678

Há uma casa com um quarto e no centro do quarto uma cama.

A voz trémula diz noite, e a cama incendeia-se. Pela fresta estreitíssima da porta, o ténue azul que ilumina o corredor estende-se sobre a madeira do chão. Cheira a malvas e a sândalo, o lento crepitar das chamas ecoa por entre as paredes amareladas.

Não tenho como dizer-te que do meu corpo fiz túmulo. Não tenho como dizer-te que foi na essência da tua memória - para lá das palavras, para lá da saudade - que sepultei a paixão. Sobre a pele inventei uma nova textura, para que o poros que outras mãos tocam nunca sejam os mesmos qua tua mão tocou. E espero, e quase sinto, e quase cedo, e morro por dentro mais um pouco de todas as vezes que a cama se incendeia por outro alguém que não tu.