259

desci à pressa as escadas caiadas de pétalas de rosa,
mar salgado ou baladas cantadas ao vento ou à cor marfim.

julguei um dia ver em ti a sombra do meu corpo,
mas mais do que desejar a espera
esqueci-me de deixar de sonhar.

sobre os ossos, nevoeiro;
e a ténue luz e cinzas que isolaste pelo caminho.
ao largo de mil casas espero as bestas mudas,
que de copo erguido se assemelham à minha solidão.

enquanto respiro.
ou morro.
ou me ergo ante mim.

257

relembro a felicidade neste ensaio de outono, que o verão deixou escapar.

256

tenho uma caixa de cartão repleta de fotografias antigas, arrumadas meticulosamente em pequenos álbuns, com data e assunto.

têm tanto de belo como de doloroso, estas fotografias; são antigas não pelo tempo em que foram tiradas, mas pelo tudo que mudou.

revê-las é como ver o passado reflectido num espelho quebrado, e trespassar a carne, verter o sangue, extinguir o próprio corpo.

não me importo com as paisagens, uma imagem basta para as tornar eternas; o que jamais perdurará sobre um fundo de papel mate são as pessoas.
as minhas pessoas.
as minhas pessoas que já só existem dentro da caixa de cartão.

e dentro dela nós rimos, e brincamos, e somos felizes e completos na inocência da vida.
somos tantos,
somos todos,
são sombras.

do lado de fora da caixa, em fotografias só existo eu. não porque queira, apenas porque dói demasiado contar os rostos que faltam.