Mas já fumei.
A minha janela já deu para uma rua movimentada.
Já tive uma cadeira alta ao pé de mim para onde podia trepar sempre que quisesse e do seu topo admirar o mundo. Mas já não tenho. Há muita coisa que já não tenho.
Por vezes as palavras não chegam e incessantes são os silêncios que deixam tudo por dizer. Olhares não são espelhos de almas, mas reflexos de vazios perturbantes, espaços ocos, caminhos por percorrer. Puxo o lustro às estrelas na esperança que brilhem um pouco mais, aqueço as mãos no sol, na esperança que me aqueça o coração, mas em vão. Tudo em vão. Procuro algo familiar, algo que me dê conforto, mas não encontro nada. O universo desapareceu num imenso buraco negro.
Inspiro nervosamente o meu cigarro imaginário. Expiro de uma só vez a minha alma adormecida. Ia jurar que a minha cadeira era mais alta, a minha rua mais movimentada, o meu cigarro um pouco mais forte. Ia jurar que sim. Ia jurar que o céu tinha mais estrelas e a lua um brilho mais intenso e o tempo um compasso mais rápido. Ia jurar que sim! E ia jurar também que o sol não me queimava as mãos quando as aquecia nele, tenho a certeza que não! Porque o faz agora?
Vejo as últimas folhas do Outono a cair, as árvores agora despidas. Também as minhas folhas caíram, também eu despida me ergo, mas não para o céu. Desloco-me paralelamente ao chão, num voo baixo e rasante.
Tu és alto, não vai ser difícil tocares-me. Quando sentires que é altura de apanhar as folhas do chão e vestir a árvore despida, quando achares que é altura de devolver o brilho às estrelas e a paisagem às janelas, quando achares que é altura de subir para a cadeira alta, é só levantares o braço e abrires a mão. O meu voo será sempre baixo e rasante. Mas enquanto me queimares como o sol me queima as mãos, deixa-me continuar o meu voo, pois já caí vezes de mais.
Apago o cigarro.
Arrumo a cadeira.
Desligo as luzes.
Para mim o dia hoje acabou.