IV
Na minha cabeça a imagem repetia-se em loop: via-te ao longe, corria na tua direcção, hayatimin aski, benim Sultanim. Ficávamos em silêncio, no mergulho do olhar, no tempo suspenso do reencontro: o mundo reduzido ao intervalo – mínimo – entre os nossos corpos.
Chegaste num dia de chuva, como são todos os dias das coisas que se extinguem — ou que para sempre perduram. Chegaste num dia de aeroporto de corpos moles apinhados, de sopro rarefeito na garganta, eu ausente de mim própria. Chegaste com um sorriso que não reconheci, de braços abertos como punhais, ferindo o ar. E eu estática, presa ao corpo. Nas entranhas, um nó de gelo. No rosto, a falta de expressão.
Envolveste-me num abraço feito de nada. De ausência. De coisa nenhuma.
O caminho até minha casa foi um atropelo de palavras inúteis — as obras do metro na Praça do Comércio, o tempo de viagem de comboio, o ponto exacto onde o Tejo encontra o Atlântico — como se a geografia pudesse preencher o vazio que se agarrou a nós.
Instalaste-te na minha casa com uma densidade inquietante. Por dois meses, vinhas. E eu sem reconhecer o agora.
Há um estranho na minha sala.
Há um estranho sentado à minha mesa.
Há um estranho adormecido, ao meu lado na cama.
E é enquanto dormes que te escrevo, na esperança de te reencontrar nas palavras.
Conhecemo-nos de olhos postos no mar, com a Grécia ao fundo, entre ruínas e o suor das pedras por nós erguidas. Conhecemo-nos no tempo dos dias longos, do vento morno beijando a pele, do lugar suspenso entre um verbo e o outro: a vida dizia ir e nós escrevemos ficar sobre uma frase em fuga. Que loucura pensar que resistiríamos ao fio de tempo entre nós tecido, à aridez do Inverno, à banalidade, à própria vida.
Na noite silenciosa, observo-te. Tudo em mim se fecha como um sarcófago antigo, na poeira da solidão: a pele queima quando lhe tocas, os lábios resistem aos teus, a tua presença asfixia-me. Sei que também eu me ergo, estranha, ante ti.
E no entanto, persistimos. Agarramo-nos às palavras como uma mentira bela:
seni çok seviyorum,
seni çok seviyorum,
seni çok seviyorum.
Mesmo sabendo que não é assim.