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Perdi a conta aos anos a que te amo, para lá da ausência do corpo, do silêncio das palavras, da certeza de que os nossos caminhos jamais se voltarão a cruzar.
Demasiadas vezes uivei o teu nome à lua para que te desvanecesses no firmamento, entreguei a tua memória às ondas para que te levassem para longe de mim; mas como um espinho, a afiada lâmina de um punhal ensanguentado, trespassaste as camadas da pele de regresso ao lugar que em mim habitas.
Têm sido tantos os corpos que pelo meu corpo passam e em cada um deles encontro um pedaço de ti, e em cada pedaço teu mais me afundo no meu luto.
Não me apaixono, não me entrego a nada mais do que o prazer momentâneo, omito-te dos outros, por vezes de mim.
Sei-nos sepultados, como a um ente querido, sob uma laje de pedra. O tempo tecendo heras e pequenas magnólias na lápide, onde cravado a cinzel se lê: aqui jaz o amor que existiu um instante e permanecerá uma vida.