539


Relembro o sal na pele do marinheiro que atracou sobre o meu corpo. 
Raia o dia em negrume, disfarço a dor com mãos trémulas perscrutando o interior da carne.
Sei que os portos deixaram de assistir à tua chegada, as ondas escasseiam nos mares, recolhem a espuma, afastam-se. Não te chegou Veneza, o amor ou a solidão; tornaste-te náufrago de uma maldição chamada nostalgia. Partirás em breve, com a claridade fatídica da Primavera. Ninguém saberá que exististe.
Um dia, talvez, retomarei à praia das fotografias, cravarei o teu  nome na areia e, no tocar da água, também eu me esquecerei de ti.

538


Não acredito nas mãos de Deus.
Concedo-me o direito de ser eu a escolher o dia, hora e razão da minha morte. Deixo a decadência para a poesia, o corpo castigado para as palavras. Na minha carne não haverá sofrimento levado até à exaustão. E sim, sei que há coisas impossíveis de prever. Mas, para lá delas, há uma paz imensa ao pensar que, se quiser, daqui a 50 anos posso organizar os pertences em caixas etiquetadas e as memórias no coração, passar pelos lugares importantes, abraçar a família e os amigos e refugiar-me numa casa antiga erguida à beira-mar; pôr a minha música preferida a tocar - baixinho, para que não deixasse de ouvir as ondas - recostar-me e, com o final do dia, partir. Sem hospitais, nem agulhas, nem merdas dentro das veias, nem sufoco na garganta, nem coisas que ficaram por dizer. 
Depois bastava irem buscar-me, cremarem-me o corpo e, com as palavras de Al Berto, deitarem-me ao mar.

537


"Corpo corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa
abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado
mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas
levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo"
Al Berto . O Medo . Assírio & Alvim

535


O homem nocturno pede esmola a quem dorme.
Encosta o focinho às janelas fechadas e, por entre gotículas de vapor de água, arrasta a voz de lama,
tem um sonho que me empreste, por favor?

533

 

Dias de fel, a garganta acidifica a palavra nocturna:
Pai.
Estalam ossos, quebram-se as veias, inclino o corpo mole sobre a saudade.
Ousei um dia criar na memória o que não existiu, vestir o rosto de sorriso, a boca de histórias, as mãos de carinho; há tanta demência no recordar dos mortos.
Agora escondo-me por detrás do negro pano da razão. Finjo que o sentir não magoa, que não existem chagas no lugar do coração. 
Fecho-te em mim para que não me esqueças, percorro o interior dos ossos na esperança de um pedaço teu.
Ecoas.
Dissipas-te.
Faltas-me. 

532



Tenho os dedos amarelos de segurar cigarros que não deviam ser meus. Fumo para esquecer o silêncio, abdico do pensamento em troca de uma nuvem espessa perfurando os lábios mascarados de vermelho. 
O gotejar do tédio instala-se nas fissuras da pele e eu sinto que o meu corpo de aparentes 15 anos carrega, no mínimo, 100.
Como é bela, a puta da ironia da vida.

531

Agora é uma altura tão boa como outra qualquer para dizer que esta casa está velha e cheira a mofo. 

Antevejo um período de procura: às vezes não sei se este espaço aloja o meu lado mais denso, ou se esse lado existe apenas para este espaço.

Como não acredito em infinitos recomeços e fugas constantes, vou ficando por aqui. 

Até já.