627

Podia ser gaivota ou a ampla brisa do mar.
Podia ser onda ou nevoeiro,
pôr-do-sol no início do Verão
ou a chuva ainda morna do Outono.

Podia ser qualquer coisa que fosse tudo:
liberdade,
respirar,
o mundo.

626

Há chamas para lá das cidades,

também o mar se incendeia.

624


Guardar-te-ei para sempre no lugar mais terno do coração.

623

Destruir depois de ler

A tua presença anunciada pelo arrepio na minha pele, pelo coração ferindo o peito, pelo ar aprisionado na garganta. 

Depois olhar para o lado, ver-te e fugir, fugir tanto: de ti, da memória, da ilusão; e desfazer a raiva em suor e lágrimas largados no chão da casa.  

622

O meu fado é solidão de onde extraí o medo, 
velha casa onde me arrasto como sombra polida,
sombra morta ou esquecida,
traço faminto de humanidade.
Uma e outra noite tropeço no teu corpo, 
debruço-me sobre o branco ventre de um outrora amante, 
agora apenas vulto esfumando-se no limiar da memória.
A melancolia instala-se como uma densa nuvem de Outono, 
negra bruma ou 
mortal espuma lançada à ingratidão do tempo. 
A língua que ama é a mesma que mata, 
repetidamente, 
num tortuoso caminho 
marcado a sisal 
sobre a alvura da pele. 
Chamo-te num uivo, 
grito o teu nome à pálida esfera da noite: 
abre-se o céu em vertigem quando,
na certeza das quedas futuras,
diluo na fornalha da vida o sopro último do vento.