693

Sobre o desfiar do fio
a equilibrista sem rede:
o ar cortante na queda da
senda fulminada da aurora.

O precipício abrindo-se em chama
a pele em fiapos ao longo da escarpa
os músculos liquefeitos 
até ao ocre da chaga.

Nos ossos a solidão, 
cravada a lâmina romba,
o temor como manto denso,
manto de fel,
manto-mão-de-aço,
estilhaçando o lugar do outrora-coração.

Dos jardins recolho o canto dos pássaros
e do mar apago as ondas.
Houve um instante – brevíssimo – 
de esperança de uma outra coisa:
de talvez abraço, de talvez ternura,
de talvez alvura.

Assim regresso à caverna sem nome,
de feridas entreabertas,
fera suspensa
num labirinto de sangue
onde o eco dilui o meu nome
até ao próximo amanhecer.