

e só assim encontrarás o verdadeiro tempo do teu caminho.

sacode o cabelo
sacode o cabelo
sacode o cabelo
FAZ PA PA PUM PA PA com a mão na perna
pa pa pum pa pa
Pa pA puM Pa pa
e
sente
o eco 
da 
tua
mão

*Wordsong Al Berto, "14 de Janeiro"