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Como uma faca de dois gumes cravada
sobre o extremo do medo,
sobre o extremo da alma,
a idade largada sob a roupa usada,
a pele moribunda,
lambida,
tocada.

Como o mar sem profundo
azul vibrante,
espectro imóvel rente às escaras
da terra perdido,
mão húmida que magoa e não nega
a razão da saudade,
o tempo passado,
o passado esquecido.

E se um dia fui marinheira
das ondas de ócio,
das ondas cegas,
das ondas de riso,
onde sepultei a verdade quando
da garganta fiz casa do silêncio mais profundo,
do amor mais impreciso?