É de noite. O relógio marca o adiantado da hora mas, ainda assim, é de noite. O silêncio interrompido pela chuva, pelo ladrar dos cães, pelos trovões. Lisboa cai morta aos meus pés; na distância que nos separa sinto-lhe o respirar quebrado pela vaidade. Recordo que lá deixei o corpo - há quatro anos ou uma hora, já não sei. A claridade estende-se sobre a água do rio como branca espuma. No seu interior, um poço sem fim ecoa o ribombar da alma, o grito gutural do coração. Uma rosa apodrece no meu peito, crava-se no fundo da memória, como um sonho que não pedi para sonhar.
Paro o desejo silenciado, o tremer das mãos, as imagens esculpidas nos ossos; recosto-me no cadáver que trago junto à pele, peço à saudade para trancar a porta ao sair: talvez, assim, no lado mais interior do corpo, consiga erguer um monumento à minha solidão.