708

Escrevo-te como se ainda te 

sentisse nas palavras,

boca-de-mel,

do fio ainda morno de saliva,

escorrendo do contorno das coxas,

ao sexo pulsante, 

fulgurando o interior da carne.


A língua avança lenta sobre a pele,

tece a sua textura poro a

poro, vibra e estremece.

O corpo torna-se espesso, 

profundo,

imenso,

derrete ao toque com 

suor e suspiro.


No instante em que 

a carne cede ao incêndio,

abro-me inteira à chama. 

Já não há distância entre o que arde

e o que queima, 

juntos nos fazemos cinza. 

Diluo-me no rasto do teu corpo,

no interior que ainda lateja,

no sabor que a garganta guarda.

707

 


non compos mentis


ardil vs vulnerabilidade 

706

05h11m


É assustadora, a escrita. E eu caminho pela palavra, num labirinto em loop - sem saber se estou a descrever o que fiz, o que estou a fazer, o que vou fazer, ou o que poderia ter feito. A luz e as trevas confundem-se, a mentira do poema e a verdade da vida. A escrita antecipa, profetiza, altera, anula, amplifica. 

Escrevo para ser leve. Mas às vezes o peso do que escrevo volta para mim. E eu já não sei se o que sou é a minha essência, ou a materialização da metáfora. Porque escrevo os medos e os transfiro para mim. Porque escrevo sombra, e a sombra tapa o sol. 

Devia escrever sobre a ternura. Sobre não temer a vulnerabilidade. A suspensão. A paixão. O amor. Devia escrever sobre mergulhar de cabeça e nadar, mesmo não vendo o fundo. 

Devia. 

Mas os demónios têm boca e chamam por mim. 

705

04h25m


A noite fez-se insuportável. Acordei encharcada em suor. A garganta azeda. A cabeça a latejar.

Tantos anos caminhando no fino fio, resistindo a ventos e marés, e foi com uma aragem que caí. Com um vento leve de início de Primavera. Uma brisa. O fio é - sempre foi - fino, e eu caí. 

Desço agora ao fosso para apanhar os estilhaços da alma. Lavar o corpo suado. A língua com sabor a veneno. 

A cabeça pesada como um jazigo, prendendo os mortos. 

Penso que a culpa é da poesia. Que em vez de dizer metáfora, deveria dizer foda-se. Em vez de dizer está tudo bem, deveria dizer que está tudo bastante mal. 

Mas sobrevivi às trevas, uma vez mais. Fui matar saudades, digamos assim. 

O fio é fino e eu caí.

Talvez amanhã teça novas meadas. O fio se faça mais largo, mais resistente. Talvez amanhã já não faça da palavra prisão e da escrita loucura. 

Talvez amanhã a casa seja de pedra e cal. E tenha as flores e a poesia. Talvez amanhã, meu amor.

704

23h49m


Meu amor,

o meu sonho és tu, 
eu,
e uma casa de flores e poesia. 


Só que a minha casa não é de poesia, nem de flores, e muito menos contigo, meu amor. A minha casa é de fel: garrafa de vidro, gargalo alto, líquido dourado que me auto-mutila os sentidos. 
A minha casa é a inebriação de todas as coisas que fazem de mim humanaSensívelCapaz de sentir cada milímetro de inconstância
A minha casa é couraça, porta com um sentido apenas: cada passo de distância sem retorno possível. 
Na minha casa de vidro rio alto. Se sinto o veneno vítreo formar-se no olhar, troco-o por tímpanos furados, música impossivelmente alta, estrada nocturna sem destino. Na minha casa de vidro entram homens que me tatuam a pele, às 3h da manhã. Dormem na minha cama até os expulsar, entre náusea e nojo. 
E o vidro da garrafa-casa estilhaça-se, e eu vomito no chão de porcelanato. 
Há 10 anos dançava em lingerie.
Há 5 anos fazia amizade com o rapaz da loja de conveniência, para me deixar entrar fora de horas.
Agora, “vou pôr gasolina”, “ver a lua”, “arejar”: erguer a casa e cortar pela raiz cada grama de vulnerabilidade. Cada grama de sentimento. 


703


Respiração à tona do peito,

suspensa 

como as palavras 

pesada

como a memória.

702

Ossos com marcas de dentes e unhas, 

rasgados como papel: 

a besta devolve-me  o corpo que

lhe lancei ao desvario. 

Uso a carne de 

homens-sem-nome como

coberta numa noite fria, 

febril inconstância,

mutilação dos sentidos. 

Houve dois segundos em que

me esqueci de quem era

e abri as 

cancelas da alma.

Vergada.

Asco.

Erro crasso.


Dissolvo a pouquíssima ternura que me resta em frascos de terebentina e aguardo:

já falta pouco para regressar a mim. 


701


por


                            um





           fino






f

i

o




o insustentável peso de sentir todas as coisas

todas as palavras

todos os gestos

todas as  _______  ___ _


m u r a l h a


                    portafechada


.


fim

.



700

Há sempre qualquer coisa
animal moribundo 
lambendo as feridas
um fosso na penumbra 
e eu habitando a penumbra como 
sombra sobre a 
sombra.
Vulto.
O próprio fosso. 
Fossa asséptica.
Morada hermética onde 
escondo corpos sem alma
só corpos à espera 
de serem lançados ao mar.
Há sempre qualquer coisa
que é vertigem
que é queda
e eu na queda
de braços abertos
a pele em escara 
o riso viscoso
entregue à loucura.
E o riso bate nas
paredes pegajosas do fosso.
Ecoa.
Retoma a mim
como soco desenfreado
punho cerrado
nó dos dedos entre as costelas.
O riso louco recorda-me
porque fiz das sombras
morada de abismo.
Porque fiz dos corpos sem
alma família
porque me fiz fera de
feridas abertas
tropeçando
repetidamente
no nó nocturno da
solidão. 
Ah, o riso louco
que me diz que
arranquei do peito o coração
que me movo sem
órgão vital
que o fosso que habito é
mais fosso ainda no
vão do tórax.
O riso louco que sabe que
serei mais uma carcaça 
sem alma, 
inamável, 
na penumbra
entre escaras,
feras,
vultos,
escarro. 

Limpo o sangue da
pele – ou da alma,
já não sei,
e com abrigos de 
pó-cinza disfarço o
frio dos ossos. 
As mãos trémulas.
Vazias.
Como a loucura.

699

O poema
começa dentro do peito
e dentro do peito 
– entre marés e gerberas –  
existes tu. 
O poema nasce 
no espaço entre mim e ti,
fragmento onde a 
inquietação 
se faz coisa escrita.
O poema sou eu
e és tu. 
E nós existimos dentro da 
verdade imperfeita
do poema,
ao longo da página rasurada.
Já não habitamos só o peito:
habitamos o caderno,
a palavra,
o futuro do conjuntivo
do verbo estar,
ou o espaço entre as palavras 
–  o silêncio. 

O poema anuncia o seu fim
–  é sempre o poema
a dizer quando acaba. 

Fecho o caderno,

connosco dentro

na sépia da tinta. 

698

regresso à 
caverna-mercúrio 
onde o corpo se faz ofício
e a alma não pesa 

onde o coração não arde
e a pele
intocável
se cobre de abrigos 
de lã-veneno

regresso ao promontório do meu silêncio
onde não há chaga 
nem chama
só a espectral solidão do medo

o peito calcifica como rocha milenar
aqui
onde recolho a ternura
para lá do esquecimento

697

O silêncio deposita-se, 
lentamente, 
no lugar-abrigo onde o tempo aprende a respirar,
no espaço entre os corpos.
Não te chamo.
Não me movo.
Há gestos que pertencem ao outro
como o primeiro passo pertence ao abismo.
Sinto-te afastar sem te moveres
na tensão quase invisível que atravessa a noite 
fio estendido entre dois dedos.
Espero.
Com a perigosa inquietação 
de quem já inclinou o coração
um milímetro além do equilíbrio.

695

a lâmina romba rasga 

uma 
a
uma 

as veias-veneno.

694

Há um lugar na tua boca
onde o meu nome aprende a respirar
abrigo de fogo
sílaba morna
a nascer na húmida curvatura da tua língua.
Faz-se espesso 
na clausura da noite
entre o meu corpo e o teu
entre a pulsação contida
percorrendo a pele largada ao vento
mão suspensa
fio incandescente
onde o mundo inteiro se equilibra.
Nos teus lábios o meu nome estremece
à beira de dizer fica
e eu inclino-me 
devagar
para a vertigem da entrega
sabendo que não há rede
apenas o teu corpo
e uma janela de sal entreaberta
para a fera adormecida da alma.