Três vezes o sangue
Dizem: três pessoas antes do amor maior
ou o nome que damos ao fogo quando ele já não queima.
Dizem: hão-de passar por mim as
histórias entrecruzadas de três vidas,
marcar a pele, rasgar a alma
levar a fé ao lodo da memória
Recordo o tempo em que pensei amar tudo o que me atravessava o corpo,
visceralmente,
como quem desconhece ainda a essência das feridas:
cada gemido uma boca de verdade inteira
e na inverdade da minha essência a ausência esculpida a sisal
Recordo como o vazio era dor antiga,
minha, da Mãe, da Irmã,
de todas as mulheres que se fizeram treva ante mim
e submissas se silenciaram
Mas o tempo entranha-se nos ossos,
na distância onde o amor se revela,
onde a luz se faz chaga e da chaga cicatriz a mercúrio caiada
E no sótão do esquecimento, os três incêndios:
O primeiro amor foi leve, como são as coisas primeiras,
para sempre, dizíamos,
para sempre.
Havia pôr-do-sol na praia, verão entrando pelas entranhas,
havia descoberta e inocência,
e as mãos ignorando o sangue que ia escorrendo dentro da pele
De palavra e sombra foi feito o segundo,
era um homem-lobo de olhos e alma negra.
Al Berto, Herberto, Satie desfiando o silêncio,
Margaret Leng Tan batendo nas cordas da felicidade como numa ferida,
Tarkovsky, Bergman — a convicção de que só a profundidade sangra,
de que era necessário sentir tudo até ao fundo da treva
O terceiro foi palco de estilhaços,
pedras soltas onde o coração se fez chama,
pela primeira vez,
deserto,
dentro da geometria impossível da dor
Depois houve uma década de abismo em loop,
corpo dormente,
alma alheada,
entre a abstracção das coisas vivas e a saudade das pessoas mortas
E eu percorrendo-me como uma estranha
no meu próprio labirinto de carne
Agora descanso na certeza do que já não importa:
o coração quieto como cinza,
esquecida do nome do fogo.
Não é dormência, é talvez
tranquilidade,
ou saber que nada é para sempre
Nem mesmo o lado-sombra,
O lado-silêncio
O lado-solidão
Recupero as palavras como quem regressa de um naufrágio,
reconstruindo a retalhos a própria alma,
entre os escombros da ruína
e a sede de sal para lá do inverno