a minha vida é feita de nadas que se multiplicam e perduram no tempo.
ou então que se dissipam como um nevoeiro ao longe, entre um cais abandonado e uma brisa de ar fresco.
não sei mais do que isso.
e a verdade é que nada mais interessa.
23
Hoje, pela primeira vez, sinto esta Lisboa como minha e não como o prolongamento de uma ilusão. E hoje, como nas coisas que se descobrem autênticas naquilo que se conhece, ou julgava conhecer, desenho de olhos fechados os seus contornos sobre um pedaço de papel.
Hoje, pela primeira vez, reencontro em mim a calma que julgava há muito perdida. Envolvo-me nesta imensa tranquilidade , hoje, pela primeira vez. E hoje, pela primeira vez, sinto a sublime expressão das paisagens, das cores, do frio que me gela as mãos e me faz tremer o corpo. Hoje, pela primeira vez, sinto o calor desta cidade de Outono, de chuva,de nuvens cada vez mais carregadas. Por entre elas, brilha o primeiro sol deste final de ano.
Redescubro a minha identidade nas folhas que esvoaçam: as das árvores, as do caderno em que escrevo.
Hoje, pela primeira vez.
21
Amo-te Outono. Enche-me do vermelho-amarelado das tuas folhas e do teu cheiro a início de mar revolto e vento.
20
nó no estômago e um sentimento que conheço demasiado bem.
tenho medo desta proximidade-abismo-selva.
tenho medo do dia de amanhã.
tenho medo desta proximidade-abismo-selva.
tenho medo do dia de amanhã.
19
amor perro II
amor, que só existe vazio. e este abismo que escavámos no tempo. já não somos reflexo e corpo que se completa, nem frase que se acaba ou sonho que se inicia. somos nada. passado, talvez. memórias de um amor, o primeiro amor, meu amor para sempre. e na areia sacudida ficam silêncios, e na praia que nos acolheu a passagem dos anos ficam palavras cravadas na areia que o mar levou. fica o vazio das tuas mãos na minhas e o meu corpo, cansado de lutar. é como uma morte lenta, uma morte demasiado lenta que me transforma em nevoeiro. e nós tão longe um do outro. o teu caminho foi o da direcção do vento e no teu planar sossegado ignoras o quanto te desconheces. eu sigo o caminho dos tufões, que é também de lágrimas e de medo. eu sei que não entendes, mas para mim passar pela vida é aceitar a descoberta, é querer saber o que está para lá da pele, para lá dos ossos, para lá do corpo. é impossível acreditar no amor entre um voo solitário e o bater de asas em bando. e por mais que nos queira abraçados no vislumbre de pôr-do-sol, não há traçado que intersecte a divergência das nossas vidas.
17
Preciso de manchar de Arte as mãos. Pastel de óleo nas unhas, carvão a marcar os dedos, tintas, pincéis e um não parar de criar memórias.
Este afastamento de régua e esquadro mata-me os sentidos.
Este afastamento de régua e esquadro mata-me os sentidos.
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