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I

Hayatimin Askı

Escrevo-te do convés deste navio-ferrugem, o horizonte desfazendo-se em chama. A Albânia liquefeita ante mim, como um poema antigo, dissipando-se na pouca tinta: uma linha de sombras, um punhado de luzes amarelas, e a chama ténue das velas que deixámos na igreja de Himarë, a arderem dentro da distância. Tudo se afasta e tudo entra em mim, como um suspiro.

Deixei a minha casa de silêncio há mais de um mês e o tempo é poeira colada à pele. É queijo de cabra e raki queimando o estômago, é o sal do mar Jónico pousado na língua. É o silêncio mineral das montanhas a romper-me o peito. Disseram-me que não era seguro viajar sozinha, que devia partir. Fiquei, porque fugir me pareceu absurdo; porque de fugir já fugia eu.

Antes de chegar a Himarë, dentro da garganta rochosa dos Balcãs, algo em mim se libertou. Não foi um instante: foi uma fenda lenta, uma porta rangendo por dentro do sangue. E eu, do outro lado do medo, a aceitar os outros. A aproximar-me. A devolver amor e compaixão como quem devolve um órgão ao corpo. 

Então surgiste tu, askim, por entre esta combustão interior, como se tivesses vivido sempre na margem secreta da minha vida.

O navio avança e eu flutuo nas vísceras sanguinolentas da memória. O mar azul-cobalto ondula como uma besta adormecida, a lua cheia derrama o seu leite espectral sobre a água. As estrelas brilham na densa carne negra do céu e a noite abre-se como um livro de ossos. Vejo-te, askim, levitando feito sombra inquieta, o teu rosto erguendo-se na escuridão. Os teus olhos - que reconheço de há cem anos - atravessando-me a alma, como se soubessem o meu nome antes de eu ser corpo.

Penso, por um instante, como tudo isto parece um sonho. Mas o teu cheiro permanece, acre, entranhado em mim. A tua mão ainda queima na minha pele. Os teus lábios ainda repousam húmidos sobre os meus. E sei, com uma certeza feroz, que foi real. Que, por alguma razão obscura e luminosa, nos cruzámos nos labirínticos caminhos da vida.

As lágrimas caem-me quentes pelo rosto. Não são tristeza: são sal. São baptismo. São excesso de vida. 

Seni çok seviyorum, meu amor.
Mesmo que o navio não chegue a atracar.