618

Cravei na areia a permanência do teu nome, na súplica de te dissipar sob as ondas do mar.

617

Eu dou-te as palavras, tu dás-me silêncio.

É-te suficiente, esse observar-me à distância?

616

Revisto-me do silêncio da tua partida,

é tarde.

Adormeço recostada nos braços de ninguém.

615

samaná . 2009

614

Escrevo-te,
chamas ascendem ao peito,
a escuridão da noite engole-me
como uma garganta fulminante,
uma vertigem,
um abismo inconstante de temor antigo,
escarpas, espinhos, espelhos sem reflexo,
absoluta lentidão,
o degolar do tempo pela memória
que penetra e empodrece o lugar
do coração.
Escrevo-te,
grito,
lágrimas sulcam a pele como lâminas,
ou como caminhos
traçados a sal
onde te procuro,
lugares que percorro chamando por ti,
estradas infinitas de terra-sangue,
terra-cinza,
terra-só-terra,
cemitério onde te fizeste corpo-terra,
lápide
e depois jardim.

A Irmã morta habita em mim
como uma tristeza de eternidade,
com a dolorosa incerteza do que há
para lá do corpo terrestre,
se será estrela
brilhando no espaço
ou inóspito vazio.
A Irmã morta habita em mim
como um espinho,
um punhal de lâmina
carregada de veneno,
como vento frio quebrando os ossos,
gelo, tempestades,
o rugir nocturno do oceano,
medo, lágrimas suspensas,
às vezes raiva,
às vezes serenidade,
talvez um dia perdão.

Escrevo-te,
mas escrever-te é escrever morte,
essa incógnita que chamaste para ti
e tornaste tua,
minha,
das irmãs sem Irmã,
da Mãe sem Filha,
dos filhos sem Mãe,
do absurdo que é
desconhecer em quem amamos
o lugar sombrio da sua
(in)existência.