679

Perdi a conta aos anos a que te amo, para lá da ausência do corpo, do silêncio das palavras, da certeza de que os nossos caminhos jamais se voltarão a cruzar.
Demasiadas vezes uivei o teu nome à lua para que te desvanecesses no firmamento, entreguei a tua memória às ondas para que te levassem para longe de mim. Mas como um espinho, a afiada lâmina de um punhal ensanguentado, trespassaste as camadas da pele de regresso ao lugar que em mim habitas.
Têm sido tantos os corpos que pelo meu corpo passam e em cada um deles encontro um pedaço de ti; e em cada pedaço teu mais me afundo no meu luto.
Não me apaixono, não me entrego a nada mais do que o prazer momentâneo, omito-te dos outros, por vezes de mim.
Sei-nos sepultados, como a um ente querido, sob uma laje de pedra. O tempo tecendo heras e pequenas magnólias na lápide, onde cravado a cinzel se lê: aqui jaz o amor que existiu um instante e permanecerá uma vida.

678

Há uma casa com um quarto e no centro do quarto uma cama.

A voz trémula diz noite, e a cama incendeia-se. Pela fresta estreitíssima da porta, o ténue azul que ilumina o corredor estende-se sobre a madeira do chão. Cheira a malvas e a sândalo, o lento crepitar das chamas ecoa por entre as paredes amareladas.

Não tenho como dizer-te que do meu corpo fiz túmulo. Não tenho como dizer-te que foi na essência da tua memória - para lá das palavras, para lá da saudade - que sepultei a paixão. Sobre a pele inventei uma nova textura, para que o poros que outras mãos tocam nunca sejam os mesmos qua tua mão tocou. E espero, e quase sinto, e quase cedo, e morro por dentro mais um pouco de todas as vezes que a cama se incendeia por outro alguém que não tu.

677

Sepulcro,
ou o lugar no peito
onde aprisionados jazem
os homens e mulheres que um dia amei.

E antecipo a sua fuga para que de
descanso seja feita a alma mas
grudados permanecem o tormento
clandestino que me assola o
sentir.

676

Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões 
da madeira fria. Foste uma faca cravada na minha 
vida secreta, agora és espuma ou lodo no fundo 
da memória. E como estrelas 
duplas consanguíneas, luzimos de um para o outro nas
trevas, entre um abraço sem corpo e as cinzas
da tua garganta árida.  

sobre Photomaton & Vox, Herberto Helder



675

Dormência:

quando o vinho não chega e tudo o que se precisa é de um lugar para onde fugir.

674

Sinto uma profunda tristeza. E dizê-lo implica tanta coragem quanto senti-lo, pois há muito que nos foi negado o direito de ser tristes. Por todo o lado, uma manifestação globalizada de aparente leveza e dormente euforia manipulam o sentir. Deixa de haver lugar para a dor individual, para o luto, para o denso e lento tempo durante o qual se  faz por respirar para lá do peso que pressiona o peito. E é nesse tempo, que deveria ser sagrado, que se choram todas as mágoas e se liberta toda a revolta: para que nada nos retalhe por dentro.
Sei, repetidamente, que ninguém nos magoa como quem nos ama. A navalha cravada por aqueles com quem partilhamos a existência será sempre mais afiada e a chaga mais profunda. Tenho o corpo coberto de cicatrizes invisíveis, deixadas por pessoas que já pouco existem, umas porque escolheram a morte, outras porque o medo de solidão as fez ceder a uma abstracta forma de vida.
A caminho dos 30 anos, continua a surpreender-me o modo como nos relacionamos uns com os outros, como se banalizou o egoísmo, o  sentir que acompanhar as partilhas virtuais é conhecer e, consequentemente, ficar apto para julgar, como os sentimentos se tornaram avulsos e as relações passageiras - tenham elas como base a amizade, a paixão, a atracção física ou intelectual. Surpreende-me como nada é eterno: não para que dure para sempre, mas para que haja total entrega, devoção e respeito. Um dia, um amigo que fiz numa cidade gelada disse-me que, no seu país, as pessoas não desistiam umas das outras. Que havia uma dedicação profunda à construção de uma relação com o outro, e uma consciência total do trabalho que essa construção - como qualquer outra -  implicava. Perguntei-lhe em que assentava essa postura generalizada. Numa palavra, respondeu-me: fé. Fé como "entrega total do espírito àquilo que se considera verdadeiro", fé como existência completa, total e, por isso, honesta e verdadeira. Nessa conversa aprendi coisas que jamais esquecerei, incluindo a importância da disponibilidade para o diálogo.
No meio desta invasão de imagens e informação rápida, esquecem-nos que há, no uso da palavra, a capacidade  imensa de dissipar equívocos. Que é através dela que se retira, da ideia que se tem do outro, o que é afinal a sua essência. Tantas lutas interiores a que nos sujeitamos, e nas quais arrastamos os outros, seriam facilmente resolvidas com um bom café e uma excelente conversa.

673


É este o tempo da banalidade,
em que já nada de sagrado existe,
em que tudo se vende
e todos se trocam.

672



Homens: o uso do plural para minimizar a ausência do singular.

671

Estado da arte: crença de significado na teorização do nada;
masturbação pública sob a forma de hashtag em nome próprio.

670



Faz silêncio das palavras que te dou,

eu faço palavra das palavras que me não deste. 

669



Silêncio 
para não dizer 
facada

Perdão 
para não dizer
revolta

Medo
para não dizer
suicídio

Solidão
para não dizer
mentira

Nada
para não dizer
amor.



668



Quero dizer-te que há em mim 
um lugar com o teu nome 
a que chamei ternura. 

667

Esperas por mim?, perguntaste. O frio da noite trespassava a pele como um punhal, petrificava os ossos. O vento, soprando amíude, desanhaliva-me os cabelos perante o teu sorriso: minha leoa, dizias de todas as vezes. Minha, a possessão no início de cada frase: minha querida, minha menina, minha paixão. E eu tão longe de ser tua. 

- Espero pelo quê?
- Por mim. Por nós. 
- Porque tenho que esperar por nós, se estamos aqui os dois, agora?

Nessa noite, não sabia ainda a diferença entre estar e ser, que estarmos juntos era diferente, muito diferente, de sermos juntos. Mas, percebo agora, como poderia existir com alguém que estava tão longe da essência da sua existência? Tão contra a sua natureza, tão a lutar contra tudo? Falaste-me em tempo, como se o tempo, por si só, te transformasse em alguém maior. E porque a ti te faltava tanto, continuavas a tomar-me como tua. Mas eu também sou teu, dizias, sem entender o quanto tudo isso era, para mim, absurdo. 

- Não é a melhor altura.
- O que é para ti a melhor altura?
- É quando organizar as ideias. 

Recordo-me que sorri porque entendi o quão longe estávamos um do outro, há tanto tempo; a proximidade do corpo, dissimulando a distância da alma. Dizias que eram também as conversas que nos uniam, os debates, o desejo de mundo, a poesia. Só que isso não é o essencial,  há algo maior, com a dimensão da própria vida: não se trata de olhar o mesmo, mas sim do modo como se vê. 
Expliquei-te que não ia esperar por ti, que isso seria menosprezar tudo o que tínhamos construído, transformar as boas memórias na ânsia desenfreada de novos momentos juntos. Não precisávamos disso. Não precisámos. 
Anos passaram sobre a noite gélida na praia. Sei que o tempo não te trouxe ainda a clareza de ideias que desejavas. Querido, sacode o frio dos ossos e a dormência da alma: as pessoas, o mundo, a vida...nada espera por ti.


666






Bruma: sonhei que éramos feitos de algo mais que nevoeiro. 

665

A dormência índigo do final de dia escorre pesadamente pelas paredes manchas de fel. Faz-se espessa, pesada mucosa, prende-se ao corpo como uma doença antiga. Na rua onde nos cruzámos formou-se um Império, e da amendoeira nada mais sobra do que as raízes apodrecidas, presas sob a terra alcatroada. 
Recordo as linhas que escrevemos juntos e penso: não há mentira que o tempo não transforme em verdade, toque a que a pele não acrescente calor, beijo a que a memória não adicione intensidade. E, de repente, o pouco que fomos juntos transforma-se em tudo imenso. 
Tenho aprendido que todas as coisas podem ser outra coisa qualquer, que não há nos gestos concretos nada que nos negue à interpretação. É uma cegueira colectiva, a procura de significado onde ele não existe, condição a que sucumbimos sem questionar, nem mesmo os que se julgam protegidos por uma vivência alternativa ou superioridade interior. 
Deste lado da penumbra, colecciono despojos de guerra, empresto uivo e gemido, encenada ternura, lábios manchados de vinho, noites cheias, dias lentos, palavras bonitas porque as feias não dão alento,  língua bífida impossivelmente húmida, abraços com hora de acabar, o quente do lençol, a impaciência, a porta da rua.
Para lá disso, nada. 

664

Espero-te aqui,
onde a branca espuma se demora sobre o alabastro da pele,
onde o murmúrio da voz se prolonga em suspenso suspiro.
Aqui, onde os meus braços se precipitam no abraço do teu corpo,
onde os lábios cedem à sede da salgada saliva.
Silencio-me: o tempo separando-se do lugar das outrora coisas,
as paisagens levitando, lentíssimas, sobre o leito das um dia clareiras.
Haverá espasmo e espanto, a morada do peito como
lugar onde primitivas prímulas pernoitam.
Haverá corpo demoradamente esculpido nas noites húmidas,
amanhecer sereno de sol e salsugem.