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Na minha rua há um louco que se chama solidão. Traz uma corda em torno do pescoço, no coração uma seta cravada até ao outro lado do peito. Não tem mãos nem braços; duas rosas sem pétalas ocupam o seu lugar. Sorri com a boca vazia, enquanto uma lágrima seca se acomoda no mais profundo da pele. Dizem que um dia amou, mas que o amor o trocou por uma qualquer forma de liberdade. Vive de noite e morre de dia; às vezes parte num navio feito carcaça, ao largo de uma encosta esquecida. Um dia chamou-me para junto dele, deitou a cabeça no meu colo, pediu que lhe passasse as mãos pelos cabelos. Tinha o peso do mundo nos ossos e na alma a leveza de quem deixou de acreditar.